Homens Amor Sexo e Humor - HASH










12/02/2005 23:14
Capítulo XVII

Se o primeiro grupo procurava avidamente por uma oficina, o nosso grupo já foi entrando dentro do primeiro bar que encontrou.
Começamos a calibrar logo de cara, já que não iríamos dirigir mesmo.
Ainda assim, o Robson estava quieto demais naquela noite...

Eu não sabia se era porque a Alessandra estava próxima, ou se era porque ele maquinava algo naquela cachola...

Como não achamos nenhuma oficina entre o carro e o bar, voltamos para o carro. O primeiro grupo já havia voltado...
Eles encontraram uma oficina que ficava aberta a noite toda (acho que foi esta oficina que colocou aquela lombada sem sinalização, pois o conserto do carro ia ficar uma fortuna...)

Levamos o carro até esta oficina, e como o carro só ficaria pronto de manhã, seguimos a pé até a praia... Que ficava a uma hora daquele local.

Depois de muito tempo de caminhada, comecei a reconhecer o local, já faltavam poucos quarteirões para chegarmos à praia, foi quando o André tirou uma coisa do bolso que me deixou meio sem graça.
Era um baseado.

Honestamente, eu nunca simpatizei muito com usuários de quaisquer tipo de drogas... Nunca achei que elas pudessem ser necessárias para me fazer feliz.
O loiro bonitão que eu contratara, decepcionava-me mais uma vez. Mas cada um leva a vida que quer... Não me roubando na hora em que precisar de dinheiro para sustentar seu vício...

O Guilherme, o motoqueiro, resolveu dar um tapinha.
Guilherme era o mais velho de todos nós. E só não era o mais bonito porque a concorrência era desleal: De um lado, o Robson com seu corpo malhado, cara de italiano mafioso, tipo Andy Garcia e seus olhos azuis, do outro lado, o André, 1,86m, louro, olhos verdes escuros, magro mas com aqueles ossos bem grandes e fortes...

Mas nenhum dos dois era tão másculo e com jeito de macho no cio do que o Guilherme, cabelos pretos encaracolados, olhos verdes claros. E uma cara de tarado que só ele tinha. O motoqueiro era do tipo que enfia a mão na mala para arrumar o tempo todo. Os outros dois eram dois adolescentes perto dele.

Gisele, doida para dar para o motoqueiro, pegou no cigarro e deu uma tragada.
Depois, ofereceu à Alessandra, que recusou.
Perguntou se eu ou o Robson estávamos a fim.
Também não quisemos experimentar.

Há alguns metros, sei lá por que motivo ou razão, o André fez uma pergunta ao Robson:
- E a sua namorada, a Vanessa, quando que você vai trazê-la para a conhecermos ?

Foi como sentir cinqüenta apunhaladas de uma vez só...

Capítulo XVIII


Eu fiquei meio zonzo com aquele papo do André em dizer que o Robson tinha uma namorada.
Não era possível. Neste dia em que fomos à praia, eu já conhecia o Robson fazia uns seis meses. Ele nunca havia comentado nada comigo. Se ele tivesse mesmo uma namorada, e eu fosse tão amigo dele como ele dizia, claro que ele teria dito a mim primeiro...

A Alessandra também não sabia. Parecia mais indignada que eu, inclusive foi a primeira a perguntar:
- É sério, Robson? Como você nunca nos disse que tinha uma namorada?

Ele ficou com aquela cara de quem comeu e não gostou.
A leve embriaguez que nos deixara animados desaparecera por completo.
Ele respirou fundo, e começou a falar, olhando para lugar nenhum:
- É. Eu namoro a Vanessa faz uns dois anos. É que eu não sou de falar muito sobre minha vida pessoal, vocês sabem disso...

E era verdade. O Robson falava sobre muitas coisas. Era uma matraca.
Mas era muito reservado ao falar para qualquer pessoa sobre amigos, parentes e outros relacionamentos. Comigo ele até se abria mais... Mas ainda assim, não era uma porta escancarada.
O André era lindo, mas muito arrogante e burro. Não sabia que havia um mundo ao seu redor. Jamais perceberia o que eu sentia pelo Robson para falar aquilo propositadamente. Ele falou naturalmente, apenas para puxar assunto.

Eu ficava a cada minuto mais tonto. O coração em frangalhos.
Tentei mudar de assunto. Tentei acreditar que fosse uma mentira. Até para poupar a mim mesmo.

Mas a ansiedade e o nervosismo não permitiram.
Chamei o Robson de canto, e falei baixinho, pedindo-lhe que olhasse em meus olhos como ele fazia comigo:
- Robson, você tem mesmo uma namorada? Ou você falou isto só para despistar o pessoal da loja, para acabar com os comentários que havia sobre nós?

Ele tentou desviar os olhos de mim, e falou baixinho:
- Vilser. Vamos mudar de assunto. Não me faça estragar sua noite...

Suspirei com o resto de forças que ainda havia em meus pulmões. Minha voz já não saía direito, quando eu disse:
- Então é verdade. E você ainda disse isso ao André, e não falou para mim...
- Ele me perguntou. E eu respondi, ué! – Robson falou, ainda sussurrando.
- E a quanto tempo você namora? - Perguntei, sussurrando mas irritado.
- Dois anos...- Robson falou, e voltou a olhar para o nada.

Saí de perto do Robson.
Voltei para perto das outras pessoas.
Ele veio atrás.

Pedi um trago do baseado ao Guilherme.
O Guilherme fez uma cara de espanto. Assim como o Robson e a Alessandra – esta fumava que nem uma chaminé, mas nunca experimentara qualquer tipo de droga ilícita.
Aspirei fundo aquele papel enroladinho sabe lá Deus com o quê...
O resultado não poderia ser muito bom, afinal de contas eu já havia bebido.
O Robson, que também nunca fazia nada de errado neste sentido, puxou o cigarro de minhas mãos quando eu o trazia próximo à boca para uma segunda tragada, e ficou segurando com ar de incomodado. Parou de andar.
Todos nós paramos na rua, e ficamos olhando para ele...
Ele colocou o cigarro na boca e deu uma tragada também.
Eu sentia que ele me tinha como exemplo. Já aconteceram situações semelhantes em que ele só fazia algo depois que eu desse o aval ou que eu fizesse primeiro.
Ele ofereceu o cigarro novamente a mim, com cara de tristeza.
Eu tirei da mão dele, e o cigarro que havia estado em sua boca agora estava na minha novamente. Traguei novamente.

Eu comecei a rir.
Rir de dor, rir de raiva, rir de sofrimento. Eu não sei como alguém seria capaz de rir de desespero. Mas eu ri.
A Alessandra veio me acudir:
- Vilser, você está legal ?

Eu ria mais, e mais.
E comecei a andar para trás, até dar as costas para eles, eles ficaram olhando. Continuei a andar e num repente, comecei a correr, desembestado, eu estava fugindo.

Eu estava fugindo do Robson.
Eu queria fugir da minha vida. Da vergonha de ter me iludido tanto.
Como eu não percebera que não dá para lutar contra o destino?
Não bastava vencer Iara e o Adriano. Era preciso vencer o próprio Robson.
Ele era heterossexual. Eu imaginava coisas o tempo todo, vivia um amor que não existia, acreditando que era somente falta de coragem da parte dele, mas que com o tempo, tudo se acertaria.

Bêbado, levemente drogado, eu corria em direção à praia.
Por mais fora de mim que eu estivesse, eu tinha plena consciência do que fazia... Sabia que havia um trecho da praia, na divisa entre Praia Grande e Itanhaém onde a praia não era urbanizada...
Um trecho ermo, vazio, escuro... Mas na época, os bandidos ainda não eram tão numerosos naquela região, embora fosse perigoso do mesmo jeito.
Eu não pensava no perigo, eu queria morrer mesmo.

Cheguei ao lugar. Estávamos fora da época de temporada. Era inverno.
Mas era daquelas noites de inverno de exceção, não era uma noite fria.
O céu estava claro. A lua cheia, imensa, azulada, iluminava todo aquele trecho.
Eu até preferia que estivesse mais escuro. Para que não passasse pela cabeça de ninguém passar por ali, nem um morador daquela região.

Sentei na areia.
Pegava a areia pelas mãos e espremia-a entre os dedos.
Pela primeira vez naquela noite, consegui chorar.
Chorava e socava a areia em paz, tendo apenas a lua e o mar como testemunhas.

Fiquei ali durante muito tempo, pensando, chorando e socando.
E tinha umas alucinações estranhas, achava que a lua conversava comigo.
Embora eu ache que nem era necessário eu estar drogado para tanto, eu nunca bati muito bem da bola mesmo...

Levantei-me e resolvi aproximar-me do mar. Colocar meus na água.
Quem sabe haveria coragem o suficiente de entrar, e nunca mais sair.

Coloquei os pés na água.
Embora fosse uma noite muito agradável, a água estava gelada.
Realmente, eu nunca conseguiria me suicidar. Concluí que morrer deve doer muito.

Mas fiquei parado, olhando para longe, e observando os elefantinhos verdes que atravessavam ao mar.
De repente eu olhei para o lado, e tive mais uma alucinação. Vi o Robson correndo em minha direção.

Irritei-me com minha própria alucinação. Já que era um devaneio mesmo, porque eu não enxergava o Brad Pitt... Lindo, loiro e forte... Chegando para me consolar.

O problema é que a alucinação não foi embora. Pior, ela continuava a aproximar-se de mim.
Pior ainda, quando a alucinação chegou perto, ela se pôs a minha frente e empurrou-me para o chão.

Sentado na areia, gritei...
- Caralho!! Mas até minha alucinação tá a fim de me derrubar hoje!!!

Não era alucinação porra nenhuma! Era a besta do Robson mesmo.
Já imaginei que ele devia ter ficado puto porque eu demonstrei que ficara louco de ciúmes por causa da sua namorada, isso na frente de todo mundo. E aí apareceu naquele momento para me socar até a morte...












Capítulo XIX


Eu fiquei ali sentado na areia da praia.
Fiquei esperando pela surra.

Sinceramente, eu não queria saber de mais nada.
Mesmo que eu apanhasse, eu não me sentiria pior do que já estava.
Em pé, a uns dois passos de distância de mim, o Robson olhou fixamente para minha cara, com cara de quem estava muito bravo, mas obviamente estava menos fora de si do que eu.

Eu alternava meu olhar, ora olhava para ele, ora visualizava o mar, vendo os elefantes verdes...

Robson, que estava de frente para mim, suspirou profundamente. Virou-se, afastou um pouco, ensaiou uma corrida, e deu um chute na areia, levantando uma nuvem de pó. Acho que descontava sua fúria.

Parou, pôs as mãos na cintura, e ficou balançando a cabeça, fazendo sinal de negativo.
Agachou-se subitamente. E sentou-se na areia, de costas para mim.
Agarrou um punhado de areia, e atirou-a em direção ao mar, fazendo nova nuvem de pó.

Eu falei:
- A areia não vai acabar... Pára de jogar ela fora...

Ele virou levemente a cabeça, fez cara feia e com voz de irritação, quase gritando, sem olhar para trás:
- O que você ia fazer?

Fiz cara de pouco caso, e respondi:
- Eu não ia fazer nada. Eu ia entrar na água. Mas ela está muito gelada...

Ele levantou-se, e veio em minha direção.
Eu continuei ali, sentado. Indiferente à aproximação dele. Eu estava com os braços para trás, apoiando o tronco e com as pernas esticadas, pouco abertas.
Robson ficou bem à minha frente. Quase pulando, abriu as pernas sobre mim, e ajoelhou-se, quase sentando em meus joelhos...

Como ambos estávamos de bermuda, senti os pêlos daquela perna musculosa esfregando-se nos meus.
Ele vestia ainda uma regata e tênis – não tínhamos a intenção de entrar no mar mesmo.
Eu estava de camiseta e descalço, pois tinha tirado meu tênis para entrar na água.
Ele colocou as mãos em meus ombros e perguntou, ainda num ar levemente incomodado:
- Por que você faz isso comigo?

Fiz cara de poucos amigos:
- Você achava que eu ia ao seu casamento, que veria seus filhos nascerem, crescerem e permaneceria sempre ali do lado, vendo tudo sem poder te ter ? - respondi, sem olhar para seus olhos.
- Desculpa cara, mas eu sou só um ser humano.
Não chorei, mas meus olhos encheram-se novamente de lágrimas.

- Vilser. - Ele falou baixinho. Como era gostoso ouvi-lo dizer meu nome. Sua voz agora tinha um tom mais triste, era só um pouco mais alta que um sussurro. E continuou:
- Cara, eu já pensei várias vezes em nunca mais falar contigo. Até porque eu não sou tão mal quanto você deve imaginar que eu sou. Sei que não é fácil ficar perto de uma pessoa que a gente quer, mas não pode ter.

Eu tentava desviar meus olhar para longe daqueles olhos extremamente sedutores.
Provavelmente porque eu não queria que ele me visse chorando. E ele continuou a falar:

- Só que eu gosto muito de você, cara. Se você quer saber, eu não confio em mais ninguém neste mundo. Você acha que o tio Thomaz me ajuda ? Você acha que minha namorada me está do meu lado?
Eu não posso contar com ninguém...
Todo mundo só sabe me testar e me testar a cada dia, e exigir de mim que eu seja melhor do que todo mundo, e exigir que eu me supere a cada dia.
Você é a única pessoa que me trata como eu gostaria de ser tratado.
Eu sinto que você gosta de mim como eu sou. Não exige que eu mude isto ou aquilo, não exige que eu seja mais responsável, que eu tenha que mudar para agradar a ninguém.

Ele me abraça, e se senta sobre minhas pernas...
Ele era forte. E pesado...
Mas era um abraço tão gostoso.
Eu sentia em cada detalhe aquele corpo quente, o qual eu sempre desejei. O corpo que eu sempre sonhei em tocar. Sempre desejei cada milímetro, cada pêlo daquele corpo maravilhoso.
Ele afastou um pouco o corpo, e continuou:

- Você é a pessoa mais importante para mim neste mundo, cara.
Eu queria amá-lo com a mesma força que eu sei que você me ama.
Mas eu estou confuso. Eu nunca gostei de homens.
Já servi o exército, já estudei em colégio interno só com outros rapazes, mas nunca passei por isto.
Eu não sei se estou disposto a enfrentar o mundo. Não sei dizer se sinto tesão por você. Eu não entendo o que eu sinto.
Só sei que eu quero você do meu lado. Sempre por perto.

Ele pôs a mão no meu rosto, segurou meu queixo, inclinou seu rosto e deixou nossos lábios se tocarem.
Ele estava tremendo e suando frio. Mas estávamos nos beijando.
Foram poucos segundos, quando ele afastou o rosto, começou a rir e disse:

- É muito estranho beijar uma boca com pêlos, arde o rosto.

Isso porque eu tinha feito a barba na manhã daquele mesmo dia. E meu rosto fica liso quando me barbeio.
Imagine se ele beijasse um homem como ele. Robson é daqueles homens que mesmo fazendo a barba todo dia, o rosto continua escuro, com os pêlos por nascer. O que sempre contrastou muito com seu rosto branco e olhos azuis.
Eu já havia beijado outros homens antes dele. Então, nem liguei para os arranhões que a barba dele me faziam.
Com o Robson, não foi um beijo de língua. Apenas um demorado toque molhado de lábios. O gosto era de um néctar nunca antes provado. Fiquei tão excitado que tive uma ereção que durou até muito depois do beijo.
Nem me preocupei em disfarçar. Ele fingiu que não viu. Seu pênis também animou-se um pouco, mas acho que o medo e o nervosismo eram maior que o tesão.

Ele se levantou e estendeu a mão:
- Vem, vamos atrás do povo, eles também devem estar preocupados, este lugar é barra pesada...
Segurei em sua mão e me limpei, e em seguida falei:

- Mas é só isso? E o cavalo branco? E a música de fundo que não tocou?

Ele riu. E não respondeu. Apenas me puxou pelas mãos para sairmos daquele canto escuro da praia.
E logo em seguida soltou minha mão. Não queria criar polêmica com a galera. Eu nem liguei. Fui do inferno ao paraíso em segundos.

Quando saímos da parte escura da praia, vimos um carro estacionado na orla, que tocava uma música das Spice Girls.
Robson riu, e em seguida falou:

- Vilser, eu acho esta música legal. Então, já que você estava reclamando, ela fica sendo a nossa música, beleza?

- Spice Girls... Que mal gosto cara... Mas tá valendo...


VIVA FOREVER
Um viva para sempre

Do you still remember, how we used to be
Você ainda se lembra como nós éramos?
Feeling together, believing whatever
Sentindo juntos, acreditando em tudo
My love has said to me
Em que o amor dizia
Both of us were dreamers
Nós éramos sonhadores
Young love in the sun
Um jovem amor ao Sol
Felt like my saviour, my spirit I gave you
Senti-me sendo salvo, entreguei-lhe meu espírito
We'd only just begun
Nós estávamos apenas começando

Hasta Mañana, always be mine
Esta manhã, sempre será minha


Viva forever, I'll be waiting
Viva para sempre, e estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, enquanto durar o Sol
Live forever, for the moment
Viva para sempre, até o momento
Ever searching for the one
Em que encontraremos um ao outro

Yes I still remember, every whispered word
Sim, eu ainda me lembro
The touch of your skin, giving life from within
Do toque da sua pele, transmitindo vida através dele
Like a love song that I'd heard
Foi tudo como uma canção de amor que ouvi uma vez
Slippin' through our fingers, like the sands of time
Desmanchando entre nossos dedos, como as areias do tempo
Promises made, every memory saved
Promessas foram feitas, cada lembrança foi guardada
Has reflections in my mind
Fazem parte da minha mente

Hasta Mañana, always be mine
Esta manhã... será sempre minha

Viva forever, I'll be waiting
Viva para sempre, e estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, enquanto durar o Sol
Live forever, for the moment
Viva para sempre, até o momento
Ever searching for the one
Em que encontraremos um ao outro

Back where I belong now, was it just a dream
De volta a onde estou agora, reparo que tudo foi um sonho
Feelings unfold, they will never be sold
Os sentimentos vividos, eles nunca se perderão
And the secret's safe with me
Estes segredos estarão sempre a salvo comigo

Viva forever, I'll be waiting
Everlasting, like the sun
Live forever, for the moment
Ever searching for the one



Agora que eu sabia que havia um novo fio de esperança, era hora de mudar o jogo. Eu tinha que provar ao Robson que havíamos nascido um para o outro.
Naquele instante resolvi que estava disposto a encarar o vilão maior desta história, a Vanessa, namorada do Robson.
E provavelmente não adiantaria de nada tentar separá-los sendo bonzinho.
Venci Adriano e Iara usando malvadezas inocentes.

Era hora de Anakin Skywalker transformar-se em Darth Vader, para derrotar um inimigo extremamente mais poderoso... A sociedade está do lado do casamento heterossexual tradicional.
Se eu não jogasse sujo, o Robson iria querer manter as aparências para sempre, enquanto eu o veria sempre com aquela garota.

Começaria a maior de todas as minhas batalhas.



Capítulo XX


Voltamos para a companhia das outras pessoas.
A galera preferiu não tocar no assunto. Talvez porque de nada adiantaria querer saber o que havia se passado pela minha cabeça. Ou então porque era óbvio demais. Ou então porque ninguém se importava mesmo, já que queriam mais era beber e se drogar, e não ficar se importando com o sentimento dos outros.

A noite prosseguiu sem transtornos.
Porém o Robson havia se tornado ainda mais atencioso, queria realmente viver cada momento ao meu lado.
Corríamos pela areia, jogávamos água um no outro... Dávamos uma atenção maior do que o normal um ao outro.

O Guilherme ficou com a Gisele.
Entretanto, de vez em quando, entre um amasso e outro que ele dava na menina, ele olhava para mim e para o Robson e sorria com uma das pontas dos lábios.
Parecia que maquinava algo. Naquele momento eu não consegui entender se ele planejava algo contra um de nós, ou se ficava excitado, imaginando o que havia entre nós. O que fizemos escondido deles – Se é que realmente ninguém mais viu...

Estiramos nossas camisas na areia para tentar tirar um cochilo.
Com o carro na oficina, éramos obrigados a dormir na areia mesmo.
Eu deitei primeiro no chão.

A Alessandra, de biquíni, deitou-se sobre meu braço direito.
Como estava chateada por não ter conseguido ficar com o André, resolveu deitar ali ao meu lado e começou a conversar baixinho, querendo saber para onde eu havia ido...

Porém, para minha surpresa, e de todos os presentes, o Robson se aproximou, tirou a sua camisa também e deitou-se ao meu lado, colocando sua cabeça sobre meu braço esquerdo.
Para que ninguém ficasse muito chocado com a atitude dele, ele fingia continuar bêbado – ou ainda estava mesmo...

Mas eu e a Alessandra não podemos continuar nossa conversa.
Não cheguei a adormecer... Cochilei de leve.
Difícil foi ter que pensar nas coisas mais broxantes da face da terra - como uma vovó de pijamas ou um caranguejo que apareceria a qualquer momento para nos beliscar – afinal de contas, por várias vezes eu comecei a ter uma ereção com o cara que eu amava deitado nos meus braços... E usando bermuda todo mundo perceberia.

Mas no meio da madrugada, como começou a esfriar, o Robson virou de lado, colando seu rosto em meu peito. E através da minha cintura, senti um volume que começava a crescer dentro de sua bermuda.

Aí não tem cristo que agüente... Meu amigo de dentro da cueca queria saltar para um passeio noturno, o pior é que estava dolorido. Eu não podia ajeitar o pênis dentro da cueca, porque num braço estava deitada a Alessandra, e no outro, o Robson.

Quando estava mais frio, ninguém agüentou... Levantando para vestir nossa camisas e ir até a oficina, ver se o carro estava pronto.
Com o carro pronto, resolvemos passear pela cidade com ele.

Dentro do carro, Robson disse que estava com calor e tirou a camisa novamente.
Só que desta vez ele estava ao meu lado.
Cada momento de contato, era melhor que o outro.



Capítulo XXI


O Robson realmente tinha atitudes muito estranhas para um rapaz que acreditava ser exclusivamente heterossexual – muitas vezes, ele tinha medo de demonstrar afeto por mim, para evitar comentários, entretanto, havia momentos em que ele mandava o mundo à merda, como naquele dia na praia, onde ele se deitou ao meu lado, em cima do meu braço.
Aquilo criava uma nuvem de insegurança do tamanho de duzentos mamutes sobre a minha cabeça: Será que um dia, se ele realmente gostasse de mim ele venceria seus medos?

Não poderíamos ficar o dia inteiro na praia.
Logo no começo da tarde, deveríamos voltar para a loja onde Robson trabalhava, pois quase todos trabalhariam, apenas duas pessoas estavam de folga: Eu e a Alessandra.

Mas não podíamos deixar de honrar o Sol, que estava disposto a nos brindar com sua presença naquele dia atípico de inverno: Sem nenhuma nuvem no céu.

Depois de algumas volta de carro, resolvemos tomar um banho de mar. Não havíamos entrado na água ainda. Durante a madrugada, eu havia ficado somente na intenção. Quando brincamos um pouco, no máximo havíamos molhado os pés.
Nem Robson nem Alessandra estavam com bronzeador. Mas como eu imaginava que poderíamos ficar mais um pouco e tomar sol, eu havia levado o meu.
A Alessandra foi a primeira a passar, mal começou e já veio pedindo, em tom infantil:
- Vilser, passa um pouquinho nas minhas costas, vai, eu não alcanço.
Eu já atendi prontamente ao seu pedido, entrando na brincadeira:
- Claro meu amor, o quanto você quiser.
O Robson já foi logo falando:
- Ih, vai acabar tudo, vê se deixa pra mim... - fez uma pausa e continuou:- Se bem que a Alessandra é tão magrela que para acabar com o creme, leva uns dez anos, dá para usar em umas duzentas Alessandras, pelo menos...

A gente começou a rir.
Mas o André ficou um tanto emburrado.
Eu não entendi se ele estava com ciúmes, porque queria ficar com ela, ou se estava fazendo graça. Existem pessoas extremamente mais complicadas do que parecem, além do Robson.

Depois de passar na Alessandra, eu comecei a passar em mim.
O Robson tomou o frasco da minha mão, e falou:
- Vocês esbanjam demais, quero ver se vai sobrar pra mim... Pode deixar que eu passo nas suas costas, vai ter que dar para nós três...

A Alessandra riu, o frasco estava quase cheio... Nunca acabaria apenas com três pessoas.
O que mais me surpreendia, era que nenhum homem que tanto queria preservar sua imagem de macho perante os colegas arriscaria passar bronzeador no corpo de um outro homem.

E foi o que ele fez.
Não foi nada tão excepcional, sua mão não percorreu as partes do meu corpo que tanto eu queria que elas explorassem. Afinal de contas, ele já não estava bêbado, não haveria desculpas ali naquele momento.
Mas foi inevitável sentir um prazer de outro mundo com aquelas mãos em mim.
Eu fechei os olhos e imaginava que estávamos a sós, sentindo sua mão forte mas muito macia percorrendo minhas costas.
Abruptamente, ele parou. Abri os olhos.
Ele jogou o frasco de protetor em minhas mãos e falou:
- Pode passar nas minhas agora...

Eu olhei em volta... Engraçado. Achei que haveria linchamento, que todos estavam nos olhando. Nada. Cada um estava cuidando da sua própria vida naquela praia.
Talvez o modo como estávamos agindo, sem nenhum carinho excepcional, sem delicadeza no trato, fazia com que nenhuma dúvida surgisse na cabeça das pessoas.

Passei o bronzeador no corpo dele, e mais uma vez fui ao delírio, sentindo cada pedaço daquelas costas largas, que não pareciam ter fim, tantos músculos haviam.

Nem o André, nem a Gisele estranharam a atitude do Robson. A Alessandra já sabia o que eu sentia por ele. E ficava cada vez mais espantada com as atitudes dele.

Já o Guilherme... olhava várias vezes com o canto dos olhos para avaliar cada passo que dávamos, cada toque que dava em Robson.

Sem maiores contratempos, curtimos e depois subimos a serra.
Guilherme me deixou em casa, e depois seguiu rumo à loja.

Robson descobriu onde eu morava. Guilherme também.

Marquei de me encontrar com a Alessandra mais a noite, já que estávamos de folga.
Combinaríamos o que eu faria para dar um fim no namoro de Robson e Vanessa.



Capítulo XXII


Passei o resto daquele dia dormindo.
Às sete horas da noite, conforme combinado, encontrei-me com a Alessandra num barzinho da Avenida Paulista.
Começamos a conversar sobre o que aconteceu na noite anterior, perguntei como o Robson havia me achado...

-Você saiu correndo, rindo que nem um louco. Eu fiquei desesperada. Eu lá ia saber para onde você poderia ir no meio da noite? Comecei a gritar por você...
- É, eu me lembro... - Comentei.
- O Robson olhou para a minha cara, disse para ficarmos pela Praia da Cidade Ocian... e antes que você sumisse por entre os prédios, ele saiu correndo atrás de você...
- E vocês ficaram esperando lá na praia da Ocian ? Houve algum comentário sobre minha atitude?
- O André falou que você devia ser fraco para agüentar a Maconha... A Gisele falou que você só queria aparecer - Rimos - - E o Guilherme, uns vinte minutos depois, disse que ia procurar por vocês... Já que ele conhecia bem a praia...
- O Guilherme? E ele disse se havia nos encontrado?
- Ele demorou para voltar. Voltou calado, estava tomando uma cerveja, perguntamos se ele havia encontrado alguém... Apenas balançou a cabeça dizendo que não. E disse: Ah, eles devem estar bem, logo, logo aparecem... Um pouco depois, acho que nem cinco minutos, vocês chegaram.
- Será que ele me viu com o Robson? - perguntei, mas já jogando o que realmente acontecera...
- Por quê? Vocês estavam por perto? - Alessandra perguntou-me.
- Eu corri para depois da praia Mirim... E o Robson me encontrou por lá... É um lugar meio deserto, porque não é urbanizado... - Eu disse.
- E...
- Nada de mais, eu ia entrar na água, mas a água estava fria. Então não entrei. Eu ia ficar tomando sol, mas estava de noite. Aí como eu não tinha muito o que fazer por lá, eu beijei a boca do Robson...
- O quê? Você é louco? E ninguém viu? - Alessandra gritava de euforia, estava muito feliz por mim, e muito descrente, uma vez que também já não esperava mais nada depois de saber que o Robson tinha uma namorada... - E ele, deixou você beijá-lo?
- O pior é que foi ele que chegou e tomou a iniciativa... Eu não seria besta de tentar forçar nada com um cara que é muito mais forte que eu...
- Ai, Vilser. - Ela se contorcia de tanto rir... Depois, uma seriedade um tanto maléfica tomou conta de seu semblante, e ela falou:
-Isto significa que já andamos meio caminho para acabar com o namoro deles, afinal de contas, ele gosta de você o suficiente para beijá-lo... Então ele não é tão heterossexual assim. Heterossexuais não beijam homens na boca...
- Mas, Alessandra o que eu iria fazer para separá-lo dela? Colocá-lo contra a parede é ela ou eu?
- Não, o que nós poderíamos fazer é com que ele pegasse raiva dela, ou o contrário, que ela pegasse raiva dele, minando o relacionamento deles.
- E isso como? Fazendo macumba? - falei e caí na risada...
- Sabe que não é uma má idéia? - Ela me respondeu, um pouco mais séria do que eu achava que o assunto merecia...
- Alessandra, eu não acredito nestas coisas... - respondi, ainda rindo um pouco.
Uns segundos de silêncio depois, ela disse:
- Mas você confia em mim, não é?
Ela ficava cada vez mais séria, então eu continuei, sério como ela:
- Já que você pretende fazer um despacho, então vê se faz um despacho ecológico, nada de matar bichinhos para os santos. Ou então faz um cheio de pinga, eles gostam destas coisas.
Pensando bem não bota muita pinga não senão é capaz deles ficarem muito loucos e colocarem a Vanessa pra se apaixonar por mim...
- Vilser, você está brincando com estas coisas... - ela me interrompeu antes que eu soltasse mais uma pérola...
- Tá bom, já que você acredita tanto, acho que tudo vale a esta altura... - falei como quem não tem mais nada a perder... - Mas então o que eu faço?
- Consiga o nome completo dela para mim... Do resto eu cuido...

Capítulo XXIII



Claro que aquela situação era complicadíssima.
Conseguir o nome completo da namorada do Robson para colocar na macumba...

Aquilo estava longe de ser do meu feitio, afinal de contas, embora eu não tivesse uma religião definida, cresci rodeado de pessoas na família com forte tradição cristã, muitos católicos e evangélicos fervorosos que defendiam que fazer coisas deste tipo era fazer uma espécie de pacto com o demônio.
Conceber aquilo era ir contra tudo o que eu havia aprendido durante toda a minha vida.

Por outro lado, estas mesmas religiões em que eu tanto acreditava, sempre foram as primeiras a querer apedrejar pessoas que pensam como eu, que gostam de pessoas do mesmo sexo. É como se estas religiões fossem donas da verdade absoluta e agem exatamente como aqueles que perseguiram a Cristo, sem um pingo de amor ao próximo que o mesmo Cristo tanto pregara...

Se estas religiões fazem exatamente o contrário daquilo que elas pregam, porque eu não poderia tentar fazer algo que talvez desse certo? Algo que poderia realmente trazer a pessoa que eu amo para perto de mim...
Errado por errado... então vamos meter o pé na lama...

Após alguns minutos de silêncio, continuei a falar com a Alessandra:

- O nome completo da Vanessa... Mas pra quê? Os santos vão aproveitar e colocar o nome dela no SPC? Aí ela vai estar tão endividada que vai esquecer o Robson?

Alessandra riu,
-Vilser. Deixe de ser imaturo. Senão, aí é que não vai dar certo mesmo. Tente acreditar em mim. Do resto eu cuido, eu já falei.
- Alessandra, como que vou conseguir isto? Vou chegar pro Robson e falar: - “Oi Robson, eu queria o nome completo da sua namorada... Sabe o que é? É que eu quero comprar um carro para mim no nome dela...”
- Calma, Vilser. Vamos pensar numa maneira. O nome completo do Robson até eu já sei, aparece lá na relação de funcionários do cartão de ponto, mas o mais difícil vai ser conseguir o nome dela... Mas nós temos que dar um jeito...
- Alessandra, não que eu me importe muito, mas o que você vai fazer ? Também não quero que a vida da moça vire um inferno, nem que ela morra ou passe fome... Só quero um fim de namoro básico, e que ela arrume um homem melhor que o Robson... Afinal de contas, eu estaria fazendo um favor para ela... Melhor se casar com um cara que nunca tenha se permitido ficar com um homem antes. Que deixe as roupas jogadas pela casa, fique enfiado no bar o dia inteiro, que bata nela ao chegar em casa... Ou seja, um homem normal como toda mulher sonha...
- Concordo com você, estaremos fazendo um favor a ela... Afinal de contas, depois da primeira vez, é capaz de ele cair na tentação de ficar com outro homem novamente.

Levantei várias outras hipóteses de como conseguiríamos o nome completo dela, mas nenhuma convincente o suficiente.
Seguimos para casa, e durante a semana continuamos a matutar como levaríamos nosso plano adiante.

...

Cinco dias depois, o Robson apareceu na minha loja novamente.
Almoçamos juntos como costumávamos fazer uma vez por semana.
Depois do almoço, enquanto voltávamos a loja, ele começou a gaguejar um tanto nervoso:

- Vilser, eu queria te pedir uma coisa, mas fico com medo de que você fique muito bravo...
“Caramba, o que pode ser ?” – pensei eu. Mas pedi para que ele prosseguisse, afinal de contas, se era para acabar algo, se era para que deixássemos de nos falar, que fosse de uma vez...
- Vilser, é a Vanessa...

“Buceta, caralho, maldição!!!” Pensei – “Aposto que ele quer se casar e quer que eu seja o padrinho... mas eu só vou se for para botar fogo no vestido de noiva dela, é claro que eu boto!!! Até ela virar carvão. Maldita!!!” - Mas falei apenas:

- O que tem a Vanessa?
- Ela ficou curiosa em te conhecer, diz que eu falo muito em você...
- Você fala de mim? Robson, o que você fala de mim para ela, homem de Deus?
- Calma, eu não falo nada de mais... Só falei que nós somos muito amigos, que conversamos muito, falei que almoçamos juntos, que saímos juntos, que confio plenamente em você... Ela ficou feliz em saber que tenho um anjo da guarda, aqui em São Paulo. E quer conhecê-lo. Ela insistiu muito, por isso, eu resolvi falar para você. Mas claro que se você não quiser... eu invento uma desculpa...

Desculpa? Ódio? Não... Pelo contrário... Mas que situação mais conveniente... Eu poderia conseguir o nome completo dela com algumas horas de conversa... Ou até fazer com que ela ficasse extremamente magoada com o Robson... Se eu armasse o circo da forma certa...

Como a pessoa mais doce e inocente da face da Terra, eu disse que não haveria problema nenhum em conhecê-la. Pelo contrário, disse que seria até um prazer...
Robson, sabia que eu tinha um bom coração. Jamais imaginou, que este mesmo bom coração, como estava apaixonado por ele, estava fazendo coisas foras de controle. Robson jamais desconfiou da arapuca que ele mesmo ajudara a criar...

Capítulo XXIV


Encontrar com o cara que eu gostava, acompanhado de sua namorada...
Mesmo sabendo que era por uma boa causa – avaliar o terreno para planejar como destruir o relacionamento dos dois - não seria tarefa das mais fáceis.
Como o Robson cumpriria sua promessa de não beijar ou dar em cima de nenhuma mulher na minha frente, se a garota em questão é sua namorada oficial ? Se ele não a beijasse, como ela reagiria ? Se ele a beijasse, como eu reagiria ? Como meu coração agüentaria ver tal cena, sem que eu partisse para cima da garota e deformasse seu rosto a custa de incontáveis socos e pontapés ?
Em muitos momentos eu pensei em desistir.

Mas não podia. Eu nunca acreditei em feitiços, macumbas, mal-olhados e coisas do gênero.
Este nem era meu objetivo verdadeiro.

A minha real intenção era estudar uma brecha...
Avaliar o relacionamento deles. Descobrir se haviam pontos frágeis naquele relacionamento, saber exatamente onde era o calcanhar de Aquiles. E a partir daí, semear a discórdia entre eles. Até destruir por completo.

Que monstro eu havia me tornado...
Dizem que o amor é o mais nobre dos sentimentos. Mas a paixão...
A paixão tornara-me um ser calculista, disposto a fazer tudo para que a garota odiasse o Robson, ou que este passasse a odiar a Vanessa, ou melhor ainda, que ambos se odiassem, mutualmente.

Liguei para a Alessandra.
Contei-lhe sobre meus planos.
Ela ficou radiante, mas ao mesmo tempo, não queria que eu tivesse que passar pelo sofrimento de conhecer o demônio pessoalmente. Reforçou a idéia de que eu tinha que conseguir o nome completo da minha vítima.

Mesmo não acreditando nestas coisas, um peido para quem já está cagado não é nada...

...

Na quinta-feira, um pouco mais de uma semana após o lance da praia, Robson me ligou.
Marcamos de nos encontrar às 20 horas, em frente à estação Santa Cruz do metrô, a estação mais perto de onde trabalhávamos.

Cheguei um pouco antes do combinado, faltava uns sete minutos para o horário combinado. Não porque eu ansiava em conhecer a Vanessa, claro, mas por nervosismo, quanto antes eu entrasse em ação melhor.
Imaginei que iríamos de metrô.

Lá estava eu na porta da estação, quando um Palio Azul, prateado, quatro portas, o carro do ano, para na minha frente.
Robson estava ao volante.

- Entra aí... - falou, e as portas traseiras destravaram-se logo em seguida.

Entrei meio constrangido, não havíamos acertado se iríamos de carro ou não.
Se eu não tinha condições de comprar nem um “Pois é”, o Robson, que ganhava metade do meu salário, muito menos... O carro com certeza era da garota que estava no banco ao lado dele:
Loira - só para variar - olhos castanhos, simpática, até... Mas não era excepcionalmente bela como eu pensava... E ainda conseguia ser menor que o Robson, que tinha 1,67m de altura...

Mal acabei de sentar-me ela já escancarou logo o sorriso, e estendeu-me sua mão.
- Você que é o Vilser ? Prazer, eu sou a Vanessa, namorada do Robson.
“Como se não fosse óbvio... Por acaso eu tenho cara de loiro?”
- Oi, Vanessa. Prazer “Só se for só seu, piranha”. Eu sou o Vilser. “Já que é para apostar quem é o mais retardado...”

- Que nome diferente... onde sua mãe tirou este nome?
- É o sobrenome de um poeta Alemão... “Se fosse um nazista, tudo seria mais fácil, eu já teria uma desculpa para te matar, sua vaca... Eu diria que foi possessão...”

- Não devem existir muitos rapazes com este nome... Um dia, quando eu tiver um filho, quero um nome assim, único. Não é bonito, Soninho?
Robson respondeu, um tanto vermelho:
- Eu sempre achei...

Fiquei lisonjeado... Não pelo comentário da Vanessa.
Mesmo que ela dissesse que eu fosse um Deus, eu estava andando e cagando pra ela.
Mas foi a primeira vez que vi o Robson elogiar meu nome... principalmente na frente dela.

Mas Soninho... Que apelido cretino. Aquele som fincou na minha cabeça, doeu meus ouvidos.


Aliás, não sabia que som havia incomodado-me mais... Aquele apelido enfadonho que ela havia dado à ele, ou Zezé de Camargo e Luciano que tocava no aparelho de CD daquele carro.
Não me lembro exatamente o que eu disse, mas fiz uma piada bem mal educada a respeito daquela música.

E ela interveio:
- O Robson que gosta destas músicas...
Eu olhei para ele através do retrovisor, e comentei:
- Ninguém é perfeito...
Ele franziu suas sobrancelhas deliciosamente peludas como uma taturana, quase unidas no nariz, inflamou seus olhos azuis, e disparou:
- Você é que me compra estes discos. Chega com o embrulho fechado, e eu escuto porque eu acho que você gosta...

Um certo clima de desavença surgiu no ar logo no início da noite.
Não pensei que seria tão fácil. Eu sabia tanto sobre o Robson, todos os seus gostos, seus pratos favoritos, suas músicas. Parecia-me que Vanessa, apesar de namorar com ele há dois anos, não o conhecia o suficiente.
Apenas impunha sua vontade a ele.
Algo me dizia que não seria necessário muito esforço para chegar onde eu queria.
A noite prometia...

Capítulo XXV


Chegamos a uma choperia no bairro do Paraíso.

Choperia... Chopp... Bebida alcoólica... Junto com o cara de quem a gente gosta... Junto com a namorada do cara de quem a gente gosta...
Mistura ingrata esta...
Seria possível conciliar uns goles a mais com aquele encontro?
Em algum momento eu poderia derrapar e falar mais do que devia, e era capaz de nem me esforçar em conseguir o nome dela...

Mas, venhamos e convenhamos... Quem tinha que se preocupar com isso era o Robson não eu...
Afinal de contas, o que faz com que um homem aceite sair com sua namorada e com um cara que ele sabe estar declaradamente apaixonado por ele ?
Sua intenção seria criar um harém? Ou um dos dois seria prejudicado naquela noite? Neste caso, provavelmente seria eu, já que não seria provável que o Robson aceitasse que gostava de um cara de uma hora para outra...

Sentamos à mesa.
A Vanessa sentou-se do lado do Robson e eu fiquei numa cadeira de frente para ele.
O garçom chegou e o Robson já foi pedindo, sem me perguntar nada:
- Para mim, um chopp normal e para o rapaz um com groselha. E você Vanessa, gostaria de tomar o quê?
A jumenta escancarou os dentes e pediu:
- Um chopp normal.

Reparem numa curiosidade.
O Robson sabia que tipo de bebida eu gostava.
Ele lembrou-se que naquele dia em que fomos ao Karaokê eu comentara que preferia cerveja ou chopp se fossem com groselha.
Engraçado foi ele ter pedido por mim, num como um gesto proposital para mostrar que se lembrava deste meu comentário.
Ele nem fez questão de fazer o mesmo pela Vanessa.
Somando este ponto ganho ao ponto dele ter comentado que achava meu nome bonito, eu estava com a noite praticamente ganha.

Mas a Vanessa tinha uma vantagem. Ela era sua namorada oficial. Era mulher.
Poucos minutos depois, a Vanessa já estava se atirando no colo do Robson.

Mas o Robson não agiu como um canalha qualquer.
Como um gentleman, ele esquivava-se da Vanessa, gentilmente é claro, disse que estava com afta na boa, e como não sabia se era algo contagioso não poderia beijá-la naquele dia. Nem eu teria idéia melhor.
Sentia-me como um rei vitorioso.

Poucos minutos depois, Vanessa já precisava ir ao banheiro.
Assim que ela saiu de minha vista, eu disparei o primeiro míssil oficial da guerra:
- Robson, me desculpe... Mas Soninho é um apelido terrível. E comecei a rir.
- Eu sei, eu já havia até comentado com ela... Mas ela gosta...
- E por que ela gosta, você aceita e pronto! Que nem no caso do CD?
- Vilser, eu ia ficar discutindo para quê? Se ela acha que está bom assim, eu vou levando, até eu cansar... até eu ver que não dá mais...

Eu quase abria minha boca, dizendo que aquilo era falta de conversa entre eles, e que quando alguém gosta de outra pessoa, ninguém deve fazer tudo o que a outra pessoa quer, mas ceder em alguns pontos, contando que a outra pessoa ceda também, e assim chegar a um equilíbrio...
Mas eu não estava ali para construir um relacionamento e sim para destruir. Fiquei na minha.
O Robson não permitiria que eu continuasse, interrompeu meus pensamentos com uma nova informação.
Abriu aquele sorriso enorme, seus olhos azuis brilharam e ele disse:

- Mudando de assunto. Vilser , eu vou ser promovido. Vou tornar-me terceiro gerente da loja.
- Que legal, Robson... Sabia que você era competente para isto...

Sabia porra nenhuma. Sabia sim, que ele era sobrinho do Thomaz, e por isto deve ter sido promovido.
Por outro lado, se eu, que amava ao Robson com todas as forças do meu coração não via aquilo com bons olhos, imagine o resto da loja onde o Robson trabalhava...
A tempestade que aquilo causaria era de um tamanho desproporcional.
Realmente o Robson precisaria muito de um bom amigo, por isto fazia tudo aquilo comigo....
E fosse a promoção por merecimento ou por sacanagem, eu estaria ao lado dele.
Estar ao lado de quem poderia estar errado. Mais um sintoma de que aquela paixão me fizera perder a noção de moral.

- E aí eu poderia depender menos da ajuda financeira da Vanessa...

É, esta história poderia ficar ainda pior. E ficou.

- Como assim?
- A Vanessa é médica. Ganha razoavelmente bem. Ela que me ajuda em algumas contas para que eu possa ficar em São Paulo. Se dependesse só do salário da loja, eu não poderia pagar o aluguel da minha casa aqui na cidade.

Agora, havia mais uma peça que moldava o quebra cabeça, e detonava com a minha cabeça. E com o meu coração.
O Robson assumia naquele momento que amando ou não a Vanessa, ele estava com ela devido a segurança financeira de que ela o proporcionava. Compreendi o carro zero. Compreendi a dificuldade do Robson aceitar que me amava.

Não era só a sociedade. Não era só o conceito de certo ou errado impugnado a todos nós pela religião. Era saber como viver em São Paulo sem a ajuda financeira que a Vanessa podia proporcionar.

O que eu faria, ganhando a miséria que eu ganhava?
Era o Robson um gigolô?
Poderia eu convertê-lo ao meu amor?

Ela voltava do banheiro.

Ainda assim eu daria um jeito de conseguir o nome completo dela...
Quem sabe marcando uma consulta?

Capítulo XXVI


Fiquei imaginando como conseguiria o nome completo do lixo.
Minha primeira tática, a princípio, era marcar uma consulta com ela, já que ela era médica...
Mas isso iria depender da especialidade em que ela era formada... Se fosse ginecologista, complicaria um pouco...

Assim que ela voltou, como quem não quer nada, fui introduzindo o assunto profissões...

- E você Vanessa, trabalha onde?
- Trabalho num hospital em Londrina.

O Robson começou a me olhar com uma cara desconfiada... Se ele já havia dito que ela era médica, porque eu começava o assunto do zero?

- E faz o que no hospital? - Eu perguntei, fingindo que o Robson não havia falado nada, e que eu estava realmente interessado no que ela fazia – como se fosse possível!!! Minha vontade era afogá-la no copo de chopp.
- Sou médica. Cardiologista.

- Que legal. Engraçado, eu estava pensando em fazer um exame no cardiologista... sabe como é, check-up geral, o quanto antes melhor... - “Um de nós precisa morrer do coração, não é mesmo, que-ri-da?”
- Seria muito legal, pena que você teria que ir até Londrina para fazer os exames...
Rimos. Eu, claro, ri tanto, que quase morri sem ar. Como é difícil fingir que o papo está interessante...

Entretanto...
Alguns minutos depois, a conversa estranhamente enveredou num outro rumo.
Vanessa começou a falar sobre uma irmã sua, que também morava aqui em São Paulo, e que esta irmã sentia-se “muito sozinha”... E que seria legal se marcássemos uma balada a quatro.

Mais alguns verbos no ar...
Mais alguns elogios feitos à minha pessoa...

Comecei a perceber que o que a Vanessa queria...
Como o Robson havia arrumado um amigo tão legal e interessante, por que não empurrar um príncipe como o Vilser para cima da baranga... provavelmente o Robson gostaria que eu fosse seu cunhado!!!
Claro que Vanessa não percebeu que eu era gay. Raras pessoas percebem.
Se bem que era bom ela não perceber.
Não é qualquer mulher que acharia o máximo o melhor amigo do namorado ser gay.

Riscos existem.

O próprio Robson ficou pasmo com a conversa que a Vanessa iniciou..
Ele sabia que seria praticamente impossível, pois eu havia falado para ele que também não me aceitei da noite para o dia. Mulher a esta altura da novela... nem pensar!!!
Nem se fosse para passar o resto da vida ao lado dele, como concunhado.

O próprio Robson começou a encerrar o rumo da conversa, aliás, de qualquer conversa:
Disse que era melhor irmos embora, pois ele precisava estudar alguns novos afazeres da loja.
Fiquei um tanto decepcionado com a atitude dele, queria me livrar da medusa... mas não queria me separar dele naquele momento, ainda mais deixando que o casal fosse embora... somente os dois... pra a casa dele.

Vanessa tentou insistir, disse que seria legal irmos a uma danceteria, fazermos alguma balada...
Robson foi enfático.
O encontro acabava ali...

Ao pagar a conta percebemos que no local não se aceitavam cheques, apenas pagamento com cartão de crédito, débito ou dinheiro.
Vanessa disse ao Robson, que estava apenas com o cheque, e este não tinha o dinheiro para pagar nem sua parte.

- Você tem cheque? -Perguntei à Vanessa, intrometendo-me.
- Sim, mas eles não aceitam... - Ela disse, como se eu não soubesse.
- Vamos fazer o seguinte, - Completei, educadamente - Você me dá o cheque e eu pago a parte de vocês, com meu cartão de débito...

Ninguém questionou.
Perfeito.
Eu tinha o nome completo de Vanessa em minhas mãos...
...

Saímos, entramos no carro e partimos.
No caminho, o Robson disse que precisava passar no supermercado para pegar algo.
Era pouco mais de meia-noite.
Apenas os supermercados que ficam vinte e quatro horas abertos ainda funcionavam.

Para ajudar, começou a chover.
Ao chegarmos no supermercado, vi que o estacionamento era enorme, gigantesco. E ainda estava cheio, apesar do horário.
Conseguimos estacionar apenas numa vaga distante da porta do mercado.

A chuva estava ficando mais densa.
Robson disse a Vanessa que era melhor que a mesma ficasse no carro, já que melhorara a pouco tempo de uma gripe.
E me disse:

- Mas talvez eu precise de uma força para trazer as coisas para o carro, Vilser, você vai comigo?
- Claro! - Respondi, mais entusiasmado do que deveria.
- Tudo bem, mas voltem logo rapazes... - pediu Vanessa.

Saímos do carro, decorei o lugar que estávamos, pois o Robson nunca decorava lugares de estacionamento...

Leram bem esta parte?

O Robson nunca decorava lugares onde estacionávamos.
Se dependesse dele, passaríamos horas procurando por um carro, mesmo estacionando na rua. Pois quando ele está com alguém, ele deixa para que a outra pessoa se preocupe com isto.
Mas eu sempre fingia que não sabia, só para ganhar mais alguns minutos ao lado dele.

Acho que vocês já imaginam quanto tempo Vanessa ficou esperando no carro...

- Meu!!! Não brinca, você só pode estar zoando, Vilser. Você lembra onde é que está o carro... Você não quer é falar...- Robson já estava aflito e um pouco nervoso.
Eu não me intimidei, queria que Vanessa visse como é bom contar com um namorado tão dedicado a ela que nem decorou o lugar onde estava o carro:
- Cara, tava o maior toró... Não passou pela minha cabeça que você nem lembraria onde deixou o carro da sua namorada, com a mulher que você tanto ama dentro dele! - Falei e continuei procurando. Fingindo que realmente estava afim de achar algo... O corpo dela sem vida, por exemplo...
- Vilser, isto não é hora para ter ciúmes, cara. A Vanessa deve estar desesperada.
- Pensasse nisto na hora de sair do carro...

Após quase uma hora de molho, o estacionamento começava a esvaziar...
Não dava mais para fingir que não sabia, levei Robson ao carro.
A Vanessa estava muda.
Irada, mas não falou uma só palavra. Acho que deixou para quebrar o pau em casa...

Poucas vezes me senti tão satisfeito comigo mesmo...
Queria poder meter-lhe fogo três vezes ao dia...

O Robson me levou até em casa.
Decorou o caminho, mesmo tendo ido lá apenas uma vez, naquele dia da praia.

Entretanto, despediu-se um tanto friamente de mim.
E não me ligou naquela semana, como fazia sempre, para convidar-me para almoçar.

De coração partido, após chorar muito, imaginei que o Robson descobrira tudo.
Afinal de contas, não fui muito discreto em nosso encontro...

Com toda a desgraça já muito bem espalhada pelo ventilador, resolvi ligar para a loja onde trabalhava a Alessandra, para que pudéssemos colocar nosso plano em prática.
Só que a loja da Alessandra era a loja do Robson. Ele atendeu.

- Por favor, eu queria falar com a Alessandra. - Pedi, fingindo que não reconhecera sua voz...
- Oi, Vilser. Por que você sumiu? - Robson perguntou, com um sorriso na voz que me desarmou.
- Eu não sumi, Robson, você que não me ligou mais... - Respondi, tranqüilamente, mas com o coração pulsando a dez mil por hora...
- E por que sou eu que sempre tenho que ligar para você ? Ajudaria muito se você ligasse para mim de vez em quando, levanta a moral da gente. Eu também sinto saudades de você...

Quase chorei do outro lado da linha... Não consegui falar nada. Respirei fundo, e alguns segundos depois, ele continuou...

- Vilser, eu vou precisar de alguma ajuda com estes programas aqui da loja... Eu não estou sabendo mexer com eles, e o Thomaz nunca tem tempo de me explicar... Que horas você sai daí hoje?
- Ás nove da noite...
- Eu vou ter que fechar a loja... Sozinho !!! Por que você não dá uma passada aqui?
- Mas, e se não der tempo de pegarmos o último ônibus?
- Nós dormimos na loja...


Capítulo XXVII


Quando Robson veio com aquele comentário de “HAVER A POSSIBILIDADE” de dormir na loja...
Só nós dois, juntos, sozinhos... Parecia ser bom demais para ser verdade...

- Robson, mas em que horário eu tenho que chegar aí ?
- Como em que horário, Vilser ? Você sai daí e vem, é tão simples...
- E quero dizer se eu tenho que esperar o pessoal sair da loja para entrar...
- Claro que não. Você ia ficar lá no meio da rua fazendo o quê ? Se você chegar aqui, e o pessoal ainda estiver trabalhando, é para entrar normalmente...

Recapitulando o motivo da minha preocupação, para quem se esqueceu de algo:

Eu tive que sair da loja anterior, porque o Thomaz – gerente principal da loja e tio do Robson - sacou que eu estava afim do rapaz.
O Adriano, que estava afim do Robson também, e saíra conosco poucos dias antes de eu ter que sair da loja, espalha para toda a loja que eu e o Robson tínhamos um caso (o que infelizmente não era verdade...)
O Robson passa a conversar comigo só o profissional, para não ouvir brincadeiras...
Então eu sou obrigado a engolir aquela história de namorada e tudo mais...

E depois de toda esta novela mexicana, eu entraria na minha antiga loja, já não sendo mais funcionário da mesma.
Seria como dar de bandeja ao Adriano a oportunidade de proclamar em brados ensurdecedores: Eu não disse? Eu não disse?
De uma hora para a outra, o Robson deixou de se preocupar com o comentário de todos eles ?

- Robson, o pessoal vai fazer comentários...
- Pois deixe que falem, Vilser! O que eu faço da minha vida é problema meu... Antes, eu queria evitar comentários para não queimar meu filme com o Thomaz... Mas agora eu fui promovido. Não importa a mais ninguém com eu fico ou deixo de ficar...
- Beleza, então.
- Vai falar com a Alessandra? Aproveita que ela chegou aqui no delivery... - Robson encerrou nossa conversa telefônica.

- Oi, Vilser. - ela atendeu alegremente, assim que ele a avisou quem estava ao telefone.
Eu sempre amei a Alessandra. Minha amiga de todas as horas. Mesmo. Do coração. Mas sempre era tão difícil parar de falar com o Robson. Quando ela atendeu me deu um aperto no peito, e eu suspirei, frustrado por causa do fim da conversa com o Robson:

- Oi, Alê...
- O que aconteceu, o Robson brigou com você? - Ela falou alto para ele escutar...
Escutei a voz dele ao fundo:
- Eu não fiz nada! Porque tudo neste mundo é culpa minha?
- Não, Alê, não faz isso...- Gritei, interrompendo-a.Ele não fez nada mesmo, a culpa é minha. Eu que fico dando meus suspiros fora de hora...
- E aí, gato? Arrumou aquilo que eu te pedi?
- Claro, Vilser James Bond é sempre eficiente.
- Ótimo, e quando que agente vai por em prática?
- Hoje eu vou dar um pulo aí, e a gente combina...
- Perfeito!

...
Implorei para o Maurício me liberar mais cedo naquela noite...
Quando ele viu que era por uma boa causa, não pensou duas vezes, e me desejou boa sorte.
Cheguei à loja por volta das 22:00.
Por mais que estivesse ansioso demais naquela noite, hesitei um pouco em entrar na loja. Dei duas voltas no quarteirão, e entrei pela porta principal, que dava acesso ao delivery.

E lá estava ele, fechando um caixa.
Camiseta branca, de gravata, barba bem feita – até mais do que de costume - e gel no cabelo.
Por que aquele desgraçado ficava mais bonito a cada dia que se passava?

A Alessandra passava a vassoura pelo delivery...

Como apesar de tudo, eu não queria que ninguém da loja percebesse o real motivo da minha visita, chamei pelo nome dela:

-E aí, Alê ?
- Vilser!!! - E correu aos berros, dando a volta pelo balcão para me abraçar...

O Robson levantou a cabeça. Abriu um imenso e belo sorriso, que corroia todo o meu corpo. E seus olhos azuis em minha direção, incendiaram-me a alma. Deu-me uma vontade de pular aquele balcão e agarrar aquele homem, sem me importar com as conseqüências. Mas eu tive que ficar só na vontade. Ainda havia toda a noite pela frente.

- E aí, Robson?
- E aí, gatinho, beleza?

Eu comecei a rir... Ser chamado de “Gatinho” era demais para mim... Comecei a achar que se ele fosse um pouco mais ousado comigo do que aquilo, eu morreria do coração naquela mesma noite.
Mas depois, resolvi fingir que o meu papo era só com a Alessandra. Até que todos fossem embora.
Como ela era a última a sair não haveria problema...

Mas a Alessandra ia embora junto com o Adriano.
Então eu entrei na sala da gerência, para avisar ao Robson que levaria os dois no ponto de ônibus e fingiria que seguiria por outro caminho.
Ele não tirou os olhos da frente do computador e disse, serenamente:
- Vilser, deixa de ser bobo! Tranca a porta assim que eles saírem e vem me ajudar aqui...

Segui as suas ordens, claro. Sem pestanejar.
Despedi-me deles, no que o Adriano me perguntou:
- Ué, você não vai embora?
- Não. O Robson me pediu uma ajuda com o fechamento.
Até mesmo a Alessandra surpreendeu-se, arregalou os olhos e disse baixinho em meu ouvido, enquanto abraçava-me:
- Então juízo, hein? Quero dizer, joguem qualquer sombra de juízo fora...
E foram embora. Sem maiores empecilhos.

Voltei à sala da gerência.
Sentei-me sobre uma mesa que ficava ao lado da mesa do computador, e perguntei:
- E aí, cara, muitas dúvidas?
- Bem, tenho algumas coisas anotadas, mas na prática... sabe como é...
E expliquei-o passo a passo como ele deveria proceder...

À uma hora da madrugada o serviço estava pronto.
Ele olha para o relógio, e pergunta:
- Será que ainda tem ônibus?

Se eu tivesse problema no coração, teria morrido ali mesmo.
Aquela frase cortou minha alma em fatias, era quase como uma navalha na pele queimada.
Bati a mão na testa. Devia estar com um sorvete...
Ele queria ir embora.
Quanta decepção para um só coração.
Me senti o maior de todos os tolos.
E como ele não havia prometido nada, eu não podia deixar transparecer tanta frustração na minha cara.
Eu não conseguia compreender como eu não percebera que ele queria me usar somente como ajuda mesmo.
De onde nasciam minhas esperanças injustificáveis?

Levantei-me da mesa, coloquei minha jaqueta – era uma noite verdadeiramente fria de inverno.
Olhei no relógio, tentando demonstrar que conformava-me com a situação.
Respirei fundo, e sei lá com que forças pedi:
- Abre a porta. Eu vou ver se ainda dá tempo de pegar o último.
Ele olhou para mim com uma cara de “Você anda comendo cocô de novo?” e disse:
- E porque você vai embora?
- Ué, você não perguntou se ainda tem ônibus? - Respondi com outra pergunta num tom de dããããã...
- Claro, considerando o fato de ser muito provável que eu termine o fechamento da loja sempre neste horário, eu queria saber se teria ônibus para eu ir embora nas outras noites. Eu não disse que ia ver isto hoje, agora. Mas também não penso em dormir aqui quando você não estiver.

Eu fiquei menor que uma formiga.

Robson desligou os computadores, levantou-se da cadeira, e desceu as escadas para a cozinha.
Segui-o sem abrir a minha maldita boca.
Ele ligou o forno, e disse:
- Eu vou aquecer uma refeição que eu comprei para nós, seu problema deve ser fome.

Depois de aquecer as embalagens, fomos jantar no salão do restaurante.
Poucas luzes foram acesas, para que quem olhasse de fora não percebesse que havia alguém dentro da loja.
Comi sem falar muito, ainda envergonhado de como tinha agido.

Assim que terminamos de jantar, ele solta o nó da gravata, e diz:
- Posso acabar com o clima de “jantar romântico trajando black-tie”? Você não está a caráter esta noite e esta gravata e estes sapatos estão me matando!
Eu comecei a rir, quebrando o gelo que eu havia imposto a mim mesmo. E disse:
- Por mim, pode ficar pelado! - Proposta mais direta, impossível.
- Pelado eu não posso. Está frio. - Rimos. Depois ele fez cara de que havia lembrado de algo, olhou para os lados e para o teto, com as sobrancelhas quase espremendo os olhinhos azuis, e perguntou: - Aliás, como agente vai fazer para dormir nesta loja, neste frio?
- Lá na minha loja, quando eu perco o metrô, eu durmo sobre aquelas almofadas onde colocam as pizzas para entregar. Junto várias daquelas que não usamos e fica parecendo um colchão...
- E para cobrir ?
- Uso um casaco para entrar no refrigerador.

Robson aprovou a idéia imediatamente e foi buscar várias transportadoras de pizzas (baggies) e as esparramou no chão do delivery, que era a parte mais protegida da loja em relação à ventilação. O delivery fechava-se como uma sala.
Logo depois, trouxe também uma televisão da sala de reuniões.
Colocou-a no chão e disse:
- Desde que eu comecei a dormir sozinho em São Paulo, eu só consigo dormir com o TV ligado.
Deitei sobre as baggies, e fiquei assistindo à TV. E o Robson foi ao vestiário.
Voltou vestindo uma blusa de lã, calças de moletom e meias brancas.
- O clima formal acabou mesmo, hein? Pelas suas roupas já somos casados a três anos... - Falei, em tom de brincadeira.

Grande coisa. Homem bonito, com jeito de macho, é gostoso até usando roupas sujas e meias furadas – o que não era o caso do Robson.

Sentou-se de qualquer jeito sobre o colchão improvisado e começou a assistir ao filme também.
Um filme que passava na “Sessão Madrugada” que eu nem me lembro qual era.

Devido à posição em que eu estava, senti o pescoço arder um pouco, e deixei escapar um sonoro “Ai!”
- O que foi ? - Robson me perguntou.
- Meu pescoço. Deu um estalo estranho. É o que dá assistir sem travesseiro.
Sem tirar os olhos da tela, num tom de indiferença, ele disse:
- Se quiser, pode usar minha perna como travesseiro.

Eu, que estava deitado, levantei e fiquei sentado, olhando para a cara dele.
Ele olhou para mim, como quem diz: “Falei algo errado?” E em seguida, voltou novamente a fitar a TV, como se não tivesse falado nada.
Logo depois, esticou a perna que estava mais próxima de mim em minha direção, e permaneceu com a outra dobrada.
E como crianças que brincam de “Eu duvido que você faça”, eu me aproximei e deitei minha cabeça sobre sua forte perna habituada a jogos de futebol.
Não prestava mais atenção à televisão. Meus olhos percorriam os demais trechos de sua perna, e iam até seu pé, de desenho perfeito. Todos estes pedaços do paraíso cobertos demais para minha visão, mas não para minha imaginação.
Eu não queria forçar a amizade, mas fingi que pequei no sono, e virei minha cabeça.
Meu nariz quase tocava sua virilha.

- Vilser?
Fingi que estava acordando e gemi qualquer coisa parecida com “Que foi?”
- Já que vamos ganhar fama de que algo tá rolando mesmo... Continuou falando como se estivesse assistindo ao filme.- Se quiser completar o serviço...

Ele fechou seus olhos.
Aproximei meu rosto do “Oscar” mais desejado da história do cinema... E completei o serviço.
Não era a minha primeira vez.
Mas com certeza era a melhor vez.
A única que me fez tremer infinitamente da cabeça aos pés, com o coração em frangalhos, devido apenas a exploração de meus lábios...
Suava como se fosse verão em pleno inverno.
Eu quis que o mundo acabasse ali mesmo, o que me faria morrer feliz.
Queria que toda a minha realidade fosse somente aquilo.
Ficar ali, desde sempre e para todo o resto do sempre.

Nenhuma iguaria jamais teve sabor tão fantástico.
Nenhum néctar seria mais satisfatório.

Encerrada nossa travessura, Robson deitou de lado, e abriu os olhos.
- Que filme mais besta este da televisão. Ainda bem que não precisamos assistir.
Rimos.

Não houve tempo de mais nenhuma peripécia ou ato de afeto.
O alarme da loja disparou a tocar.

Insensato, herói que sempre costumou ser, levantou correndo, e foi ver o que acontecera.
Abriu a porta do delivery, e assim que seu vulto some na escuridão da cozinha, ouço um barulho muito grande de alguém se esborrachando no chão.

Seria possível que na melhor noite da minha vida a loja estava sendo assaltada?
enviada por Vilser






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