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12/02/2005 23:16
©2004 Vilser Vaittim
Introdução
Todos nós passamos por uma época em nossa vida, onde tudo parece uma conspiração. Tudo parece ter sido incrivelmente escrito por uma força maior, tamanha a quantidade de coincidências e lições a serem tiradas desta fase da vida.
A maior parte dos eventos desta história foi real.
Entretanto, como não é meu objetivo prejudicar ou colocar algumas pessoas em situação que elas considerem constrangedoras, nomes, lugares, situações e ordem cronológica destes mesmos fatos foram alterados ou omitidos, para que não haja identificação imediata e para preservar a privacidade de cada um...
Resolvi contar esta história, pois pode ser que ajude alguém a superar seus próprios fantasmas; suas próprias dificuldades. E que ajude a alguém a lutar muito para viver plenamente seus próprios sonhos.
Capítulo I
Atualmente, a loja em que eu trabalhei já não existe mais, mas na época, era uma das mais conhecidas entre as demais lojas da rede. Um dos motivos que a tornava famosa era a grande quantidade de funcionários gays homens e mulheres. Mas a loja não era conhecida apenas por este motivo. Devido à qualidade de nossos produtos e do nosso atendimento, muitos clientes vinham de bairros remotos só para nos visitar...
Nesta época, eram três os gerentes da loja: Sr. Thomaz, o gerente principal; Cláudia, a gerente assistente e Letícia, que era trainee de gerente.
Graças a muito esforço, depois de dois anos, eu já trabalhava como coordenador.
Se eu chegasse a Trainee, seria mais fácil realizar minha meta de pagar uma faculdade.
Embora houvesse muitos funcionários gays na loja, durante muito tempo, eles nem imaginaram que eu era um deles. Até que uma vez, um rapaz me pegou beijando um cara numa boate. Se é que um dia havia sido um segredo, a partir daquele momento não era mais. Mas como eu achava que minha homossexualidade não era da conta de muitos dos meus colegas de trabalho, não fiz questão de falar. Então, nem todo mundo ficou sabendo...
Uma das pessoas que sabia que eu sou gay era a Alessandra, com quem eu realmente me abria, contava tudo.
O rapaz que havia me visto na boate chamava-se Adriano, ele era loiro, bonito, musculoso, jeitão de homem. Mas no dia em que ele me descobriu, eu o descobri também, e ficou tudo em família.
Embora eu o achasse bonito, ele sempre me dizia que o negócio dele eram os homens negros. Já que eu sou branco, fiquei chupando o dedo...
Talvez tudo andasse neste ritmo durante o resto da minha vida.
Eu achando o Adriano interessante e ele achando os outros homens mais interessantes do que eu.
Infelizmente, ou felizmente, dependendo do ponto de vista de cada um, a vida tem mais imaginação do que muitos de nós.
Certa vez, o Thomaz incumbiu-me de selecionar novos funcionários para a loja.
O Adriano e a Alessandra, que ficaram mais próximos de mim, falaram para eu escolher um cara lindo de morrer.
Eu dizia que o ideal era escolher uma pessoa que fosse extremamente profissional, e que em minha escolha a aparência não iria interferir.
Mas eles diziam: Pô, Vilser! Pelo menos um! Escolhe um do tipo galã, só para a gente poder olhar para um cara bonito todo dia.
Como o Thomaz disse que a loja contrataria uns três funcionários, eu achei que se disfarçasse, eu poderia fazer isto com pelo um funcionário.
Afinal de contas meus olhos também pediam um colírio novo para relaxar um pouco.
Após várias entrevistas, escolhi um rapaz chamado André. Como se escolhesse o príncipe dos meus sonhos, optei por um simpático loiro, maior do que eu, com belos olhos verdes e um rosto de anjo. Não era musculoso, mas um magro com ossos bem largos e fortes. A Alessandra aprovou. O Adriano, que esperava um negrão como aqueles de filme policial americano, reclamou!
Quando eu comecei a selecionar uma segunda pessoa, que agora eu avaliaria mais pelo profissional e menos pela aparência (ou seja, segundo o critério de beleza da Alessandra), o Thomaz pediu para que eu suspendesse as entrevistas, pois ele já havia escolhido quem seria o outro funcionário. E devido ao movimento da loja, que na época havia diminuído um pouco, por enquanto, contrataríamos apenas estes dois.
No dia em que os dois começaram, eu descobri quem era o outro rapaz: Robson, um rapaz que veio de Londrina, Paraná. E também descobri que era sobrinho do Thomaz. Nepotismo pouco é bobagem. Mas até que não era de todo mal... Embora Robson fosse baixinho tinha 1,65 de altura, tinha o corpo bem troncudinho, malhado pela vida de fazenda. E também tinha belíssimas feições italianas: pele clara, olhos azuis, cabelos bem pretos e lisos. Mas não era nenhum caipirão deslumbrado, era o único de nós com faculdade.
Era necessário que duas pessoas experientes treinassem os dois rapazes. Claro, fiz questão de ficar com o André, que afinal de contas, escolhi sob meus critérios. A Alessandra disse que tinha o direito de ficar com ele, já que eu não pude escolher um outro para ela. O que ambos concordávamos é que não estávamos afim de pajear sobrinho de ninguém...
Notei que não estávamos sós neste sentimento. Todos na loja olhavam torto pro Robson, afinal de contas, ele não havia entrado por mérito próprio, mas por ser parente do chefe. Acabei ficando com pena dele, e disse para a Alessandra que o ensinaria...
Capítulo II
Apresentamos o plano de treinamento ao Thomaz. Seríamos quatro na produção dos lanches: Eu, a Adriana, o André e o Robson.
A Alessandra, com um sorriso bobo na cara, ficava treinando o André e invariavelmente soltava uma indireta no ar para provocar-me.
E eu, ensinando o Robson, sobrinho do Thomaz, gerente geral da loja...
Os demais funcionários continuavam a olhar para o Robson com desdém, detratavam-no até...
E como eu era obrigado a conviver mais com o rapaz, com o tempo ele foi se apegando mais a mim.
Adorava contar piadas sem graça do tipo: Sabe qual é maior estrutura musical do mundo? É a bunda. Pois tem uma banda de cada lado e um cu juntinho(conjuntinho) no meio.
E eu ria, né... Fazer o quê?
Quinze dias depois, eu descobri que passara no vestibular do Cursinho da Poli (curso para entrar na USP), e comecei a chegar mais tarde no serviço. Meu horário era as 17:00, e passei a entrar às 19:00. O Robson e o André já estavam até mais bem treinados... e começariam a andar com as próprias pernas, sem ninguém para pajeá-los.
Depois de alguns dias, a Alessandra contou-me que o Robson só abria a boca para falar algo quando eu chegava. Ele ficava olhando no relógio o tempo todo, quando muito abria a boca para perguntar a Alessandra, se onde eu estudava era muito longe.
Eu ria da Alessandra! Eu imaginava que ela queria me empurrar o Robson de qualquer jeito... Como um prêmio de consolação. Parecia que era possível escolhermos entre o André e o Robson, como se eles fossem brinquedos. Os dois eram bonitos, cada um a seu modo, mas nenhum deles ia namorar conosco só porque os achávamos bonitos.
O Adriano - meu amigo loiro, másculo e gay, por quem eu nutria uma certa esperança, mas que só gostava de negros - resolveu entrar no jogo.
Dois meses após Robson e André entrarem na loja, eu saí de férias.
Quando voltei, o Adriano, contrariando a atitude do resto do pessoal, estava amicíssimo do Robson.
Iam jantar juntos, iam embora juntos, trocavam altas conversas, aos poucos o Robson afastava-se de mim...
Foi quando escutei o Adriano comentar com a Alessandra:
-Eu ainda transo com o Robson. Mas nem que seja a última coisa que eu faça neste mundo.
Eu tinha que intervir, não sei se era ciúmes do Robson ou se era do Alessandro:
-Ué Adriano... Não era você que só gostava de negão?
-Ah, Vilser... Deixa de ser besta!!! Eu gosto mais de negão... Mas o Robson parece um jogador de futebol... Olha o corpo dele... As pernas grossas, o tórax, cara de macho, olha o sorriso dele... E também são bestas estas meninas da loja, que ao invés de repararem em como ele é gostoso, só pensam em prejudicá-lo, porque ele é parente do Thomaz, todos caem de amores pelo André... este magrelão. Ele tem até o rosto bonito, mas é um bobão!!! Desfila todo metido na loja, para que todos olhem para ele!!!
Eu incluí:
-Você está com inveja, porque o André tirou o seu posto de cara mais bonito da loja... E como descobriram que você é gay, as meninas voltaram toda a atenção para ele...
-Pois acredite no que você quiser, eu vou dar em cima do Robson, e se ele for gay, eu quero ser o primeiro a saber...
Aquilo rodopiou a minha mente.
Um sentimento que eu nunca imaginei que pudesse sentir tomou conta de mim... Eu não podia deixar o Robson ficar com o Adriano. Não só por que o Adriano nunca quis saber de mim...
Eu era o único amigo que o Robson tinha antes de sair de férias. O único em que ele confiava.
Toda vez que ele me via, respirava fundo e sorria.
Aquilo precisava continuar a ser daquele jeito...
Depois de tanto fazer pouco caso dele, eu estava apaixonado pelo Robson.
Eu precisava destruir a amizade entre ele e o Adriano...
Capítulo III
Eu queria jogar o Robson contra o Adriano...
Em que espécie de arapuca eu pensava em meter?
E SE o Robson preferisse o Adriano, já que ele era mais bonito que eu mesmo?
E SE eu ganhasse a disputa, que chances eu teria se o Thomaz gerente da loja, descobrisse que seu sobrinho era o alvo de uma disputa não declarada?
Mas o pior, é que, por mais incrível que parecesse, eu nunca pensei pelo lado mais coerente... Quem colocou na minha cabeça que o Robson gostava de homens ?
E neste caso, o que eu ganharia em destruir a amizade entre ele e o Adriano ?
Honestamente, coerência era uma palavra que desaparecera do meu vocabulário.
Eu havia virado vilão de novela...
Se bem que não foi necessário um grande esforço para tirar o Adriano do páreo... ele vivia falando para os outros gays da loja e para as lésbicas que o Robson dava brecha, que faltava pouco para o rapaz abrir o jogo, e etc.
Claro que havia um algo a mais que me fez achar no direito de prejudicar o Adriano... ele namorava um tal de Sérgio, fazia uns três anos... Embora ele sempre dissesse que este namoro não era nada muito sério...
Mas não foi necessário envolver o Sérgio, eu só precisei avisar ao Robson que alguém estava tirando uma com a cara dele. Infelizmente eu tive que aumentar um pouco o que o Adriano falava, o que era meio injusto... Mas... No amor e na guerra...
Marquei uma hora com o Robson dentro do banheiro. Pedi para que ele se escondesse atrás da porta do banheiro, e ouvisse uma conversa... Era difícil perceber sua presença no banheiro. Além disso o Adriano não era mesmo muito esperto... bonito demais... inteligência de menos...
Quando o Adriano chegou para trocar-se, toquei no assunto...
Perguntei se estava dando certo o jogo da conquista de Robson... Adriano nem observou a sua volta, foi logo escancarando: O cara se faz de difícil, mas vale o investimento, ainda vou passar a mão naquelas pernas dele... e aí vou ver se ele se entrega...
Dei algumas risadas, incentivei o Adriano a continuar na luta, e esperei-o sair.
Mas, por outro lado, ao mesmo tempo, eu estava aflito! E se o Robson na verdade estivesse gostando daquela história? E se ele estivesse a fim do Adriano?
Minhas dúvidas dissiparam-se quando ele saiu detrás da porta, esbravejando:
- Caralho! Se eu soubesse! Pô, eu acho que todo mundo tem o direito de ser gay, acho normal, natural... Mas ficar falando pelas minhas costas é muita sacanagem...
Acalmei-o, disse que as coisas eram assim mesmo, e que eu só havia feito aquilo porque eu não achava certo alguém ficar falando dele pelas costas. Mas que ele relevasse isto e tentasse ser amigo de Adriano, era só não dar muita intimidade.
Eu era mesmo um vilão de novela, quase uma Odete Roitmann.
Para não dar na cara, o Robson não deixou de falar com o Adriano. Embora o deixasse perceber que não estava mais tão empolgado com a nova amizade. O Adriano nunca desconfiou que fosse vítima de um plano. Aceitou que o Robson era heterossexual, e simplesmente, desistiu de agir.
Meu plano deu certo... O Robson enxergava-me como seu defensor, posição que fiz questão de defender: Como eu era supervisor da produção de lanches, eu impunha certo respeito, e ninguém mais pôde ficar com piadinhas para cima dele pelo fato de que ele era sobrinho do gerente principal. Eu argumentava que tais atitudes não eram produtivas. O Robson e principalmente o Thomaz, claro, adoravam meu discurso.
O resultado foi até melhor do que eu esperava: Robson passou a fazer tudo comigo, jantava, contava piadas, saíamos no mesmo horário, e como ele passou a morar sozinho aqui em São Paulo, às vezes íamos comprar alguma coisa juntos para sua casa.
Um dia, aconteceu algo estranho...
Eu fui ensiná-lo a preparar uns lanches que ele ainda não conhecia, e mostrei detalhe por detalhe como pegar nos ingredientes. Devido a uma distração dele, um ingrediente ficou prestes a cair no chão. Rápido, agarrei o ingrediente no ar. Ele havia feito o mesmo movimento. Trombamos um no outro. Caímos. Agarramo-nos um ao outro para levantar.
Eu ria do nosso mal-jeito...
Mas amei ter sido tocado por ele com aquela intensidade.
Suas mãos tinham um toque delicioso. Eu estava fascinado, mas contive-me, pois não queria dar bandeira de que ele mexia comigo... Principalmente depois do que eu havia feito com o Adriano.
Percebi que, sem mais nem menos, Robson começou a tremer...
Eu falei, em tom de brincadeira: - Calma, rapaz. Isto nem ia fazer falta, não deve valer nem 10 centavos.
No que ele respondeu: - Desculpe. Não sei o que foi. Não sei se fiquei nervoso por causa disto... Sei lá o que foi... Acho que eu tenho mal de Parkinson, deve ter surgido agora...
Rimos... Uma esperança de que ele podia ficar excitado ao meu lado apareceu... Quem sabe um dia...
Mas o problema dos sonhos, é que uma hora a gente acorda. O Robson deixava aos poucos de ser tão odiado na loja. Fez amizade com os poucos homens heterossexuais que ainda havia na loja. Estes não tinham certeza sobre mim, mas já haviam escutado certos rumores... Minha sorte, é que todo mundo gostava muito de mim, e eu não estava dando brecha, então ninguém questionou sobre nossa amizade... Ao menos até então.
Alguns meses depois, nossa loja ultrapassou as melhores metas de promoções do ano, fomos premiados com um churrasco em uma chácara na Via Anhangüera...
Eu, por mais que tentasse convencer-me de que avançava para o alto-mar dentro de uma canoa furada, não queria perder uma oportunidade de passar o dia inteiro olhando para aqueles olhos da cor do céu.
Insisti para que o Robson fosse ao churrasco, mesmo ele insistindo que não queria fazer parte.
Havia uma esperança de que se bebêssemos muito, quem sabe eu conseguisse forçar um pouco a barra. Seja lá o que acontecesse depois.
Ele, como era tímido, resistia, disse que não gostava deste negócio de churrasco, de bagunça. Mas acabei convencendo-o. Seria melhor se eu não tivesse insistido...
Capítulo IV
Sexta-feira de manhã, o Sol estava radiante. Quase tanto quanto eu. Eu estava feliz por ter convencido o Robson a ir ao churrasco.
Foram todos, inclusive os gerentes: Sr. Thomaz, a Cláudia, a Letícia...
Letícia, aliás, resolveu levar uma prima para a festa, a Iara... Uma ninfeta exibida de 19 anos, tudo aquilo que pode endoidar um homem. Principalmente aquele de quem eu gostava.
Meus amigos também foram, inclusive Alessandra e Adriano, este, aliás, também resolveu levar alguns amigos: dúzias de cerveja na sua mochila, já chegou na festa calibrado. O André, o bonitão que contratei, também foi.
Logo na partida, uma coisa já me deixou incomodado, mesmo que não houvesse grandes razões para isto: Eu fui em um carro (da gerente Cláudia), e o Robson em outro (do gerente Thomaz, claro!!!). A viagem levou cerca de meia hora. Mas achei que poderia compensar minha distância do Robson na festa.
No churrasco, todos estavam muito animados. Mal chegamos, e já se jogaram todos na piscina.
Todos menos Letícia, a trainee. Ela tinha pavor de água.
Ignorando tamanho temor da Letícia, talvez achando que ela estava brincando, o Adriano, que não sabia mais diferenciar alho de bugalho, pegou-a no colo, e indiferente a seus gritos, arremessou a moça na piscina... Na parte mais funda.
Muitos tentaram resgatá-la. Aos berros, desesperada, Letícia esbofeteava todos que tentavam ajudá-la. Um mal estar tomou conta da festa. O próprio Adriano tentou tirá-la. Mas se ela ia pra esquerda, ele procurava ela na direita. Mal ele sabia onde estava, quanto mais ajudar alguém.
Pobre moça.
Eu também tentei ajuda-la, em vão. O desespero dela ela imenso. O nosso também.
Apenas uma pessoa conseguiu ser rápida, forte e inteligente o bastante para pegá-la de jeito e puxá-la pelo pescoço: o Robson.
Ele tirou suas roupas, e como se estivesse apenas a passeio, retirou-a como se tira um pedaço de papel.
Letícia estava bem. Ela estava bem acordada, apenas assustada, tudo se resumia agora a um susto.
Passado o mal estar geral, renovados os espíritos, a festa voltava ao normal. O Adriano caiu no chão de bêbado, e não importunou mais ninguém.
O Robson virara um Semi-Deus... Todas as meninas - e muitos homens - estavam encantadas com sua força, astúcia e masculinidade.
Naquele momento, eu vi seu corpo pela primeira vez com muitos mais detalhes... Branco bronzeado, peludo, corpo definido, pés e mãos perfeitas, rosto de galã da máfia italiana (tipo Andy garcia), olhos da cor do céu e um corpo escultural (uma batata da perna do tamanho de um melão).
Meu objeto de desejo agora era o centro das atenções. Principalmente da tal Iara, prima da Letícia...
Capítulo V
Iara, moça bonita, no auge dos seus 19 anos, biquíni minúsculo, resolveu partir para o ataque.
Olhava e insinuava-se para Robson, insistentemente.
Robson, impecavelmente belo, mas extremamente tímido, desviava-se destes olhares, e fingia que não era com ele.
Infelizmente os demais homens da loja foram uma tropa crucial a favor do inimigo...
Bêbados, chatos e incapazes de conquistar sequer uma baranga, viram que a Iara estava dando um mole danado para o Robson. Como ele ficava no canto dele, insistiram que ele tinha que catar a mina...
Para tentar fugir do assunto sem maiores comentários, o Robson propôs uma partida de futebol.
Como na grande maioria das vezes, gays e mulheres não quiseram participar, exceto por mim e pelas lésbicas...
Formaram-se dois times pequenos de sete jogadores. Claro que algumas posições iam ficar desfalcadas, mas daria para brincar...
O Robson ficou no time adversário ao meu. Se bem que eu não achava ruim, quem sabe a gente não disputava uma bolinha entre nós, e ralava um no outro.
E para ajudar, naquela tarde onde eu tive que aprender que meu herói era herói de todo mundo, descobri que Robson, além de exímio nadador era o melhor jogador de futebol de todos ali presentes.
Até eu começava a irritar-me. Será que tudo que esta praga faz é melhor?
Seu time ganhava de dois a zero do nosso, graças a ele.
E o que eu queria que acontecesse, disputar uma bola com ele, de certa forma acabou acontecendo...
Começamos a disputar pela bola.
Ele, experiente, queria me fazer de bobo. Mas, mesmo não sendo Pelé, sei meus truques.
Mas o tiro saiu pela culatra...
Num certo lance, eu errei a bola, e acertei em cheio sua canela, levando-o ao chão.
Estendi a mão para ajudá-lo. Mas talvez por causa da dor, ou por causa da ambição em ganhar o jogo, ele afastou minha mão, empurrando-a.
A Iara aproximou-se alegando que estudava enfermagem, e talvez pudesse ajudar...
Porque a vaca não estudou balé, canto ou suicídio como qualquer piranha normal de sua idade deveria fazer??? - eu pensei...
Afastei-me do bolo de gente que estava formando-se. Eu era o vilão mais uma vez. E desta vez não era minha intenção.
Longe do campo onde o jogo rolava, pude apenas ficar observando...
A canela de Robson aos poucos melhorava, dava-se para perceber pelo rosto dele.
E a vaca em miniatura Iara era mais baixinha do que o Robson ao seu lado estava ali, massageando aquelas pernas que eu tanto queria tocar.
Aqueles rapazes que instigavam o Robson a ficar com a Iara, secavam os dois com os olhos, fazendo piadas entre eles, dizendo: deixa de ser idiota rapaz.
Após alguns afagos e olhares insistentes de Iara, o pior aconteceu...
Eles começaram a se beijar.
Uma dor imensa, uma pane no meu corpo, um ódio infinito cegou meus olhos.
Eu não podia intervir.
Cego, levantei-me da borda do campo e segui para longe, entrei em um banheiro bem afastado do resto da chácara.
Desencadeei a chorar. Comecei a espancar as paredes com minhas mãos. Queria destruir tudo. Mas, contive-me...
Com as pernas fracas, deixei-me cair no chão e apenas chorei. Minhas esperanças de ter o Robson abandonavam meu pensamento, meu corpo. Seguiam rumo ao nada, acompanhando as lágrimas que deixavam meus olhos.
Queria gritar, mas eu não queria que ninguém soubesse. E nem tinha forças para isso.
No auge de minha fúria, só tive forças para gemer baixinho.
Muito tempo depois, fui interrompido por passos que se aproximavam.
Esfreguei a mão no rosto e procurei um lugar para esconder-me.
Era um banheiro onde não havia portas, apenas divisórias, devia ser muito pouco usado, ou até estar abandonado. Eu estava tão cego que escolhi um péssimo esconderijo.
- Vilser? a voz me chamava. Era o Robson.
Fiquei petrificado de medo.
Tentei esconder meu rosto, para não deixar à mostra o rosto molhado pelas lágrimas.
Mas ele viu, puxou minhas mãos que cobriam o rosto, assustado, perguntou:
- Cara, o que aconteceu? Você tá legal?
- Eu estava brincando de esconde-esconde - respondi, é que eu estava batendo a cara na parede (é o que a gente fala quando conta os segundos para procurar alguém). Não sabia que ia doer tento...
Ele riu. Não sei por que, mas não me acreditou...
Ele insistiu em saber o que acontecia comigo, se podia ajudar-me.
Sua insistência, dilacerava mais ainda o coração de alguém que já não tinha mais chão para pisar... Contar logo toda a verdade que diferença faria?
- Quer saber, cara? Você quer saber mesmo, véio? Eu tô assim porque eu te vi atracado com aquela piranha... Era isto que você queria escutar?
Capítulo VI
O Robson arregalou os olhos...
Sentou-se bruscamente numa espécie de banco de concreto, destes que costuma haver em banheiros do tipo vestiário... Ficou olhando pro teto por alguns segundos, e depois falou:
- Se você queria ficar com ela, você podia ter me perguntado... e forçou uma risada.
Eu continuei, bem mais sério:
- Cara, eu não curto mulheres... Fui claro agora, ou quer que eu desenhe?
- Eu já entendi... Estava zoando... Deu uma pausa.
Depois continuou, sempre olhando para o teto: - Eu não sabia... Quer dizer... Até ouvi uns comentários sobre você... Mas eu achava que era zoeira, o pessoal chama todo mundo de viado mesmo... E mesmo neste caso, eu nunca imaginei que você pudesse estar a fim de mim, até por causa daquela história do Adriano...
- Pois é... fiquei olhando para baixo... - Então é isso cara... Eu sei que você não tem nada a ver com isto que eu sinto... Mas sei lá, não deu para segurar a barra de te ver com aquela mina... Eu corri pra cá...
Olhei para o relógio, e de cabeça baixa, tentei fugir do assunto, com vergonha do que estava sentindo:
-Por falar nisto, vou voltar lá para a festa... Se você viu que eu sumi, logo, logo, vem mais alguém... E se pegam nós dois conversando aqui, vestidos só de sunga... Podem comentar sobre você também...
-Eu não ligo pro que os outros pensam... - disse ele, sério e virando aqueles malditos e lindos - olhos azuis para mim.
-Beleza... eu falei, de cabeça baixa: - Mas eu tô com fome, não comi nada desde a hora que cheguei, e eles devem estar fazendo algo para comer...
Respirei fundo e complementei: - E se você não quiser mais falar comigo beleza... Eu entendo...
Virei as costas para ele, e me dirigi para a porta do banheiro. Robson levantou-se. Deu umas duas voltas em torno de si mesmo, suspirou alto, um tanto impaciente, pensativo. Eu parei de andar. Imaginei que ele queria dizer algo.
-Vilser... Desculpe-me se eu não sou gay...
Achei uma atitude estranha, e ainda de cabeça baixa, de costas pra ele, falei:
- Desculpar? A culpa não é sua... Nem minha...
Ele pegou em meus ombros, me virou de frente para ele e falou num tom estranho, que tentava mostrar tranqüilidade, mas que transmitia uma certa impaciência:
- Olha nos meus olhos quando eu estiver falando com você, caramba!!!
Notei que os olhos dele estavam um tanto úmidos.
Eu não sabia se era compaixão, ou raiva.
- Vilser, eu não sou gay, mas eu gosto muito de você, você é o melhor amigo que eu já tive... Eu não gostaria de perder sua amizade, por nada neste mundo...
Eu sei que querer sua amizade é até egoísmo meu, eu sei que não é fácil...
Mas amanhã ou depois você nem está mais apaixonado por mim... E nossa amizade, que é tão legal, não existirá mais...
Eu poderia esperar qualquer reação de um cara heterossexual, menos esta. Portanto falei:
- Robson... Obrigado pela consideração... Mas eu não ia suportar ver você namorando, beijando suas minas, casando, tendo filhos... Ia me doer demais, cara!
- Vilser, eu não sei se resolve... Mas e se eu te prometesse que eu nunca ia beijar nem mexer com uma mulher na sua frente... Será que mesmo não sendo mais fácil, não é pelo menos um sacrifício que cada um de nós podia fazer para continuar perto um do outro?
Ouvindo-o falar aquilo, com aqueles olhos azuis rasos dágua...
Não tive como recusar sua amizade... Nunca um amigo, nem mesmo um amigo gay, havia me dito que abriria mão de algo, por menor que fosse, só para continuarmos amigos...
Ficar ao lado dele, ser somente um amigo talvez já fosse algo... Imagino como deveria ser difícil para um homem heterossexual falar tudo aquilo... Esperava que ele fizesse tudo, até me bater... Não aquilo! O cara parecia ser mais perfeito do que eu pensava.
Eu gostaria de dizer que, mesmo sem um final feliz, a história terminaria aqui.
Que todos meus sonhos haviam se acabado e que o mais fácil era partir para outra...
Ledo engano, não era o final da minha história com o Robson, mas sim o começo.
E ainda veria muito mais coisas que me fizeram acreditar que a vida é uma ilusão.
Nada do que parece ser a nossos olhos, realmente é.
Capítulo VII
Engraçado como é a vida...
O cara que eu escolhi, o André, o loiro bonitão, com o tempo, demonstrou ser um verdadeiro puxa-saco, adorava bajular e adular o Sr. Thomaz, para ver se alcançava um cargo mais elevado. Mais bajulava que trabalhava.
A pessoa que a princípio eu até evitava conversar, por ser sobrinho do gerente, demonstrou ser um funcionário esforçado, uma pessoa dedicada a ser eficiente e ajudar os outros...
Bom nadador, bom jogador, e alguém capaz de fazer tudo por uma amizade... Fora que era extremamente bonito.
E o que tornou o destino ainda mais caprichoso: Eu estava apaixonado por ele, e não pelo loiro sonso que eu havia contratado...
Eu pretendia cumprir o combinado... Esforçar-me para aceitar somente a amizade do Robson, enquanto ele faria o possível para não me magoar, deixando de beijar ou mexer com mulheres perto de mim, tudo para manter nossa amizade.
O problema é que um cara apaixonado não costuma seguir cláusulas do contrato...
Saímos do banheiro... Coloquei um boné para tentar disfarçar o rosto, e voltamos à presença dos demais funcionários e convidados do churrasco. Todos já estavam calibrados o suficiente para nem perceber que eu havia sumido por um bom tempo.
Ao ver o Robson aproximando-se, a Iara veio correndo, como quem estava doente de saudades, doida para beijá-lo novamente.
O Robson fez uma cara de que é isso menina, sai para lá e se esquivou um pouco... Ela estranhou a atitude dele, mas continuou agarrada a seus braços.
E ele, embora de cara amarrada, permitiu que ela continuasse ao seu lado.
Só o fato dele estar junto à ela e não a mim, já me maltratava o suficiente.
Para tentar não pensar, comecei a beber, a beber muito...
Fiquei bebendo de um lado da churrasqueira, e reparava que o Robson, do outro lado das mesas, também bebia...
A Alessandra reparou que havia algo errado comigo, e veio perguntar-me:
-Vilser, está tudo bem, sinto que você está meio triste...
Tentando não contar a verdade, mas já um pouco fora de mim, limitei-me a dizer-lhe baixinho:
-Coisas do coração, aquelas dores que ninguém pode ajudar a curar...
Sem querer, ou sei lá, até mesmo propositadamente pois eu já estava meio alto na bebida, olhei para o Robson... A Alessandra percebeu tudo em fração de segundos.
Percebeu que eu sofria por ver Robson com a Iara...
Alessandra tentou alegrar-me. Para espantar meu baixo astral, tirou uma música sertaneja triste que o Sr. Thomaz havia colocado para tocar, e colocou um CD da Madonna com o qual ela sempre andava ela é doente por Madonna...
Ela subiu em cima da mesa e convidou-me para dançar Open Your Heart.
Bêbado... Sem medo de qualquer tipo de comentário... E sem medo de cair e levar umas quinze fraturas... Subi e cai na dança...
Eu só queria espantar minha depressão...
Agitando e rebolando feito Elvis Presley com convulsão, joguei meu boné longe... E continuava a chacoalhar em cima da mesa...
Todos resolveram rodear a mesa, agitando os braços, enquanto eu e Alessandra dublávamos a Madonna...
A performance dela era íncrivel... Parecia a própria...
Eu, como dançarino e bailarino bêbado, parecia o King Kong com urticária...
Para ajudar, de repente, mais alguém resolveu juntar-se a nós...
O Robson, colocou o boné que eu havia atirado longe em sua cabeça, subiu em cima da mesa, estendeu os braços, pegou em minhas mãos, e começamos a dançar como Olívia Newton-John e John Travolta em Grease...
Com direito a segurar-me em seus braços e tudo o mais.
Todos riam a beça... Pois não éramos necessariamente tão harmoniosos.
A Iara ficou furiosa.
Capítulo VIII
A Iara estava brava, mas não era exatamente comigo (como eu estava com ela...).
Estava irritada com o Robson, porque ele não estava mais o mesmo grude com ela que antes, e dava a impressão que ele preferia dançar até com outro homem do que estar com ela.
Isto a deixou muito incomodada.
Aproximou-se da mesa, cruzou os braços e nos olhava com cara feia.
Como ele continuou a dançar... Ela disfarçou a irritação e o chamou.
Ele a ouviu, virou-se para trás, e foi falar com ela.
Não desceu de cima da mesa onde eu continuava a dançar com a Alessandra.
Estávamos sobre aquelas mesas bem grandes, como as que existem em refeitório de escolas.
Robson agachou-se para falar com a Iara, meio cambaleante.
Ela disse que ia até o carro procurar não sei o quê desculpa esfarrapada, claro. E pediu docemente para que ele a acompanhasse.
Ele sentou-se na mesa, acho que para recuperar o fôlego antes de levantar.
Eu, bêbado e magoado, só de pensar em vê-lo sair de perto de mim, aproximei-me e puxei, intencionalmente e com força, o meu boné que estava em sua cabeça.
Robson caiu da mesa.
Graças a Deus, ele não se machucou.
Ele não foi atrás da Iara, mas ficou bronqueado, e também não voltou a falar comigo...
Ficou de cabeça baixa até o final da festa. No máximo, levantava a cabeça e olhava para mim com uma cara de chateação.
Fomos embora, cada um no carro em que veio.
Robson no carro do Sr. Thomaz; Iara, no carro da Letícia, graças a Deus; eu, Alessandra e o André, no carro da Cláudia.
Dentro do carro, de cabeça baixa, fui embora cantarolando Open Your Heart da Madonna, baixinho, choramingando, recordando minha dança com Robson:
I think youre afraid to look in my eyes,
Sinto que você tem medo de olhar em meus olhos,
You look a litlle sad boy I wonder why...
Vejo que você é um rapaz triste, eu queria saber por quê...
If you give me a half a chance youd see
Se você desse-me ao menos uma chance, veria
My desire burning inside of me...
Meu desejo queimando-me por dentro
But you choose look the other way...
Mas você escolheu olhar para o outro lado...
...
Uma semana depois, graças ao meu esforço no trabalho, recebi uma promoção.
Eu inaugurava o departamento de Delivery, o sistema de entrega a domicílio da loja, e eu seria o responsável.
Graças ao excesso de trabalho, naquela semana, eu e o Robson nos falamos muito pouco. Ajudou o fato de que eu tinha certo receio de falar com ele, depois do que aconteceu no churrasco.
Na sexta-feira, mudei oficialmente de setor, e deveria levar comigo dois funcionários.
A Alessandra não podia sair de seu setor, era a mais experiente na produção.
Perguntei ao Adriano se ele queria ir, ele topou.
Por ter visto meu convite ao Adriano, Robson aguardou o primeiro momento em que eu estive sozinho para perguntar:
-E aí, vai querer se ver livre de mim?
Olhei para ele com um acara de espantado e falei:
-E você? Tem certeza de que não é o melhor para nós? Separados não fica melhor para todos? Ainda mais depois do que eu aprontei com você com aquela história do boné...
-Fiquei meio chateado na hora, mas passou. Ele respondeu.- Se você ficar isolado lá no Delivery, aí que a gente não vai mais poder se falar direito...e onde fica nosso trato de amizade?
Eu olhei com um sorriso que não conseguia esconder e falei:
-Tudo bem, eu sei que você quer é ser promovido às minhas custas. Mas, beleza, você vai comigo para o Delivery...
No dia da inauguração do Delivery, tudo corria bem, até por quê eu estava feliz pela escolha de Robson de continuar ao meu lado.
Nosso novo setor ficava ao lado da entrada da loja.
Animado com o novo serviço, eu explicava e ensinava o serviço ao Robson e ao Adriano.
De repente, alguém que eu não queria ver nunca mais, entra pela porta.
Era a Iara.
Eu enlouqueci de ódio.
Capítulo IX
Na hora em que eu vi a Iara entrando, concluí que ela estivesse atrás do Robson.
A minha raiva em vê-la novamente atrás dele era grande, mas eu estava de mãos atadas.
Eu tinha no coração a esperança de que o Robson podia vir a gostar de mim... Mas era só um sonho...
De que me ia adiantaria gritar, esbravejar ou querer matá-la?
Se o Robson gosta de mulheres, de nada adiantaria matar a Iara, se ainda existem pelo menos umas 3 bilhões de mulheres no mundo... Eu precisaria matar muita gente...
A única atitude que eu achei menos incoerente, até pela minha posição, foi sair daquele local, para não ver cena nenhuma. E também para não fazer cena nenhuma!
No momento em que a Iara entrava na recepção, o Robson estava perguntando-me alguma coisa, que eu nem lembro o que era.
Assim que ela entrou, eu virei as costas para o Robson. Sem dar satisfações, atônito, saí da área do Delivery sem responder sua pergunta e dirigi-me ao vestiário.
Ele olhou para o lado, viu que a Iara estava entrando, e deixou-a a olhar navios. Veio atrás de mim.
Eu, como um avestruz, entrei dentro do vestiário, abri a porta do meu armário e enfiei a cabeça lá dentro, como se estivesse procurando algo... Acho que uma faca para me matar, talvez...
O Robson veio, parou atrás de mim e perguntou-me:
-E agora, o que é que foi, ô estrela de cinema?Perdeu o creme para mãos?
-Ô Robson, querer que eu fique por lá já é demais, né não?
-Você está falando da Iara?
-Não, avestruz. Por causa do cruzamento de Poltergeist com assombração... Parei para pensar... É verdade, acho que vocês chamam o cão de Iara!
Ele riu. E continuou falando:
-Eu não tenho nada com a Iara... A gente só ficou naquele dia. Ela deve ter vindo pegar a Letícia, que está saindo do serviço neste horário...
Meu coração bateu aliviado...
Um sentimento de alegria quase inenarrável tomou conta de mim. Além da vergonha, é claro...
Voltamos para o delivery como se nada tivesse acontecido.
Assim que voltei, percebi que a Iara me olhava com uma cara muito feia... E quando o Robson virou as costas eu mostrei a língua para ela.
Nunca mais vi a Iara depois daquele dia.
Mas aquela minha reação iria causar uma tempestade jamais vista na minha vida.
Afinal de contas, Iara era prima da Letícia, umas das gerentes da loja.
Provavelmente ela contaria à prima o ocorrido.
E a Letícia provavelmente contaria ao Thomaz, gerente principal da loja, quais eram minhas verdadeiras intenções com Robson, seu sobrinho.
Capítulo X
Eu imaginava o que aconteceria se a história chegasse ao ouvido do Thomaz...
Mas o que realmente eu poderia fazer para mudar algo?
Atacar o Robson?
O Robson já sabia que eu era apaixonado por ele... Forçar uma situação seria agressivo... Ele iria ficar puto se não me quisesse tanto quanto eu o queria...
Ele deixara bem claro que queria que houvesse um esforço de ambos para que nossa amizade ficasse acima de qualquer coisa...
Se eu o agarrasse a força, estaria violando este trato... E acho que forçar a barra sem que o outro queira, não é mais amor... é estupro. Eu precisava de uma luz...
Naquele mesmo dia da visita da Iara à loja, naquela mesma sexta-feira, a minha amiga Alessandra, vendo que eu estava com a cabeça a mil, convidou-me para tomar umas cervejas:
- Vilser, eu acho que você tem que relaxar um pouquinho, quem sabe se a gente sair, beber um pouco, dançar, pular, desabafar, pelo menos você já dá uma relaxada...
- Alê, eu não sei se tomar um porre resolve o problema de alguém... Não estou a fim de virar alcoólatra por causa de ninguém... Não nasci pra ser bêbado e ficar chorando dor de corno...
-Deixa de ser besta, Vilser. Um gorózinho não mata ninguém não... Vamos lá, só hoje...
Não éramos os únicos com planos de sair naquela noite.
Os rapazes da bagunça... Aqueles que se dizem heteros, também estavam planejando balada para aquele dia.
Estavam a fim de catar umas minas, beber até cair, fazer rachas e outras coisas que eles consideram normais depois dizem que os gays é que têm problemas...
Convidaram o Robson para ir com eles...
Os gays e as lésbicas também resolveram que iriam sair juntos naquela noite...
O Adriano veio nos convidar eu e a Alessandra para nos unirmos a este segundo grupo.
Como eu estava afim de desabafar um pouco com a Alessandra, que até então sabia muito pouco da história, eu disse ao Adriano que já tínhamos combinado ir para outro lugar... um pouco mais sossegado que boates, eu disse que íamos a um barzinho...
Contrariando meu plano de ir a sós com a Alessandra, o Adriano automaticamente convidou-se para vir conosco... E não foi mais com os demais. Não tive argumento para recusar sua companhia.
Eu, a Alessandra, o Adriano e o André (o loiro bonitão que eu havia contratado), encerraríamos nosso expediente as 22:00, os demais funcionários, somente no fechamento da loja, à 01:00 da manhã.
Às 21:30, o Robson veio falar comigo, sorridente e com aqueles olhos azuis que eram meu caminho para o inferno:
-E aí, Vilser? Os caras me chamaram para sair hoje, quer ir com a gente?
Com este pedido, confesso que fiquei tentado a mudar de rumo, mas já sabia que seria um tiro na água...
Já me bastava o que aconteceu na chácara. Se os caras provocassem o Robson novamente para ficar com uma garota, no mínimo eu quebraria a cadeira na cabeça de alguém. Era difícil, mas necessário que eu recusasse:
-Não vai dar Robson, eu já tinha marcado sair com a Alessandra...
-E onde vocês vão? - Perguntou-me Robson, com ar de quem duvidava que eu estava falando a verdade...
-Acho que num bar... Respondi. - Talvez num karaokê, talvez beber um pouco, cantar mal...
Ele riu. Deu uns dez segundos de pausa, olhando-me pensativo... segurou no meu braço e perguntou:
-Ah cara, o Felipe falou que o lugar que eles vão é legal pra caramba. Por que a gente não vai com eles?
-Robson. - Interrompi com um ar sério. - Se você quer ir com eles, beleza... Eu não vou furar com a Alessandra agora...
Robson pensou mais um pouco, e disse:
-Isso quer dizer que eu posso ir com vocês?
-Pode, se é o que você quer...- Respondi, surpreso pela escolha dele.
Robson saiu correndo, conversou com o André, pedindo-lhe para que trocasse de horário de saída com ele.
André recusou-se.
Robson irritou-se com ele, e veio falar comigo, dizendo que teria que cancelar nossa primeira balada juntos, por causa do André.
Esta seria a primeira de uma série de desavenças que haveria entre eu, Robson e André... Mas esta foi fácil de resolver.
Fui conversar com o Thomaz, e pedi para que ele liberasse o Robson mais cedo.
Ele hesitou um pouco, pois ficariam poucos funcionários na loja para o fechamento.
E apesar de tê-lo contratado, Thomaz nunca concedeu privilégio algum ao seu sobrinho Robson. Mas acabou acatando meu pedido.
No vestiário, o Robson estava radiante, e eu mais radiante ainda.
Apesar do nosso pacto, eu não conseguia deixar de suspirar e ter palpitações ao vê-lo seminu dentro do banheiro, trocando-se comigo.
O Adriano, que infelizmente também estava saindo conosco, também filmava-o bem...
O Robson saiu primeiro do banheiro, disse que ia dar um telefonema.
O Adriano aproximou-se de mim e disse:
-É hoje que eu encho a cara deste bofe e faço ele. Por bem ou por mal. Ainda bem que ele resolveu sair com a gente.
Claro que eu dei-lhe um belo de um sermão, falei para respeitá-lo e etc. Mas, fofoqueiro como Adriano era, se eu falasse algo a ele, era mais certo o Thomaz saber através dele, do que pela Iara e sua prima Letícia.
Entretanto, eu não sabia como descartar o Adriano do nosso passeio, mas sabia que aquele cara bêbado e interessado no Robson iria me causar problemas.
Justo na noite que poderia ter sido só minha...
Capítulo XI
Era sexta-feira de inverno...
A noite estava muito fria, eu vestia uma jaqueta de couro.
Antes de sairmos da loja, já compramos umas latinhas de cerveja e fomos bebendo pelo caminho.
Já na saída, o Adriano tentava puxar assunto com o Robson.
Desde que, graças a mim, o Robson perdeu a confiança no Adriano, eles não eram mais tão íntimos...
As pessoas mais próximas ao Robson eram eu e a Alessandra, então ele conversava mais animadamente conosco, tanto na loja, como naquela noite.
O Adriano tentava falar sobre mulheres, carros, sobre qualquer coisa que desse, mas o Robson lhe respondia com monossílabos: Sim... Não... Talvez... Não sei...
Robson parecia estar mais a fim de tomar a cerveja...
Em um determinado momento, eu comecei a rir. Acho que feliz por ver o Robson dar pouca atenção ao Adriano...
O Adriano perguntava:
-O que foi Vilser, o que está pegando?
Eu olhava para ele e embora me segurasse, ria mais ainda... Acho que ele começou a perceber minha felicidade em vê-lo tentar inutilmente falar com Robson...
Fomos a uma região de São Paulo com vários bares... onde havia alguns com freqüência GLS.
O Robson hesitou um pouco em entrar num lugar destes, mas eu achava que estaria mais seguro: menos mulheres para que ele caísse na tentação de olhar.
Escolhemos um onde havia um karaokê.
Sentamos numa mesa, ele puxou-me pelo ombro, e falou baixinho ao meu ouvido, sem que a Alessandra ou o Adriano pudessem escutar:
-Se alguém se aproximar de mim com segundas intenções, eu estou com você...
Que mais eu podia querer ?
À mesa , o Adriano tentava suas últimas jogadas, mas por um grande golpe de sorte, foi interrompido.
Por mais que a cidade seja grande, o mundo é muito pequeno, e a vontade de Deus é impiedosa:
Os amigos do Sérgio, o namorado do Adriano apareceram por lá.
O Adriano, sem graça, foi até a mesa deles, e lá ficou, conversando... bancando o namorado fiel que saiu apenas para beber com os amigos... Como se alguém realmente acreditasse nisso...
A noite seguiu sem maiores contratempos...
Durante o tempo que estávamos lá, eu tentava embebedar o Robson, para ver se naquele ambiente ele ficava mais maleável...
Depois de algumas horas, o Robson olhava e conversava apenas comigo. A uma certa altura, ele não tinha mais olhos nem ouvidos nem para a Alessandra. Não olhava para os lados, nem para comentar se as meninas eram bonitas ou não.
De repente, lá pelas 4 da manhã, ele resolve cantar no karaokê.
Como eu quero do Kid Abelha...
Ele levanta, corpo meio mole por causa da bebida.
Aquele rapaz de rosto lindo, forte, baixinho, cabelos pretos espetados, olhos azuis, pernas arqueadas... o melhor exemplo do que é um homem.
Sua voz - não muito grave, mas bem máscula - saia de sua boca meio engasgada, meio rouca, tão grogue ele já estava...
Diz pra ficar muda faz cara de mistério,
Ele vira-se, olha para mim e continua:
tira esta jaqueta que eu quero você sério...
Eu, sentindo a maior felicidade do mundo, comecei a rir.
Embora um pequeno fio de preocupação insistisse em me incomodar:
Mesmo se a Iara decidisse não se intrometer na vida do Robson, agora era inútil.
O maior fofoqueiro da loja iria contar tudo a todo mundo... O Adriano fez cara de velório ao ver o Robson cantando para mim...
Capítulo XII
Quando o Robson voltou à mesa, eu esperava um beijo, alguma coisa.
Ele olhava para mim e ria.
Eu, bêbado, aproximei meu rosto do dele, mas ele esquivou-se.
Decepcionado, eu me afastei.
Ele colocou a cadeira do meu lado e falou, rindo de bêbado:
- Beijo não, mas nós podemos ficar abraçados...
Embora meio frustrado, aceitei o que eu podia ter.
Ao amanhecer, fomos embora.
Estávamos somente eu, o Robson e a Alessandra. O Adriano resolveu ir embora com seus amigos.
Eu e o Robson estávamos praticamente travados. Saímos abraçados, eu e o Robson. A Alessandra estava mais incrédula do que eu com o fato...
Que situação ambígua... Não havia como saber se este cara queria algo ou não...
Ele contava umas bobagens sem nexo no meu ouvido, e eu gargalhava... Um pouco de insanidade minha, talvez, pois havia um pouco de mim que queria chorar.
Deixamos a Alessandra no ponto de ônibus que a levaria até em casa.
No caminho do nosso ponto de ônibus, desfizemos o abraço, passaríamos em frente a um corpo de bombeiros.
Um soldado (que não era o José Albucacys - mas dava pro gasto... e como dava!) perguntou a mim, educadamente :
-Por favor, grande. Você tem horas pra me dar?- Desta maneira mesmo...
Eu, longe de mim, irritado por que o Robson recusou o beijo, mandei ver:
-A hora que você quiser, meu amigo!!! É só pedir!!!.Cú de bêbado não tem dono!!!
Eu e o bombeiro caímos na gargalhada... Pedi-lhe desculpas e disse-lhe as horas.
O Robson fechou a cara.
O bombeiro fingiu que não tinha falado nada, e emudeceu-se.
Continuamos nosso caminho... em silêncio. Longe do posto, o Robson começou a gritar comigo:
-Você não passa de uma puta. Parece que não pode ver rola. É assim que você queria um beijo...
Ia me beijar e depois dar pro primeiro que aparecesse!!!
-Se você tivesse me beijado, isso não teria acontecido!!! - Respondi no ato, irritado.
-Você não entende que eu não sou gay? - Continuou a gritar.
Eu fiquei calmo e falei serenamente:
-Então por que você está bravo comigo ?
-Eu não sei... - depois acalmou-se, e disse: - Será que você não entende que é difícil pra mim?
-O que é difícil pra você, Robson ?
- Vilser, eu gosto de você. Muito. Mas não é desse jeito, eu gosto de ficar com você... Estar ao seu lado. Pra tudo. Mas namorar, beijar, transar... Eu não sei se é isto!!!
Ficamos parados, em silêncio... meus olhos encheram-se de lágrimas. Eu não quis mais abrir a boca. Depois de mais alguns minutos, ele falou:
-Me deixa curtir você, ficar ao seu lado... Quem sabe um dia...
Não respondi. Fomos embora em silêncio. Eu peguei meu ônibus, e ele, pegou o dele depois.
...
No outro dia foi nossa folga.
No dia de serviço, cheguei mais cedo à loja. Haveria uma reunião com todos os funcionários da loja.
Eu fiquei sozinho na loja, todos os outros funcionários estavam na reunião, no segundo andar, inclusive a Alessandra e o Adriano.
O Robson chegou à loja, me cumprimentou, entrou e foi à reunião.
O Thomaz pediu para que ele descesse e ficasse comigo, e avisou que a reunião duraria uma meia hora.
Ficamos a sós na loja, eu e o Robson.
Peguei uma vassoura e dirigi-me ao salão principal dos clientes, para limpar o chão.
Ele veio atrás de mim... e me pediu a vassoura, no que respondi:
-Pra que você quer a vassoura?
-Para limpar o chão do Delivery... - ele respondeu.
-Pegue outra...
Ele parou na minha frente, e num movimento brusco, tirou a vassoura de mim, falando:
-Eu quero esta...
Ele saiu correndo... Eu, instintivamente, saí correndo atrás dele, tentando tomar a vassoura de volta.
Robson desviava-se de mim e eu continuava a correr atrás dele.
Num momento, ele se jogou no chão, abraçado à vassoura.
Eu sentei em cima dele, e tentei puxar a vassoura de suas mãos.
Ele me puxou sobre seu corpo, deixou a vassoura cair de lado, eu fiquei trêmulo, eu estava praticamente deitado sobre o corpo dele, sentindo cada parte do seu corpo... Seu calor...
Robson aproximou o seu rosto do meu, inclinou sua cabeça... Algo iria rolar.
O Thomaz apareceu.
O gerente principal acabara de descer as escadas, veio procurar algo para levar à reunião, achou o tudo o que não poderia ser visto... Eu em cima do Robson. Deitados no chão. Abraçados.
Entrei em choque.
Capítulo XIII
O Thomaz viu a cena, o Robson, seu sobrinho, deitado no chão, comigo em cima dele.
Apenas falou, num tom calmo:
- Vilser, por favor, venha até meu escritório...
Subimos as escadas.
Ele abriu a porta da sala de reuniões, entregou uma planilha na mão da Cláudia, a segunda gerente, e pediu que ela continuasse a reunião sozinha por alguns instantes.
Pediu também à Letícia para que descesse ao piso inferior, para tomar conta da loja com o Robson.
Entramos em sua sala.
Eu tentava manter a calma, apesar do nervosismo. Seja lá o que se passava pela cabeça de Thomaz, eu não iria abaixar a cabeça e levar toda a culpa, eu diria tudo o que o Robson fez...
O gerente principal começou a falar:
-Vilser. Eu, a Cláudia e a Letícia estávamos conversando sobre você, e concluímos que você já está bem preparado para assumir uma vaga de gerente em uma loja da rede.
Eu esperava qualquer assunto, menos um assunto profissional.
O Thomaz parecia não ter visto ou fingiu que não viu - a cena que acabara de presenciar na produção de lanches da loja.
Ofereceu-me uma vaga de segundo gerente na Zona Norte.
Segundo gerente... Eu seria mais importante do que a Letícia...
Explicou-me como seria, quais as vantagens e desvantagens da proposta.
No final, quando eu já não esperava mais nenhuma espécie de comentário sobre a cena ocorrida, ele emendou:
- Vilser. Eu gosto muito de você como pessoa e como profissional, por isso eu preciso te avisar:
Um gerente não pode ficar de brincadeira com funcionários. Do mesmo jeito que eu te vi de brincadeira com o Robson, um supervisor poderia tê-lo visto e não reagiria como eu agi, muito menos continuaria investindo em você...
Para que seja um bom gerente, é necessário que você pense como um gerente, e aja como um gerente.
Posso ter certeza de que não vou ver uma cena destas novamente ?
Balancei com a cabeça, sinalizando que sim.
Uma promoção... Eu estava recebendo uma promoção e não uma punição.
Ali naquele momento, descobri que o Sr. Thomaz era um cara muito legal. Ele gostava muito do meu trabalho, e dificilmente me mandaria para a rua caso soubesse que eu queria desviar seu sobrinho...
No máximo, ele faria o que realmente fez, afastar-me de seu parente, mas de modo que meu trabalho fosse reconhecido.
Nem tudo eram flores naquela história de promoção.
Eu era funcionário numa loja na Zona Sul. Com esta transferência, eu iria ficar muito longe de Robson. Como ele era do Sul do Brasil e não saía muito de casa, ele não conhecia São Paulo direito. Dificilmente nos encontraríamos novamente. Eu passaria a trabalhar em torno de 14 horas por dia.
...
Além disso, a bomba Adriano estourou.
Em dois dias, o único comentário que corria na loja era que Robson e eu ficamos juntos naquela madrugada de Sexta para Sábado.
Robson desmentia com ênfase. Vi que ele não estava preparado para encarar o mundo por mim.
Aos poucos, Robson começou a deixar de falar comigo.
O que também era culpa minha.
Por causa da promoção, eu enfiava minha cabeça no trabalho: não queria levantar mais suspeitas, nem sofrer por causa de um amor não correspondido...
Uma semana depois, eu fui transferido da loja da Zona Sul para a loja da Zona Norte.
No dia da despedida, Alessandra chorava muito. Abracei-a fortemente, como aos demais funcionários.
Não falei com o Adriano.
Estendi friamente a mão para o Robson. Vi seus olhos azuis brilharem mais uma vez... talvez aquela fosse a última vez em que eu olharia aqueles laguinhos.
No outro dia, eu comecei a trabalhar na nova loja.
Capítulo XIV
Se tornar um gerente não era a coisa mais fácil do mundo.
Tudo bem que o gerente principal da nova loja era até bonitão... parecia um Luciano Szafir de 1.90...
Seu nome era Maurício.
Mas o que o Maurício tinha de bonitão, tinha de exigente.
Pelo menos o triplo de exigência do que o Thomaz...
Qualquer pequeno erro cometido na loja, era motivo para um sermão de duas horas... A vantagem é que o Maurício era um cara extremamente profissional, assim como o Thomaz. Nada de gritaria pela loja, como a Cláudia e a Letícia faziam. Toda e qualquer bronca era dada somente nos bastidores.
Mas ele nunca teve grandes problemas comigo.
Dedicado no trabalho como eu estava devido ao que aconteceu comigo eu mal falava, só trabalhava.
Como eu seria o segundo gerente, era inevitável que conversássemos muito.
Até que ele resolveu falar sobre assuntos pessoais - família, vizinhança, etc.
De repente, no meio da conversa, ele solta:
-Vilser, escutei um papo por aí de que você é... - deixou no ar, como quem estava com vergonha de falar.
-Sou, sim! Viado, boiola, frutinha, e coisas do gênero... Pois é sou mesmo... - Falei, irritado... - Por quê? Vai me mandar embora por causa disto?
-Claro que não. Só queria puxar assunto. - Deu uma pausa, pensativo...- Quem sou eu para achar ou deixar de achar alguma coisa. Acho que as pessoas têm o direito de fazer o que querem.
A conversa continuou por um bom tempo. Rimos muito de várias coisas.
Falamos sobre tudo, sobre nossos amores do presente e do passado.
Ele era heterossexual. Tinha um caso com uma gerente de outra loja, mas que ninguém poderia saber... Pois ela era casada.
Já que os segredos estavam na mesa, falei sobre o Robson, quem ele era, tudo o que aconteceu...
Ele ria e muito.
Ele havia trabalhado em outra loja perto da onde eu trabalhava, e já havia recebido uma visita do Robson e do Thomaz.
Disse-me que as meninas da loja ficaram apaixonadas pelo Robson.
Os dias passavam-se a passos de lesma naquela nova loja.
Meu coração batia saudoso.
Mas era melhor que fosse daquele jeito.
Duas semanas depois...
O Maurício chega na loja rindo até as orelhas... E começa a falar, ofegante de felicidade:
- Vilser, tenho uma novidade pra te falar, cara!
Eu friamente, respondi:
-Fala, Maurício...
-Você tem visita! Olha na porta! - ele falou.
Era o Robson.
Capítulo XV
O Robson estava na porta da loja...
Meu coração batia tão forte, que acho que dava para escutar mesmo da distância onde ele estava.
E eu que queria fingir calma, indiferença...
Não podia deixar aquele rapaz perceber que eu estava com as pernas tão bambas.
Sair de onde eu estava era tão difícil.
Respirei fundo e resolvi aproximar-me dele...
Por mais que eu quisesse fingir que seu aparecimento ali era a coisa mais natural do mundo... Meu sorriso ia até a orelha. Aliás, até a nuca... Coringa perdia feio...
Ele estava ali, todo mauricinho, gel no cabelo, perfumado, parecia um sonho... Aliás, eu pedi para o Maurício me beliscar. Estava difícil acreditar.
Dirigi-me até a porta, e ele me viu...
Abriu um sorriso imenso, o que fez meu coração ficar mais acelerado do que já estava... A estas alturas, meu coração era um trio elétrico pulando sozinho...
- E aí, beleza? - Ele iniciou a conversa.
O Robson era muito pouco original. Não havia jeito de nos encontrarmos e ele dizer: Oi, tudo bem ?
Era previsível. Sempre o mesmo: E aí, beleza ?
- Beleza... - Criei forças e respondi... e ainda continuei: - Cara como é que você chegou até aqui ?
- Ué. Peguei um ônibus, um metrô e cheguei...
- E como é que você sabia em que loja eu estava ?
- A Alessandra sabia onde você estava. Aí, eu perguntei pra ela... Depois, peguei o telefone naqueles cardápios de delivery e liguei pra cá. Um dos atendentes me falou como chegar aqui...
- Pensei que a gente nunca mais ia se ver... - Falei, abaixando a cabeça, entregando o resto do que ainda restava de dignidade.
- Eu não vim antes porque eu achei que você estava bravo comigo... - ele falou, atencioso como só ele conseguia ser.
Eu olhei para trás, e observei que do balcão, o Maurício podia ver toda a cena. De camarote. Ele sorria e continuava a observar-nos.
O Robson interrompeu meus pensamentos:
- Você já almoçou ? Se desse para você dar uma saidinha agora, a gente almoçava juntos.
- Claro. Eu não almocei ainda... Espera só um momento. Eu vou avisar o Maurício. - falei, ainda trêmulo.
Eu não conseguia disfarçar que estava completamente derretido... Transbordava felicidade.
Falei com o Maurício...
O Maurício zombava de mim, dizia com um certo tom de deboche:
- Cuidado rapaz. Deste jeito você pode quebrar a cara...
Disso eu já sabia... Mas só o que eu queria naquele momento era estar perto do Robson...
Saímos do meu restaurante. Para irmos em outro.
- O que fez você vir ? - Acabei com o clima romântico - pelo menos o que eu imaginava existir naquele momento. A pergunta era inevitável... A resposta também:
- Ué. Eu não posso mais querer falar com você ? Precisa ter motivo ?
- Poder querer falar, pode... É que eu não estava mais afim de criar esperança nenhuma...
Houve uma pausa... E ele falou:
- Eu já te disse que não queria que a nossa amizade acabasse...
O papo da amizade de novo...
Aquilo me fez desanimar... Eu imaginando um encontro com direito a beijo romântico e tudo o mais...
Suspirei fundo e abaixei a cabeça.
Ele viu que eu estava um pouco decepcionado, e continuou a falar:
- Vilser. Será que você não percebe o quanto nossa amizade é importante para mim...
Ele colocou seu dedo indicador em meu queixo, para levantar a minha cabeça.
Em seguida, riu, tentou fingir que era autoritário, uma cena que ele sempre gostava de fazer, e falou:
- Olha nos meus olhos quando eu estou falando com você...
Seu toque era algo divino, quase irreal.
Não havia como não olhar para aqueles olhos, dois incineradores de chama azul...
- Eu não quero te prometer algo que eu não posso cumprir... Mas eu preciso de você... Seja meu melhor amigo... - Mais uma pausa... E continuou :- Eu não cruzaria esta cidade, vindo a um lugar que eu não conheço, se você não significasse nada para mim...
Continuamos, e depois desta cena, ficamos a falar bobagens...
Antes do fim da hora do almoço, ele perguntou se seria possível almoçarmos pelo menos uma vez por semana juntos... Para nos vermos.
Eu disse que tudo bem. Entreguei meus pontos. Eu já não conseguia recusar mais nada.
Mais um pouco e até me jogaria da ponte por ele...
Acordo feito, acordo cumprido.
Uma ou duas vezes por semana, encontrávamo-nos para almoçar juntos.
Eu sofria, porque sempre sonhava com um pouco mais.
Mas era o que eu podia ter.
Mas vejam... O cara que eu achava ser o mais lindo do mundo, dispensava horas da sua vida, atravessava a cidade, só para estar ao meu lado. E quando estávamos juntos, fazia o possível para me ver feliz e sorrindo. Ele não falava de mulheres. Nem olhava para elas.
Já era uma conquista.
Acho que eu podia dizer que a gente namorava, só que não havia um contato físico mais íntimo.
Desde que eu saí da antiga loja, continuei a conversar com a Alessandra.
Não a via pessoalmente, mas nos falávamos muito por telefone.
Era minha espiã naquela loja. Tudo o que o Robson fazia ela me falava.
Como um ser apaixonado procura sofrer...
Eu corria o risco de ouvi-la falar que ele estava namorando ou que saia com os outros rapazes, para continuar posando de macho convencional para eles...
Por sorte, isto não aconteceu.
Num belo dia...
Bem, não tão belo assim...
Um pouco mais de um mês depois que o Robson veio atrás de mim pela primeira vez, a Alessandra chamou-me para ir à praia.
Iríamos em um carro alugado, com mais três pessoas : um motoqueiro chamado Guilherme, o André o loiro bonitão que eu havia contratado, e uma outra menina, a Gisele.
Achei que seria uma boa idéia sair sem ter que pensar em Robson o tempo todo, sem ficar esperando algo a mais toda vez que nos víamos.
Na noite em que havíamos combinado, lá estávamos, todos os cinco, prontos para passar a noite na praia.
Aliás, seis.
A Alessandra convidou o Robson, sem me avisar.
Eu arregalei os olhos ao vê-lo.
Depois ela me disse ao pé do ouvido que havia o convidado primeiro, só por educação...
O Robson disse a ela que só iria se eu fosse junto.
Capítulo XVI
Claro que eu estava contente com a surpresa...
Apesar de tudo, era um momento a mais que eu iria poder ficar ao lado do Robson... Além dos nosso almoços...
Entramos nos carro, um Gol daqueles arredondados...
Seis pessoas num carro compacto.
No banco da frente foi o Guilherme, o motoqueiro e a Gisele (que era mais gordinha...).
No banco de trás, da esquerda para a direita estávamos sentados: Robson, André, Alessandra (que era magrelinha e sempre coube em quaisquer dez centímetros...), e eu.
Já fiquei meio incomodado logo de cara... Pensava por que cargas dágua o Robson não se sentou ao meu lado...
O começo do caminho foi tranqüilo, descemos pela Anchieta...
No trecho da serra, o André que já tinha bebido umas três latas de cerveja, queria que o carro parasse a qualquer custo, estava doido para mijar no mato...
Ele desceu, e a Alessandra me abraçou, falando:
-Que noite linda...
O Robson se aproximou de mim, esperou a Alessandra voltar para o carro, e antes que entrássemos novamente disse baixinho...
- Eu acho que esta noite está com um ar diferente, você não acha?
Eu ri, e falei:
- Só me resta torcer para que esteja mesmo...
Prosseguimos viagem.
Quando já estávamos na pista que dá acesso a Praia Grande, o carro voa sobre uma lombada mal sinalizada, e aterrissa uns metros depois... (tudo bem, é um exagero para animar a história, foram só uns centímetros...)
Nenhum ferido.
Mas foi o suficiente para o carro quebrar.
Ficamos na rodovia mesmo, procurando uma oficina aberta... Nos dividimos em dois grupos: Guilherme, Gisele e André, no primeiro, e Robson, Alessandra e eu, no segundo.
enviada por Vilser
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