Homens Amor Sexo e Humor - HASH










12/02/2005 23:13
Capítulo XXVIII

Eu estava extremamente assustado com aquela situação.
Podia não ser nada de mais, mas como tudo neste mundo é possível, e temos sempre o hábito de esperar o pior, algo de grave podia estar realmente acontecendo na loja naquele momento.
Mas, indiferente a qualquer perigo, eu corri em direção à cozinha da loja.
Seja lá o que estivesse acontecendo, eu tinha que estar ao lado do Robson.
Ainda que o alarme houvesse soado por causa de ladrões, ainda que estivessem armados, eu não conseguia agir racionalmente.
Um instinto animal, fora do comum, talvez até um instinto assassino, surgiu e tomou conta de mim. Eu partiria para cima de quem quer que fosse, se alguém pudesse estar fazendo algum mal ao Robson.
O barulho do alarme seguia, ensurdecedor. Impedia qualquer pensamento. Abafava qualquer outro som que poderia ser ouvido naquele momento. A loja era praticamente um breu.
A única luz que estava acesa, no momento em que o Robson levantara-se, era a débil iluminação da televisão.
Atravesso a cozinha, alcanço o interruptor e acendo a luz.
Procuro o local onde ouvira o barulho.
O Robson estava em pé, e mancando, dirigiu-se ao setor do alarme, e o desligou.
- Caramba! O que foi tudo isso? - Perguntei.
- Burrice minha. – Respondeu Robson. - O Alarme aciona-se automaticamente depois das duas da manhã. Eu que havia esquecido de desligá-lo. Ele nos detectou no delivery.
- Ê cabecinha oca a sua!!! Quer me matar do coração?
- Mas já passou. - Robson falou naquele tom de deixa disso.
O telefone tocou.
Era a empresa de segurança.
Como não caminhava muito bem naquele momento, Robson passou-me uma espécie de senha e eu corri ao telefone, para que vários carros da polícia não resolvessem aparecer na loja.

Ao voltar, vi que Robson estava sentado numa cadeira do salão da loja.
Gemia de dor. Segurava seu calcanhar. O mesmo calcanhar que eu machucara violentamente quando jogamos futebol no dia do churrasco.
- Que aconteceu cara? Que houve com seu tornozelo? - Aproximei-me, angustiado...
Robson respondeu, gemendo:
- Eu corri para desligar o alarme. Mas como estava de meias, tropecei em uma poça de água que formou-se em volta de um dos balcões refrigerados na cozinha. Não consegui me segurar e arrebentei-me no chão. E bati o pé contra o balcão.
- Vou buscar um pano com água quente. - Levantei-me e fui até a pia.
Voltei, peguei em seu pé e tirei sua meia.
Eu adorava olhar o pé do Robson. Era um pé muito lindo. Unhas perfeitas. Nem muito peludo, nem muito pelado. Eu, que nunca fui muito fã de pés, tinha fetiche pelo do Robson. Aliás, até pelo dedo mindinho do Robson eu sentia tesão.
Mas não pude admirar muito daquela vez. Percebi que o tornozelo de Robson estava ficando roxo. Fiquei com medo de Robson ter quebrado alguma coisa.

Levantei-me e falei:
- Robson, vamos ao médico. Pode ser perigoso.
Ele hesitou um pouco, mas acabou concordando, pois o tornozelo começou a inchar.
Trocamos de roupa. Eu ajudando ele a se vestir, é claro.

Acionamos o alarme, e saímos, com ele segurando eu meu ombro.
Havia um hospital que atendia nosso convênio a poucos quarteirões dali, chegamos em poucos minutos.
Tamanha foi minha preocupação de não querer sair do lado dele quando estávamos no hospital, que a enfermeira perguntou se éramos irmãos. O Robson disse que não. Ela ria com o canto da boca, acho que entendeu o que rolava...

Robson havia torcido o tornozelo, que havia inflamado, mas não estava quebrado, graças a Deus. Mas precisou tomar uma injeção sei lá do quê e enfaixar.
Saímos de lá bem depois, e voltamos à loja.
Estava perto de amanhecer. Mal havíamos dormido.
Entramos na loja, estávamos indo desligar o alarme, quando ele brincou:
- Acho que você vai ter que me carregar no colo, de agora em diante.
Eu falei:
- Eu faço questão.
Resolvi pegá-lo no colo e levá-lo até o setor do alarme. Rimos muito. Ele era muito pesado por ser forte. Mas ainda bem que era bem menor que eu.
Não percebemos, mas o Thomaz já havia entrado e foi nos recepcionar na porta. Havia chegado mais cedo porque a empresa de Segurança ligara para ele.
O tio de Robson o viu em meus braços.
E havia visto a bagunça no delivery... Nossa cama.
Se vendo o pouco que ele havia visto, me mandou para outro lado da cidade... O que faria agora, quando era uma certeza?

Capítulo XXIX

Por uns dois segundos, eu juro que tive vontade de jogar o Robson longe e gritar:
- Mas não é possível, isto só pode ser pegadinha!!! Como alguém pode ter tanta sorte e tanto azar ao mesmo tempo, isto parece filme de ficção científica!!!

Contive-me e resolvi colocá-lo no chão, aguardando a reação do Sr. Thomaz.
- O que foi que aconteceu aqui?- Perguntou Thomaz num tom preocupado, mas calmo, apesar da situação.
- O alarme disparou sozinho no meio da madrugada. - Começou a falar o Robson, naquele tom agoniado de quem se justifica de algo muito errado. - Resolvi correr para desligá-lo e acabei dando uma pancada no tornozelo.
- E o Vilser ? Por que ele está aqui ? - Thomaz pergunta sem conseguir esconder uma certa vontade de rir, como quem diz: “Pode me falar o que quiser, mas eu já consigo imaginar o que ele está fazendo aqui...”
- Ele veio me ajudar a fazer o fechamento.- Falou Robson, abaixando a cabeça...- Eu tinha algumas dúvidas, e como ele deu uma passada na loja para conversar com o pessoal, pedi para que ele ficasse.
- Robson, - falou Thomaz, como se desse uma bronca, mas num tom extremamente brando, com aquela mesma vontade de rir: você sabe que ninguém, mesmo sendo de outra unidade, pode ficar na loja após o fechamento, além dos funcionários da própria loja.
- Aliás, - Continuou Thomaz após uma pausa, você também deve saber disso não é, Vilser ?
- Eu sei. - Falei.- Mas, Thomaz, era um caso de extrema necessidade, senão o Robson não ia embora hoje, ele está começando, dê um crédito para nós.
- Tudo bem, desta vez passa.- Thomaz suspirou e continuou:- Mas jamais deixem que saibam disso. Se o supervisor de lojas desconfia desta história, nós três estamos fritos.
Como Thomaz faria a abertura da loja naquele dia, resolveu ficar por lá mesmo.
Eu e Robson fomos tomar um café.
Como era gostoso passar a noite sozinho ao lado da pessoa que eu considera a mais interessante do mundo. E tomar café junto com ela.
Depois, perguntei se Robson gostaria se eu o ajudasse a ir para casa. Ele disse que precisava descansar e pensar um pouco, sozinho, sobre o que aconteceu. Tudo foi muito forte e rápido para a cabeça dele.
Levei-o então apenas até o ponto de ônibus. Tive que deixar a oportunidade de dormir agarradinho com ele para outro dia, contra minha vontade.
Sem mais alternativas, fui descansar um pouco, na minha própria cama.
...
À tarde fui para o serviço.
Trabalhei com aquela sensação de euforia. Tudo estava mais feliz. O mundo sorria. Era como se todos fossem felizes na face da Terra. Como se eu fosse a pessoa mais feliz do mundo.
Nem me preocupei com o flagra do Thomaz. Se o Robson se apaixonasse por mim, não haveria nada nem ninguém que nos separasse. Nunca mais.

Mas no final da noite daquele dia, recebo uma ligação de Robson.
- E aí, beleza? - Robson começou a conversa.
- Beleza. E o tornozelo, melhorou?
- Pois é. Quando eu cheguei em casa, eu achei que ele estava mais inchado, e teve uma hora que eu não conseguia mais andar. Voltei ao médico, e ele me deu uma semana de licença.
- Que droga. Mas pelo menos, você ganhou uma semana de molho em casa... Acho que vou ter que sair do serviço e ir direto para sua casa, para cuidar de você...

Robson deu uma risada meio sem jeito, e continuou:
- Pois é Vilser. - E dava um suspiro, como se me preparasse para más notícias.- É que eu vou usar estes dias para ir a Londrina. Sabe como é, minha mãe fica o tempo todo em casa e estaria mais tempo ao meu lado.
- Claro. Tá certo. - eu disse, como se tentasse compreender a situação dele, mas sem conseguir esconder a frustração.
- Vilser. Como você ia ficar comigo se você trabalha das oito da manhã as nove da noite ? - Robson tentava justificar, percebendo que a notícia não havia me agradado. - Além do mais a Vanessa é médica, pode conhecer um bom lugar para que eu possa me tratar.
Teria sido melhor se ele tivesse ficado quieto.
Num primeiro impulso eu queria xingá-lo, gritar com ele: “Vá desgraçado, vá atrás daquela piranha jumenta oxigenada débil caquética idiota estressada puta puta puta” – e todos os outros adjetivos dóceis que passam pela nossa cabeça nestes momentos...

Mas respirei fundo e percebi que não ganharia nada com esta atitude. Até porque eu estava no setor de delivery e de pedidos de viagem da minha loja, e havia alguns clientes no balcão.
Não xinguei, não adulei, não falei nada.
- Vilser?
- Fala...
- Então... Semana que vem eu volto, e a gente conversa, beleza?
- É. Fazer o quê ?
- Vai ficar emburrado a semana inteira?
- Não. Não sei. Talvez. Acho que não. - Eu não conseguia mais pensar para responder, estava muito triste.
- Tá, então até mais.
- Falou...
...
Durante aquela semana em que esteve fora, o Robson não me ligou.
Obviamente, fiquei extremamente triste e preocupado.
Eu não conseguia entender as coisas.
Será que foi uma decisão do próprio Robson ou houve alguma influência do Thomaz ?
Concluí que talvez Robson estivesse a arrependido pelo que fizemos.
Eu tentava olhar para trás e entender tudo o que aconteceu entre nós dois.
Nós éramos bons amigos. Mas eu estava apaixonado por ele.
E ele aos poucos foi cedendo espaço para que tivéssemos um contato mais íntimo.

Nenhum homem heterossexual faria isso.
Mas não havia como saber se ele permitiu que acontecesse algo por que ele também me amava ou se era apenas curiosidade. Apenas para saber como era estar com um homem. Que o amava mais do que a si mesmo.
Por mais que nós pensemos que conhecemos alguém, na verdade, nós nunca o conhecemos de verdade.

Sem outros meios de descobrir a verdade, resolvi partir para o plano B.
Liguei para Alessandra na quinta-feira e a convidei para pormos nosso trabalho em prática.

Capítulo XXX

Marquei nosso “trabalhinho” para a noite de quinta-feira, folga da Alessandra.
O primeiro gerente da minha loja, o Maurício, saiu às nove horas da noite, nem viu Alessandra chegar...
Ele não podia desconfiar que sua loja viraria uma espécie de terreiro.

Alessandra chegou às dez.
Os demais funcionários da minha loja imaginavam que talvez algo de interessante rolasse naquela noite entre eu e Alessandra.
Aliás, ninguém jamais soube o que realmente aconteceu naquela noite, até hoje.
Nem este fato, nem os outros que eu já aprontei por causa do Robson...
Depois que todos foram embora, comemos um lanche, e em seguida, resolvemos não perder mais tempo...
Era quase meia-noite.

- E aí Alessandra, o que vai ser necessário? Quantas galinhas pretas você trouxe? - perguntei, vendo-a abrir sua mochila de onde retirava uns apetrechos.
- Primeiro, pegue este pedaço de papel e escreva o nome completo do Robson.

Segui sua ordem.
- Pronto, e agora? Preciso tirar meu sangue também ? Tem pelo menos uns três sapos aí dentro desta bolsa, não tem não?
- Não seu bobo. Neste outro papel, escreva o nome completo da Vanessa.
- Acho que não vai dar, esqueci. - Eu disse, fazendo cara de desespero.
- Vilser, eu não acredito!!! Depois de todo meu esforço de vir até aqui, você me fala uma asneira destas!!!
- Relaxa, mina. É zoeira.. - Termino de escrever, rindo do fato dela quase ter levado à serio minha resposta.
- Vilser, tente levar isto mais a sério. Vai que a coisa desanda, de tanto que você brinca...
Bem, o que eu perderia se simplesmente colaborasse?
Fomos para a sala de reuniões da loja.
Ela pegou de sua bolsa uma foto, que tiramos no dia do churrasco. Nesta foto, eu estava abraçado ao Robson.

- Guarde esta foto em seu bolso. - disse ela.
- E agora?
- Pegue o papel que contém o nome dele, e passe em volta de seu corpo.
- Certo.

Um minuto depois...
- Pronto? - Pergunto eu.
- Esfregue mais um pouco. Sua energia precisa estar ligado ao nome dele...
- Tá bom, Morgana.

Três minutos depois...
- Chega, Alessandra. O Robson já deve estar enjoando de mim... Tamanho esfrega-esfrega.
- É acho que está bom. Agora, vamos amarrar cada nome em uma tesoura, com uma fita vermelha.

- Pronto, que mais ? A quem precisamos matar com estas tesouras ?
- Ninguém. - Disse, irritada pela nova piada. - Agora precisamos enterrá-las, uma bem distante da outra... Para garantir que haja a separação...
- Quando as enterraremos? Agora? - perguntei.
- Podemos deixar para amanhã. Mesmo assim, por enquanto, guarde a tesoura do Robson com você e já deixe a tesoura da Vanessa bem longe, do outro lado da loja. Quanto antes estas tesouras estiverem separadas, melhor.

Assim foi feito.
A tesoura com o nome do Robson ficou junto de mim, e coloquei a tesoura da Vanessa num freezer gigantesco. Haveria melhor lugar ? Simbolicamente, eu a deixei no Pólo Norte.
...
Abrimos umas latinhas de cerveja para comemorar a nossa união contra a Vanessa.
Depois, preparei um lugar onde eu e a Alessandra poderíamos descansar.
Alessandra deitou-se.
Eu fiquei sentado, admirando a foto do Robson.
Olhava como se ele fosse um sonho distante. Sentia saudades de alguém que se pode ter por apenas um brevíssimo instante.
Momentos estes que se dependesse de nossa exclusiva vontade, seriam prolongados pela eternidade.

Alessandra observou meus olhos rasos d’água.
Disse-me que talvez acender uma vela e fazer um pedido ajudasse.
Foi o que fiz. Enquanto Alessandra dormia, fui para a mesa da gerência, acendi a vela, pedi o Robson para mim repetidas vezes até quase pegar no sono.

Duas horas da madrugada, o telefone toca.
- Cacete, quem deve ser a esta hora?- Esbravejei, assustado por estar pegando no sono.- Aposto que é um cliente pensando que fazemos entregas vinte e quatro horas, eu vou atender mas só para xingá-lo.
- Bom dia.- Atendi o telefone num tom gostoso de se ouvir, como quem diz:- “Vá tomar no seu cu, piranha do caralho!!!”
- Vilser? Te acordei, cara? - Era o Robson.
“Buceta cabeluda!!! Não é que a porra da simpatia já deu sinal de sucesso???”- pensei.
- E aí, Robson. Já voltou de viagem?
- Pois é, cheguei hoje, já estou bem melhor... Voltei a trabalhar um dia antes...
- E porque não me ligou antes?
- Ah, meu. Eu tava meio sem grana pra comprar cartão. Viagem no meio do mês, de última hora. E lá, eu não me sentia a vontade para ligar da casa dos outros.
- E hoje? - perguntei, ainda irritado.
- Hoje foi meio corrido aqui na loja.
- E veio me ligar a esta hora da madrugada?
- Foi o horário que eu consegui fechar o sistema todo da loja, mas já que estou incomodando, então eu desligo.

Aí me deu um estalo – “Que espécie de jumento eu sou? Meu, o cara tá ligando. Aproveita, demente!”
- Desculpa Robson, eu fiquei meio assustado pela ligação de madrugada.
- Tudo bem, eu sei que não é muito legal, mas resolvi ver se você estava dormindo na loja. Assim como eu.
- Certo. E aí, conseguiu fechar tudo tranqüilamente? - Perguntei, com medo de que aquela ligação fosse apenas para pedir mais uma ajuda.
- Tudo tranqüilo. Eu só liguei para te dizer boa noite.

Engoli a seco.

- Ah, e tem mais uma coisa que eu queria te dizer... - Disse Robson, um tanto afoito.

Na hora eu ajoelhei no chão, olhei para a foto e pedi para que ele dissesse: “te amo, te amo, te amo!!!”
- Fala... - Fingi naturalidade. Mas estava tremendo até a unha do pé.
- Hoje a tarde o Thomaz me pediu para te dizer que quer falar com você.
- E... sobre o que seria? - Perguntei, decepcionado, e agora, preocupado.
- Ele quer saber se você está a fim de voltar para nossa loja...

Capítulo XXXI

No outro dia, antes de ir trabalhar dei uma passada na loja de Thomaz.
Logo na porta, Robson já me recepciona com aquele sorriso de holofote, que sempre iluminou minha alma:

- E aí, beleza, rapaz ?
- Beleza.

Nós ficamos ali, nos olhando, sorrindo, sem muito assunto para falar. Minha raiva por ele não ter me ligado durante os dias em que passou fora, desaparecera. Meus olhos naquele momento queriam matar saudades dos olhos dele.
Permanecemos mais alguns minutos daquele jeito. Ambos ensaiando quem seria o próximo a pronunciar uma palavra. Apenas a companhia dele já me bastava para suprir todas as necessidades da alma.

O Thomaz apareceu pela porta de entrada e ao me ver também ficou contente, e falou:

- Olá, Vilser. Em seguida, deu uma risada contida. Percebeu que eu fiquei um pouco sem graça no instante em que ele apareceu, quebrando o clima de felicidade que pairava sobre mim. Mas já que não tinha outro jeito, continuou, sorrindo:
- Agora que você já matou saudades do seu querido, entre. Vamos conversar um pouco...

Confesso que não me senti bem com a afirmação do Thomaz. Sei que ele não era um imbecil. Qualquer um no lugar dele perceberia que algo acontecia entre eu e o Robson.
Mas do que ele sabia ? O que se passava na cabeça dele ? Como seria minha vida na mesma loja que alguém que sabia de minha paixão pelo seu sobrinho.

Não demorei muito para descobrir...
Fomos à gerência, ele me pediu para sentar, e a conversa começou.

- Vilser, sinceramente, o que você acha de voltar para minha loja ?
- Bem, Sr. Thomaz, eu trabalho aqui há mais de três anos. Eu já conheço o sistema, o pessoal, o tipo de público que freqüenta esta unidade, a loja é perto da minha casa... Não há como dizer que eu não gostaria...
- É perto do Robson... - Thomaz falou, e riu.
- Sr. Thomaz, eu... - Resolvi intervir, mas não tinha argumentos...
- Vilser, sinceramente, eu não ligo para o que rola entre você e o Robson. Vocês dois são maiores de idade e devem saber o que querem da vida. Se o Robson quisesse trocar a namorada dele por você, por mais que eu quisesse interferir, seria minha vontade contra a dele... Nada neste mundo poderia me fazer convencê-lo do contrário... Então, como diriam os rapazes desta loja, que rolem os “babados”... - e riu novamente.

Fiquei quieto. Não tinha o que falar. Foi até gostoso ouvir aquilo.
- A Letícia não está conseguindo tocar esta loja como segunda gerente, está sempre atrasada, sempre atrapalhada, não gosta muito do Robson, o que só aumenta a bronca do pessoal contra ele... E como o Robson é meu sobrinho, não posso interferir sem me queimar...

Deu uma pausa para que eu assimilasse a idéia e continuou:
- Entretanto, todos sempre gostaram e respeitaram você... E eu sei, e o Maurício sempre fala nas reuniões, que você é um ótimo gerente... Somando isto ao fato de que você gosta do Robson... Isto poderia ajudar muito a minha loja.
Seu carisma faria com que todos aprendessem a gostar do Robson, e o sentimento de equipe dentro da loja melhoraria... E tudo ficaria bom para nós três... O que você acha ?
- Eu concordo. - Chutei o pau da barraca. Já que estava na cara mesmo, para que bancar o humilde ?

Era um plano de certa forma, maquiavélico. Mas eu não conseguia me importar com o que ia acontecer com a Letícia. O importante era ficar perto do Robson todos os dias...
Houve uma reunião dias depois, e foi negociada minha troca de loja com a Letícia.
Quem sabe trabalhando para um gerente bonitão como o Maurício, ela se sentiria mais animada ?

Duas semanas depois, eu comecei novamente na loja do Robson.
Apesar das minhas expectativas, logo no primeiro dia, uma guerra começou...

Capítulo XXXII

Imaginem como estava meu coração para começar a trabalhar novamente na mesma loja do Robson. Principalmente numa situação que nos deixaria muito mais próximos, pois ambos faríamos parte da mesma equipe gerencial.
Logo no dia em que cheguei, fui recebido com abraços melosos de todos os funcionários, parecia que me consideravam um salvador da pátria, o herói que iria salvar a loja da bagunça total... Letícia realmente teve problemas ali...

Naquele dia, Robson estava no turno da manhã, abrindo a loja, e eu fecharia. Cheguei às 17:00. Queria Ter entrado às 10:00 da manhã, para ver o Robson mais cedo. Mas preferi conter a ansiedade.

Troquei-me, e iniciei meu plantão.
Era uma tarde ensolarada. O céu quase vermelho. Pássaros cantando pelas árvores da praça que ficava em frente à loja. A primavera começava a mostrar sua cara.
Era um cenário perfeito para um comercial de margarina. A vida parecia se esforçar, criava um cenário de final feliz na minha vida.
Mas infelizmente, felicidade demais parece prenunciar desgraças.
Em menos de meia hora depois em que iniciei meu plantão, escuto uma discussão vindo do setor de delivery.
André estava brigando com o Robson.

- Eu não vou levar o lixo para fora porque sempre sou eu que faço isso. Mande uma das meninas levar. - Ralhava André.
- André, todas as meninas estão ocupadas. Você está apenas dobrando caixinhas. E já tem várias caixinhas dobradas na loja. - Robson tentava educadamente pedir ao André, inutilmente.
- Escuta aqui, Robson, nem minha mãe manda em mim... Não vai ser um baixinho metido a esperto que vai mandar, não.

O Robson era bonito, era forte, era malhado. Mas não gostava de criar encrenca com ninguém. Uma vez nós fomos ao shopping, e ele recebeu um lanche errado de uma lanchonete. Nesta ocasião, perguntei se ele queria que eu trocasse o lanche. Ele preferiu deixar passar batido.
Eu também sou assim. Bobo. De um modo geral, se uma pessoa me ofende, me xinga, no máximo eu finjo que não é comigo. Mas pelo Robson eu era capaz de tudo neste mundo. Acho que seria capaz de partir para cima de qualquer lutador de Jiu-Jitsu se necessário fosse.
Entrei no delivery, e friamente, falei como se conta uma fábula infantil, num tom sereno, mas carregado de um ódio cego:
- Se sua mãe foi incapaz de te dar uma educação decente, nós não temos nada a ver com isto. O Robson é gerente da loja e você vai tratá-lo como tal.
- Vilser, é que o Robson não sabe pedir as coisas. – Como todos já estavam acostumados a me respeitar, o loirão abaixou a voz no mesmo instante, quase gaguejando.
- Eu não quero desculpas. Aqui não é um lugar onde você faz o que quer, rapaz. Você está aqui para trabalhar. - Comecei a levantar a voz, atraindo mais funcionários para o setor.

Todos sempre gostaram muito de mim porque meu estilo de dar bronca era completamente diferente do que eu fazia naquele momento. Eu sempre chamava as pessoas de canto, e tentava explicar porque era necessário que minhas ordens fossem cumpridas.
Mas não daquela vez. E aquele ato era intencional, todos deveriam saber o que eu queria naquele momento.
- Escuta aqui, Vilser. Ninguém levanta a voz para mim não.
- Escuta aqui você, André. Na hora de falar alto com o Robson, você se acha no direito de defender seus interesses de proletariado perseguido pelo patrão. E depois vem querendo que alguém fale com educação com você. - Respirei fundo e falei num tom mais baixo.- Simplesmente obedeça às ordens que vêm de seu superior. Ninguém está te pedindo nada além do que você pode fazer com uma mão nas costas.
André, abaixou a cabeça, tomou o rumo da lixeira e resmungou para que poucos ouvissem, cuidando para que não chegasse aos meus ouvidos – mas chegou:
- Fica aí defendendo o namoradinho e quem se fode sou eu!
Ouvi alguns risos.
- André. - Chamei-o no mesmo instante, mais sereno ainda. Quanto mais irritado eu ficava, mais tranqüilamente eu falava...
- Fala... - Com ar de quem estava apenas brincando o tempo todo.
- Sua opinião sobre o que pode existir entre eu e o Robson não me interessa, e ai daquele que ficar levantando piadinhas sobre isto na minha frente. Caso vocês não saibam... - e isto eu falava para todos - Quem manda nesta loja sou eu, e podem ter certeza que eu vou tirar da minha frente quem estiver no caminho.

Um silêncio e uma cara de medo tomou conta das pessoas que ali estavam.
- André, você não precisa mais levar o lixo para fora... Pode pegar suas coisas e ir para casa neste mesmo instante...
- Eu vou falar com o Sr. Thomaz... - indignou-se André.

Ele foi. E o Sr. Thomaz disse à ele que não se intrometeria. A loja estava em minhas mãos. Eu tinha carta branca para fazer o que bem entendia... Inclusive demitir o loirão que eu havia contratado por achá-lo bonito...

Capítulo XXXIII

Na mesma noite em que ameacei o André, Alessandra veio falar comigo.
Eu estava na sala da gerência, digitando a produtividade do dia, quando ela chegou:
- Vilser, posso falar com você?
- Claro, pode entrar... - Falei, sem tirar os olhos do computador, de certa forma imaginando sobre o que se tratava.

Ouvi-a respirando fundo, como se tomasse coragem para algo...
- Vilser. Tudo bem que o André merecia uma lição. Mas eu acho que mandá-lo embora seria ir longe demais. Eu sei que você não é tão ruim assim.

Eu sabia que ela me pedia isto porque estava interessado nele.
Sabia também que ela sentia por ele o mesmo que eu sentia pelo Robson.
Voltei-me para ela, e disse:

- Alessandra. Cada um neste mundo constrói seus próprios caminhos. Cada um paga pelos seus próprios pecados...
- Eu sei, Vilser. Mas será que não tem outro jeito ?
- Alessandra... Eu não posso permitir que nem o André, nem ninguém, atrapalhe meus planos com o Robson. - Eu falava, num tom de tranqüilidade que eu mesmo me espantava... - Eu não cheguei até onde cheguei se não estivesse disposto a tudo. Pode ter certeza de que eu sou capaz de derrubar quem entrar na minha frente, sem sombra de dúvida.
- E se o Robson estivesse te usando para isto mesmo? - Disse-me Alessandra em tom de ameaça - Te usando para conseguir nesta loja tudo o que ele quer...
- Do que você está falando?
- Ora, Vilser. Eles - o Robson e o Thomaz - podem muito bem estar apenas usando sua influência para deixar esta loja como eles gostariam... O Robson pode nunca ter gostado de você... Mas teria deixado as coisas chegarem onde chegaram apenas para conseguir o que ele queria... Mandar e desmandar na loja... Você já pensou nisto ?
Não posso negar que aquela afirmação não soava estranha aos meus pensamentos...
Muitas vezes eu me peguei pensando naquilo, pensando que tudo o que o Robson queria era obter o meu apoio incondicional, assim como ele fazia com a namorada dele, ele poderia estar me usando para conseguir o que queria...

Mas era tarde demais para mudar o rumo da história. Seja lá qual fosse a intenção do Robson, eu deveria arcar com as conseqüências.
- Alessandra, eu já não me importo com o que vai acontecer. Não me importo se o Robson está apenas me usando. Tudo o que eu quero é aproveitar cada minuto da minha vida que eu possa viver ao lado dele. Ninguém, nem mesmo você, por mais que eu goste de você, vai me impedir disto.

Eu comecei a chorar. Pois era possível que ela estivesse certa, e o Robson estivesse apenas me usando para poder mandar na loja com mais facilidade.
Ela começou a chorar, pois sabia o quanto eu o amava, e entendia minha dor e meus atos.
- Vilser, e se convencer o André a não mais enfrentar o Robson, e ficar do nosso lado, ele pode ficar ?
- Se você tiver tanta influência sobre ele... Mas na primeira pisada de bola, você já sabe...

Eu me sentia dividido em transformar minha vida em inferno ou paraíso... Como conviver com o André depois do comentário que ele fez sobre o que poderia existir entre o Robson e eu...
Mas eu sei o quanto o amor é doloroso, e permiti que Alessandra pudesse sonhar um pouco mais com ele.
Os dias se passaram...
Mas, ao contrário do que eu temia, o André acabou sendo domado pela Alessandra, e tornou-se obediente ao Robson. Nunca mais houve problemas entre nós.
Robson vivia me abraçando, me agarrando por trás, até na frente dos outros funcionários... Mas não tivemos mais nenhum contato tão íntimo como naquela noite que havia se passado. Nem quando estávamos a sós.

Uma certa vez, fomos ao shopping, e quando ficamos a sós, resolvi perguntar a ele:
- Você está arrependido do que houve entre nós?

Ele olhou para cima, como se eu o pegasse de flagra, como se temesse aquela pergunta.
E isto aumentava a minha preocupação sobre ele apenas estar me usando.
- Vilser. Eu disse uma vez que tudo tem a hora certa para acontecer... Respirou fundo, e continuava a falar, sem olhar para mim: - Eu não vou mentir para você. Eu ainda estou confuso. Eu não sinto atração por nenhum homem. Mas você mexe comigo. Eu sinto um prazer imensurável quando estou com você.
Naquele dia, eu me deixei levar pelo carinho, por uma certa vontade.
Mas eu não sei se isto é amor. Se é tesão. Ou se é só uma amizade muito forte.
O problema é que eu não quero te magoar, sei o quanto você gosta de mim. Não queria te dar esperança de algo que eu não sei se poderia te dar, então, hoje eu evito ir longe demais.

Fiquei confuso. Eu estava triste, por não ser amado como eu gostaria de ser, pela pessoa que eu queria. Feliz, porque sabia que eu nunca ouviria isto de nenhum outro homem teoricamente heterossexual.
Para encerrar a conversa, ele comprou um par de churros, e fomos ao cinema, onde ele sentou-se ao meu lado, e deitou seus braços em minhas pernas durante todo o filme...
...

Meses se passaram, e eu não perdi as esperanças de que um dia ele romperia a barreira do medo que ele tinha em se aceitar , e aceitar seu amor por mim.
...

Mas, embora nosso relacionamento, mesmo em passos de tartaruga, melhorasse a cada dia, a situação financeira da loja não ia de vento em popa.
Um boato surgiu de que nossa loja seria fechada em três meses.

E, provavelmente, nem todos seriam remanejados para outra loja.
Se Robson fosse mandado embora, provavelmente eu nunca mais o veria, pois sem recursos, ele voltaria para Londrina, e aos poucos nosso relacionamento se deterioraria.
Num daqueles dias, num ímpeto de desespero, entrei dentro da gerência, e falei com ele:
- Caramba, o que vai ser de nós se a loja fechar?
Ele virou-se para mim, olhou nos meus olhos, e disse:
- A gente podia abrir um negócio. Só nós dois.
Eu ria por dentro...
- Você está falando sério? E a gente ia abrir o quê? - Eu estava incrédulo.
- Nunca falei tão sério com você, em toda minha vida. A gente abre uma vídeo locadora. Pequena, claro. Eu sei o quanto você gosta de filmes. Podia ser aqui por perto, ou perto da sua casa.
- Você tá de gozação. - falei.
- Para você não duvidar de mim, amanhã mesmo a gente poderia se informar sobre o quanto custa o material necessário...

Capítulo XXXIV

Eu fiquei surpreso com o convite.
É como se de repente, em minha frente, eu enxergasse uma estrada pavimentada que me levaria à realização do sonho que acalentava durante tanto tempo.

Se Robson estivesse realmente falando sério; se tudo aquilo não passava de uma miragem criada pelos meus ouvidos, aquele negócio, a locadora, seria nosso elo eterno, eu não precisaria temer o fechamento da loja onde trabalhávamos.

Ainda incrédulo, concordei com sua idéia, e combinei com ele um horário para pesquisarmos os preços de fitas, estantes, e aluguéis de pontos, para que pudéssemos fazer um cálculo de quanto seria necessário investir.

No dia seguinte, folga do Robson, chego ao lugar que combinamos: na estação República do Metrô, às 9:00.
Na região, encontram-se várias lojas que vendem acessórios para pequenos negócios.

Claro que devido à minha ansiedade, eu fui extremamente pontual.
Quinze minutos depois, o Robson não chegou, e eu já estava desesperado.

"Será que ele havia desistido de tudo?" – eu pensava, numa angústia que me deixava tonto.

Algo me consumia por dentro. Uma sensação de algo errado estava para acontecer.
Robson chega. Fico aliviado. Entretanto a sensação de que algo estava errado, não passou, mesmo com a felicidade que eu sempre sentia em ver aquele belo rapaz.

- Achei que você não vinha. - eu disse, assim que o vi.
- E por quê? - ele perguntou.
Até pensei em me abrir e contar a verdade. Pensei que ele não viria porque tudo o que ele queria era ganhar alguma coisa com a minha amizade. Fora da loja, só uma confiança muito grande poderia continuar nos unindo. Mas ainda não era hora de abrir nenhum jogo, limitei-me a dizer:

- Você nunca atrasa. E hoje chegou quinze minutos fora do horário.
- Foi o trânsito. Eu tive que pegar ônibus antes do metrô, e não vou mentir, eu acordei um pouco atrasado. Dia de folga, sabe como é...

Eu não consegui ficar bravo com ele. E não era o melhor momento para arrumar discussão, visto que todo o nosso relacionamento devia ser muito mais trabalhado por mim se aqueles realmente fossem os últimos dias da nossa loja.
Seguimos em direção das lojas.

Nas lojas, começamos a fazer uma pesquisa de preços. Ele anotava tudo, e questionava com o vendedor o material mais vantajoso e outros detalhes.

A sensação estranha dispersava-se aos poucos.
Meu sorriso ia até as orelhas. Parecia que tudo caminhava para a realização daquele sonho. Nós dois, sozinhos, trabalhando em nosso próprio negócio.

Mas a vida real não é um filme onde, depois de vários sustos, tudo caminha para um final feliz...
Feita a pesquisa, resolvemos discutir de que forma o dinheiro seria investido.

Fomos almoçar no Shopping Ibirapuera, pois mais tarde eu iria trabalhar.

Durante o almoço, ele ficou fazendo algumas contas.
Ele olhava seus cálculos, depois me apresentou uma forma de pagamento que pelos meus cálculos, nós não conseguiríamos pagar com o dinheiro que receberíamos depois que o restaurante fechasse.

- Robson. Eu acho que desta forma não daria para começarmos. Teríamos que começar de uma maneira mais simples.
- Eu acho que dá sim. Eu só precisaria verificar com a Vanessa com quanto ela pode arcar no negócio.

Vanessa ?!?!?!?

- Mas, Robson... Comecei a falar num tom quase de desespero...- Você disse que o negócio seria só nosso... O que a Vanessa tem a ver com isto?
- Vilser. Eu sei o que eu disse. Mas é que só com nosso dinheiro, mal daria para começar. Se você for mais racional, perceberá que com a ajuda dela, ficaria muito mais fácil o negócio decolar e dar retorno o quanto antes... Além do mais, nós precisaríamos de um carro para carregar fitas e outras coisas, e nós não temos...

O castelo do meu amor pelo Robson, que parecia tão sólido, com alicerces que a muito sofrimento eu construíra, começou a ruir. Desmoronava a golpes de bigornas arremessadas de todas as direções.

Eu milionésimos de segundo, eu imaginei todo o futuro.
Provavelmente o Robson nunca deixaria a Vanessa.

Ela era o alicerce financeiro dele. E também a prova de masculinidade que ele podia apresentar para sua família e amigos. Não importa de quem ele realmente gostava, eu nunca o teria.
Eu o veria casando-se, tendo filhos. Com muita sorte, talvez rolasse uma coisa ou outra comigo, mas eu nunca o teria só para mim. No máximo seria um amante.

Eu não queria aquilo. Eu acreditava em destino. Acreditava em almas gêmeas. Acreditava em Deus, e durante a minha vida, percebi que Deus nunca me fez sofrer por gostar de outros homens.
Eu sofria pelo Robson. Mas sofrer por amor nunca foi privilégio de homossexuais.

Como eu acreditava nestas coisas, se algo desse errado, era porque eu não conseguia fazer com que Robson enxergar que eu era sua alma gêmea. E não a Vanessa.
Derrotado, levantei-me da mesa, e não falei mais nada. Deixei a comida por lá mesmo.

- Vilser. Pára com isso, cara. Volte aqui. - O Robson gritava da mesa.
Eu não respondi.

"The winner takes it all" – A música do Abba tomava conta da minha cabeça. Eu era a música do Abba.

Robson levantou-se da mesa, correu em minha direção, e parou na minha frente.
- Vilser. Pára com isto, deixa de ser criança!!

- Robson, você fez a sua escolha, cara. Eu não tenho que me sujeitar a isto. Eu não sou obrigado a passar o resto da minha vida vendo você com a Vanessa.

A situação era caótica. Estávamos no meio da praça de alimentação do shopping. Claro que muitos perceberam o que estava rolando ali. Muitos escutaram.
Tudo bem que naquele shopping, as pessoas habituaram-se um pouco mais a ver homens vestindo roupas fashion, nitidamente gays, sem excesso de constrangimentos.

Mas olhavam com olhos de espanto ao ver dois rapazes em roupas sociais, nada fashion, tipicamente masculinos, discutindo daquela maneira, nitidamente por ciúmes.

Eu estava mandando o mundo à merda!!! Devido à minha fúria, era mais fácil eu quebrar a cara de todo mundo do que apanhar de algum engraçadinho...

- Vilser. Vai, meu. Senta lá, cara... - Robson parecia sequer notar que havia um mundo além de nós...
- Eu não com fome, cara. Eu tenho que ir trabalhar.
- Tem que trabalhar, o caralho!!! Você só vai entrar daqui a duas horas...

Não conseguia responder. Meus olhos estavam cheios de água. Se eu falasse, provavelmente gaguejaria e desabaria em lágrimas.
Por que ele lutava a cada minuto, a qualquer custo, por nossa amizade ? Mas não lutava por um amor que podia existir entre nós?
Eu segui em frente, e ele me acompanhou em silêncio.
...

Nos dias que se seguiram, ele conversava comigo, brincava, tentava me animar.
Eu tentava aproveitar sua companhia, sendo simpático, sabendo que a qualquer momento nossa loja podia fechar, mas vivia nitidamente triste, mal falava. E em qualquer momento em que ficava sozinho, eu chorava copiosamente.

Foi então, que Thomaz disse que Robson tinha que sair de férias, pois já estava para estourar o prazo de dois anos para isso.
E assim foi feito. Tirou vinte dias. Disse-me que era para voltar logo.

Claro que ele foi passar as férias em Londrina.
...
Duas semanas depois, o pessoal do restaurante resolveu fazer uma festa. Na loja mesmo, para comemorar o aniversário da Alessandra.

Naquela noite, todo mundo exagerou na bebida. Mas o Guilherme, um dos motoqueiros, ficou um tanto alterado com a quantidade que bebeu.
Passou a noite inteira me olhando com aquela mesma cara estranha que ele olhara quando fomos à praia.

Capítulo XXXV

Durante os meses em que trabalhei na loja, mal percebia a presença do Guilherme na loja...
Eu tinha olhos apenas para Robson.
Sempre que se fazia necessário, conversava com Guilherme somente o indispensável, referente ao trabalho.
Eu esquecera completamente da noite em que fomos à praia, onde Guilherme também estava. E me esquecera também da forma que ele me olhava, enquanto beijava e agarrava a Gisele, uma das funcionárias da loja.
Naquela noite na praia, ele olhava para mim e para o Robson como se a qualquer momento fosse falar algo, soltar uma piada, como se soubesse que algo existia ali. Mas nunca falou.
Quando passamos a trabalhar na mesma loja, Guilherme era sempre simpático e educado comigo, obediente, sem ser puxa-saco, enfim, era o melhor motoqueiro da equipe. Por isso, esqueci seus olhares enigmáticos daquela noite.

Mas na festa da Alessandra, que fizemos dentro da loja onde estávamos trabalhando, assim que encerramos o expediente, Guilherme exagerou um pouco na bebida...
E passou a olhar-me novamente com aquele sorriso matreiro na cara.

Como eu estava magoado com tudo o que acontecera com o Robson em relação à criação de nossa própria loja, e também irritado com a viagem que ele fez em suas férias, onde mais uma vez não me deu sequer um telefonema... Eu estava mandando qualquer um à mais mal-cheirosa de todas as merdas.
Fui à festa naquela noite, apenas para ver se havia um mínimo de possibilidade de manter a ordem, já que o pessoal era bagunceiro demais, e porque Thomaz não poderia ficar naquela noite.

Por isso, não dei muita atenção aos olhares de Guilherme.
Nesta festa, também estava Giulia, uma garota lésbica – muito bonita – que foi cobrir as férias do Robson, como terceira gerente.
Assim que chegou, Giulia apaixonou-se perdidamente pela minha amiga Alessandra, foi algo fulminante, de tão rápido.
Movida por uma curiosidade que eu jamais seria capaz de explicar, Alessandra deixou Giulia aproximar-se, e até deu alguns beijinhos dela, mesmo todos sabendo que ela gostava do André, e que as coisas entre eles estavam começando a decolar.
Alessandra me disse que a beijou por amizade...

Eu já li este livro antes...
A festa de aniversário de Alessandra, aliás, foi idéia de Giulia, que comprou bolo, bebidas, e tudo o mais por conta própria...

As três da manhã, todos já estavam pra lá de Bagdá... Embaixo de tudo quanto é bombardeio...
Resolveram que era hora de cortar o bolo.
Giulia chamou a todos, acendeu as velinhas, iniciou e animou a música de parabéns, cantou “E pra Alessandra, nada? Tudo!!! É pique é pique, é hora é hora é hora...”
Ajudou-a a assoprar as velas, e resolveu perguntar pra quem seria o primeiro pedaço do bolo...

Honestamente, eu já vi esta história de dar o primeiro pedaço de bolo virar mágoa, briga e ressentimentos...
Mas eu nunca vi as coisas acontecerem daquele jeito...
O primeiro pedaço de bolo de Alessandra foi para:

André, claro!!!

E claro, Giulia pegou todo o resto do bolo, e arremessou contra o rosto de Alessandra.
Eu, melhor amigo de Alessandra, não pude deixar de achar bem-feito.
Só eu sei o quanto doía em Giulia...
Em seguida, todo mundo, bêbado, começou a atirar pedaços de bolos pra tudo quanto é lado da loja...
Tudo ficou emporcalhado de bolo: mesas, paredes, cadeiras, chão...

Ainda houveram algumas discussões, mas nenhuma briga séria, no fim das contas, todos levaram aquilo na brincadeira, até mesmo Giulia.
Ânimos esfriados, organizei um mutirão para limpar a sujeira toda.
Mas tinha uma parte onde a limpeza era mais difícil, um trecho da recepção, onde havia um carpete...

Peguei uma escova de cerdas grossas, um pequeno balde com sabão, e pus-me a lavar o carpete.
Em seguida chega o Guilherme, com outra escova, dizendo:
- Vai, chega mais pra lá...
Feliz em receber ajuda, dei um sorriso e nem respondi, apenas afastei-me um pouco, e continuei a esfregar...
O resto do pessoal retirava as louças e limpavam os fundos do salão...
Ficamos ali, eu e o Guilherme, de quatro, esfregando o carpete...

Num dado momento, ele levanta bruscamente e fica de joelhos, e olha para mim...
Eu continuo a esfregar...
Ele permanece parado, olhando para mim...
- Já cansou, molengão?- Falo, sem me levantar, mas olhando pra ele.
- Molengão... - ele resmunga...- É que eu não sou que nem você, que já está acostumado a ficar com o rabo virado pro ar toda vez que dá o cú...

Não respondi.
Levei na brincadeira.
Considerei aquelas palavras apenas uma resposta automática de defesa masculina. Eu sabia que ele estava bêbado. Se ele fosse mais longe, eu simplesmente o demitiria por desacato...
Mas ele foi muito mais longe, embora não da maneira que eu esperava...

- Aliás. Que belo rabo você tem... - Falou, com uma cara de quem estava sedento por sexo...- Dá até gosto ficar olhando.

Eu ensaiei uma resposta grossa. Fingi estar irritado. Mas eu não estava, eu estava gostando de ver aquele motoqueiro, um troglodita imenso, de tanta força e masculinidade, com seus cabelos encaracolados encharcados de suor e seus olhos verdes pegando fogo a me provocar.
Contive meu tesão. Afinal de contas eu era seu superior. Não podia facilitar as coisas.
Levantei-me e falei:
- Pois termine o serviço sozinho, Guilherme. Para você se acostumar a ficar de rabo pro ar...

Fui para a cozinha, onde havia pilhas de louça para serem lavadas...

Aos poucos, conforme a limpeza terminava, e os ônibus voltavam a circular normalmente, o pessoal ia para casa.
Às cinco da manhã, estávamos na loja, eu, Alessandra, André e Guilherme.

André e Alessandra limpavam o resto do chão, eu lavava o resto de louça, e o Guilherme me observava.
Havia sobrado alguns docinhos, e Guilherme os comia. Estávamos na área da lavagem de louças, ele estava sentado na mesa de pratos. E perguntou:

- Quer ajuda?
- Não, obrigado, já estou terminando- respondi.
- Quer um doce? - insistiu o motoqueiro.
- Depois eu pego. Minhas mãos estão molhadas...
Sem que eu percebesse, pois estava concentrado na lavagem, Guilherme colocou-se ao meu lado, e veio com aquela mão enorme e com unhas ainda meio sujas de graxa, trazendo um brigadeiro à minha boca.

- Tó. Come.
Por mais que o Robson não me saísse da cabeça, aquela cena me excitou. Guilherme era um homem maior do que eu, e também era forte sem a ajuda de academia, corpo talhado só de serviços pesados... Como o Robson era.
Seu ato de intimidade me fez ter uma ereção imediata...
Tentei disfarçar, mas não consegui...
E na minha tentativa de cruzar as pernas para tentar esconder o óbvio, Guilherme percebeu que eu sentia tesão por ele, naquele momento.

- Você tá a fim, não é mesmo?
- A fim de que, cara ? Você está bêbado...
- Tô bêbado mas não tô morto, eu sei muito bem do que é que você está a fim... Eu também to, ó, pode por a mão...
- Guilherme, você ficou maluco? Tem gente na loja...
Ele levou minha mão molhada de sabão até a sua cintura... e eu pude conferir o quanto ele estava a fim, sem que ele tirasse a calça.
- Eu tô a fim de você desde o dia em que eu vi você beijando o CDF do Robson lá na praia... Mas ele não é homem pra você, eu sou...

Meu coração disparou.
Eu estava assustado, mas excitado ao mesmo tempo.
O que me atraía no Robson era sua gentileza, sua simpatia, o cuidado que ele tinha ao falar comigo, o fato dele ser um herói incompreendido.
O Guilherme era um cara tipicamente heterossexual, com tudo o que há de negativo num cara heterossexual também. Meio estúpido, meio insensível, bronco. Ele tinha um rosto muito bonito, de homem mesmo, não de bebezinho como o Robson. Mas suas atitudes nunca me despertaram sequer imaginar que ele fosse um cara que pudesse estar a fim de transar com outros caras...

- E aí, chefinho? Tem jeito? - Aproximou-se e cheirou meu pescoço.

Permaneci imóvel.
Eu pensava no Robson... Pensava em tudo aquilo que poderíamos ter sido. Pensava que com ele cada dia seria delicioso, pois era um cara com quem eu gostava de conversar, com eu realmente me divertia... O Guilherme, mesmo se estivesse apaixonado por mim, jamais poderia me oferecer aquilo... Tinha conversa de macho. Vazio e sem muito papo, como a maioria dos héteros.
Mas Guilherme estava louco pra transar comigo, tomou toda a iniciativa, ao contrário do Robson, que nunca tomou nenhuma iniciativa, apenas cedeu...
Como Robson não caiu aos meus pés, apesar de todo trabalho árduo que tive, carente e desiludido, eu cedi ao Guilherme...

Despedimo-nos de Alessandra e André, que nem sonham com o que aconteceu.
Guilherme e eu, fomos para a casa dele, de táxi. Ele deixou sua moto na loja, pois estava bêbado demais para dirigi-la.
Mas não estava bêbado demais para entrar em ação na cama.

Mal chegamos em sua casa, onde mora sozinho, Guilherme jogou-se contra o sofá e pediu-me para tirar seus sapatos.
Foi o que eu fiz.
- Ah, meu chefinho. Agora quem manda em você sou eu, seu homem.

Saquei qual era a fantasia dele. Dominar e possuir seu próprio chefe.
Mas eu precisava daquilo. Precisava me sentir desejado.
Guilherme me possuiu como possuía uma de suas amantes.
Era carinhoso com o corpo mas rude com as palavras...
Sugava meu pescoço como um vampiro sedento... Eu não me importava, estava excitado demais.
Ele me fazia lamber seu corpo como se fosse meu dono.

Jamais o imaginaria como meu príncipe encantado, mas como amante, ele era imbatível. Jamais tive um homem que transasse bem como Guilherme.

Ao acordarmos, Guilherme não teve nenhuma reação drástica, apenas disse que precisava buscar sua moto na loja para levar sua noiva - sim, ele era noivo - não me lembro para onde. Mas perguntou se eu gostei de pertencer a ele...
Acenei que sim com a cabeça, e ele disse que se eu quisesse, poderia tê-lo sempre que precisasse...

Fui para casa, tomei um banho e voltei para loja.
E trabalhei naquele dia tentando esconder o tempo todo a marca de chupada que o Guilherme havia feito em meu pescoço.
Faltando cinco dias para o fim de suas férias, Robson aparece na loja, corre para a gerência para me cumprimentar e me abraçar.
Ao terminar de me abraçar, vê a marca roxa em meu pescoço.
Seus olhos azuis ficam vermelhos de ódio... Ele dá um soco na mesa.
E começa a chorar.

Capítulo XXXVI

A batida que ele deu na mesa havia me deixado assustado.
Não porque eu tive medo da violência, mas porque eu tive certeza de que naquele momento, eu colocara tudo à perder...

Robson sentou-se na cadeira que havia na gerência, fechou a porta de vidro que dava acesso ao resto da loja e olhava para mim, com os olhos ainda rasos d’água, quando eu resolvi falar:
- Eu não estou te entendendo... Você achou que eu tinha que ficar sentado, esperando você vir até mim algum dia?
Ele olhava para o teto, como se minha resposta fosse um insulto a ele.
- Não, Vilser, pra falar a verdade, eu acho que teria feito a mesma coisa se fosse você... Mas é que, sei lá... Respirou fundo... - Eu sei que você não ia me esperar pra sempre, até porque eu nunca te dei certeza de que seria somente seu. Mas eu não imaginei que seria tão difícil saber que você dormia com outra pessoa.
- Se é doloroso para você, porque a gente não coloca um ponto final nesta história? Você larga a Vanessa, e eu nunca mais durmo com nenhum cara neste mundo que não seja você...

Sentei-me na mesa, ele colocou sua mão forte em meu joelho e apertando minhas pernas e abaixando a cabeça, falou:
- Vilser, eu gostaria que fosse tão fácil...

Irritado, forcei meu corpo para frente como se fosse levantar, ele segurou-me com as mãos, demonstrando que não tinha terminado de falar:
- Vilser, eu gosto muito de você, mas você tem que entender que nem todas as pessoas são iguais. Eu não sei como foi com você, se você já nasceu gay... Mas, eu tenho medo do que vai ser do meu futuro... Como ia ser com a minha família...
- Sua família não precisa saber que você gosta de homens...
- Vilser, até agora, pelo menos, o único homem por quem eu me interessei foi você... E ainda assim, eu não olho para você e vejo um homem... Sei lá. É como se você fosse feito para mim... Assim como eu costumava sentir pelas outras mulheres...
- Mais fácil ainda, cara. Robson, quem precisa saber que você gosta de mim ?
- Se eu largar a Vanessa, e continuar em São Paulo quando a loja fechar, eu ia morar onde? Com o Thomaz ?
- Meu, se você morasse comigo ninguém precisaria saber de nada...
- Vilser, se ficar rolando algo, uma hora alguém vai sacar...
- E você pensa que nesta loja- eu disse, incluindo o Thomaz, alguém já não tem certeza de que role alguma coisa?
- O pessoal desta loja não me interessa. Eu estou me fudendo para eles!!! Eu te beijaria na frente deles todos os dias, pois eles não me metem medo. Já o Thomaz... O Thomaz não falaria nada enquanto eu fosse útil para ele aqui na loja... Mas se eu abandonasse a Vanessa, provavelmente ele teria que inventar histórias sobre o porquê de eu não ter voltado para Londrina, para a minha mãe, meus irmãos...
- Eu acho que já entendi, Robson... Você tem medo de perder o apoio da sua família...
- É isso. Mas não é só isso... Eu tenho medo... De perder você...
- Até parece...
- Eu não estou bravo porque você aparentemente transou com outro cara... Como eu já disse, provavelmente eu teria feito a mesma coisa se fosse você... Mas é isso que me dá medo... E se eu resolvo abrir mão de tudo, jogar tudo para o alto, enfrentar o mundo, a minha família, e depois de três, quatro anos, você pode se enjoar de mim... Do mesmo jeito que você transou com outro cara, você pode se apaixonar por outro cara... E aí, Vilser... Não é como se eu me separasse de uma mulher... Talvez eu não tenha família para voltar...
- Eu acho que te entendo...
Ele levantou-se e olhou profundamente em meus olhos, e concluiu...

- Vilser, nem eu fui capaz de te amar a ponto de vencer meus medos, nem você foi capaz de me amar a ponto de me esperar para sempre... Eu não sei se alguém está certo ou errado, mas pelo menos, eu tentei te amar... Eu fiz uma força. Eu te dei uma brecha para fazer parte do meu coração, e você faz...
- Pena que não é como eu quero...
- Nem é como eu quero... Eu sei que não serve de consolo, mas lembre-se, você foi o homem que eu mais amei na minha vida... Quem sabe um dia, quando eu for mais forte, talvez amanhã, semana que vem... Ou daqui a um ano... Meu amor e minha saudade sejam tão fortes que eu abandone qualquer mulher neste mundo.
enviada por Vilser






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)