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21/08/2005 23:00
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Sites de contos e fotos que eu produzi para dar uma variada neste mundo da internet, que carece de coisas diferentes e interessantes sobre o amor entre dois homens...
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As aventuras eróticas de um jovem soldado Viking, que descobriu sem querer que melhor do que lutar, é sentir prazer com outros grandes guerreiros.
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enviada por Vilser
13/02/2005 17:30
Esta história só foi possível devido a um próprio recurso do jogo The Sims que disponibiliza exibir as imagens de histórias criadas pelo jogador na internet.
Caso algum representante oficial da Eletronic Arts, ou da Maxis sentirem que seus direitos autorais foram violados, favor entrar em contato.
©2004 Vilser Vaittim
Rodrigo era um rapaz bonito, inteligente e para ajudar, muito rico.
Ele casou-se com Ana, uma mulher que era bonita, elegante e invejada por todas as outras.
Assim que se casaram, Rodrigo, por ter uma condição financeira excepcional, comprou uma bela casa que se localizava no melhor ponto de um bairro de condomínio fechado, com direito a um lago no fundo da casa...
Era um casal que vivia aparentemente numa extrema felicidade, era como se esta história começasse no fim daqueles filmes de romance ou no final de um filme de ação desenfreada, onde um dos personagens quase morria pelo outro. Enfim, um casamento nada menos do que perfeito.
Apesar de toda felicidade, nem tudo eram flores no casamento deles.
Por serem tão bonitos, e de certa forma, poderosos, o casal despertava muita inveja entre seus conhecidos.
Rodrigo era gerente de um grande banco.
Sua posição de destaque dentro da empresa despertava grande inveja dos outros funcionários.
Por essa razão, eram muitos poucos os colegas de trabalho que Rodrigo verdadeiramente confiava.
Somente um era de sua inteira confiança, Edson.
Edson era um funcionário excepcional.
Trabalhava com uma determinação exemplar, empenhava-se ao extremo para ajudar Rodrigo.
Mas tanta dedicação tinha um motivo.
Embora nem mesmo ele tivesse percebido, Edson gostava de Rodrigo de uma forma que nem ele conseguia explicar direito.
Claro que tamanha confiança de Rodrigo para com Edson aumentava o sentimento de amizade entre eles.
E muitas vezes, Edson foi convidado para jantar na casa de seu chefe.
Teve uma vez porém, que Edson foi convidado por Rodrigo para jantar em sua casa.
Mas ao chegar na casa dele, Edson vê que Ana está sozinha.
E está bebendo mais do que o normal...
- Ana, onde está o Rodrigo, ele se perdeu?
- Ele teve que passar no mercado, para pegar umas coisas especiais.
Edson demorou a perceber que, com as doses a mais que Ana tinha bebido ela ficara extremamente lasciva.
E estava muito afim de fazer alguma coisa com ele além de simplesmente jantar ao lado de Edson.
Ela queria jantá-lo.
Na hora, Edson achou que aquilo era coisa da cabeça dele, afinal, o casal aparentava ser muito feliz...
E não era possível, na cabeça de Edson, que um cara como o Rodrigo, tão bonito e tão charmoso não estivesse dando conta de satisfazer uma mulher tão bonita daquelas.
Ana bebeu um pouco além do que já tinha bebido.
E quando Edson resolveu tomar um café, ela resolveu tomar uma iniciativa, avançou para cima dele, ameaçando-o:
- Se você não me beijar aqui mesmo, eu vou contar para o Edson que você transou comigo, e quero ver em quem ele vai acreditar. Se você não colaborar, vai perder a confiança do seu chefe, e até pode ser mandado embora...
enviada por Vilser
13/02/2005 17:11
CAPÍTULO 2
Quando Rodrigo chega, Ana o recebe, com um novo corte de cabelo!
Ele pergunta o que deu nela para ter mudado o corte. Ana desconversa...
_ E Edson, onde está?
_Teve que ir embora mais cedo...
_Por quê? demonstrou-se preocupado Rodrigo.
Ana, misteriosamente não respondeu. E não lhe contou nem uma vírgula do que acontecera na noite anterior.
No outro dia, Edson aguardava seu chefe.
Estava tenso.
Precisava contar a Rodrigo o que aconteceu, antes que Ana contasse a versão dela.
Mal chegou, Rodrigo nem deu a oportunidade de Edson abrir a boca.
Disse-lhe que o serviço estava muito atrasado e pediu que o rapaz retornasse imediatamente ao seu setor.
Edson imaginou que Ana já tivesse contado-lhe sua versão da história.
Mas ficou imaginando porque não foi demitido...
Na verdade, na noite anterior, Rodrigo queria encontrar muito Edson em sua casa.
Quando chegou e não o encontrou, ficou com uma raiva que nem ele conseguia entender o motivo, e resolveu descontar no outro dia...
Como chegou a conclusão que havia sido muito duro, no final da tarde, Rodrigo chamou Edson para dar um pulo em sua casa.
Disse que Ana iria passar na casa da mãe dela e chegaria tarde em casa, e os dois poderiam aproveitar e assistir ao jogo de futebol...
Na verdade, Ana não tinha saído para encontrar sua mãe coisíssima nenhuma:
Rodrigo chegou mais cedo que o normal em casa, e começou a beber um pouco além da conta...
Ele não estava tenso por causa da esposa, mas sim por causa de algo que o incomodava em relação ao Edson.
Edson chega e pergunta o que aconteceu para Rodrigo estar bebendo tanto apenas naquele momento, Edson imaginou que o que Rodrigo queria era matá-lo por ter dado em cima da mulher dele.
Rodrigo, fingindo suas verdadeiras intenções, disse que ambos deveriam comemorar o resultado financeiro do banco naquela semana.
E convenceu Edson a beber com ele...
E foram finalmente assistir ao jogo...
Rodrigo bêbado, se apoiou em Edson, que disfarçando perguntou:
Onde está o controle remoto?
Larga este controle remoto, tem coisas mais interessantes que você poderia estar pegando agora...

enviada por Vilser
13/02/2005 16:55
CAPÍTULO 3
Edson queria que aquilo continuasse ele estava era gostando da atitude do Rodrigo.
Mas foi interrompido.
O telefone toca, e Rodrigo pára o que estava prestes a fazer e vai atender.
Edson não conseguia entender do que tratava a conversa, mas viu que Rodrigo estava bem alterado.
Até porque havia bebido muito.
_Meu. Que palhaçada. Que vaca! Que piranha! Eu sabia! - Esbravejava Rodrigo.
_Que aconteceu cara? Perguntou Edson.
_Meu irmão viu a Ana com outro cara. Mas o pior é que eu já desconfiava que aquela puta tava doida para dar para outro... De novo.
_De novo?
_Ah, meu! Eu já achava que ela saía com outro cara antes. Mas eu deixei passar, para evitar escândalos. Para não sujar muito a minha imagem. Mas agora, todo mundo vai ficar sabendo.
_Agora eu estou entendo. Disse Edson.
_O quê?
_Ontem, quando eu estava aqui...
_Ela tentou me agarrar... Disse Edson. - Dizendo que ia contar para você se eu não ficasse com ela. Mas aí eu disse... Pô! Você está louca? O que é que o Rodrigo não tem que eu tenho? Eu não vou trair meu amigo só porque você tá a fim de experimentar rôla nova!
_Você disse isso? Perguntou Rodrigo. E ela?
_Ela começou a chorar. Disse que você não dava no couro há muito tempo e que ela estava muito necessitada de sexo.
_O quê? Aquela louca te disse isso? Ela que sempre diz que está com dor de cabeça...
_Olha Rodrigo. Foi ela que disse, meu. Eu não tenho nada a ver com isto, pode baixar a voz.
_Mas você acreditou nela, não é? Você agora está achando que eu sou frouxo, não é mesmo?
_Rodrigo, eu não estou achando nada, você é que está falando.
_Pois eu vou te mostrar quem é frouxo cara, vem até aqui...
E empurrava Edson até o sofá.
_Ô Rodrigo, calma aí meu! Eu não disse nada cara, me solta.
Edson empurrava Rodrigo, mas sem muita força, pois ele estava gostando, e tinha vergonha de dizer.
Rodrigo agarra Edson e dá um beijo em sua boca, encostando seu corpo junto ao dele, para que Edson sentisse que não tinha nada frouxo por ali.
Edson não consegue mais se conter, e beija Rodrigo com mais intensidade.
Ele estava maravilhado com aquela situação.
Nesta empolgação, Edson vai até um pouco além...
Aos beijos, os dois se dirigem à cama, o clima esquentava a cada minuto.
E o serviço completo é feito.
Rodrigo mostra à Edson, que de frouxo, ele não tinha nada.
O problema é que a bebedeira, embora tenha facilitado a perca de inibição entre os dois, em seguida, faz com que eles caiam no sono pesadamente.
E a esposa de Rodrigo chega àquela casa, e os encontra nus na cama.

enviada por Vilser
12/02/2005 23:32
FINAL
Ana resolveu fazer um barraco:
-Agora está explicado porque você não me procurava mais, você não passa de um viado do caralho!
- Quer saber de uma coisa sua piranha? Eu sempre confiei mais no Edson que em você...
E tem mais, o que ele fez por mim, você nunca foi capaz de fazer...
Foi quando Ana se deu conta que podia estar perdendo a vida mansa que tinha ao lado do jovem bancário... E tentou desviar o rumo da conversa...
Mas era tarde... Rodrigo disse que ela devia ficar com o amante, e Edson correu para arrumar as coisas dela...
Ana se vai, contrariada...
Mas ao chegar em casa, já articula com o amante, a possível vingança que poderá fazer com Rodrigo...
Edson fica preocupado:
_ E agora, cara, o que a gente vai fazer, ela vai querer vir pra cima...
Rodrigo apenas o pega em seus braços, o abraça e pergunta:
_Você confia em mim?
_Confio, cara.
Então deixe, que eu cuidarei de nós.
E Rodrigo beija Edson, sem preocupar se o mundo poderia acabar no outro dia...
Fim
enviada por Vilser
12/02/2005 23:16
©2004 Vilser Vaittim
Introdução
Todos nós passamos por uma época em nossa vida, onde tudo parece uma conspiração. Tudo parece ter sido incrivelmente escrito por uma força maior, tamanha a quantidade de coincidências e lições a serem tiradas desta fase da vida.
A maior parte dos eventos desta história foi real.
Entretanto, como não é meu objetivo prejudicar ou colocar algumas pessoas em situação que elas considerem constrangedoras, nomes, lugares, situações e ordem cronológica destes mesmos fatos foram alterados ou omitidos, para que não haja identificação imediata e para preservar a privacidade de cada um...
Resolvi contar esta história, pois pode ser que ajude alguém a superar seus próprios fantasmas; suas próprias dificuldades. E que ajude a alguém a lutar muito para viver plenamente seus próprios sonhos.
Capítulo I
Atualmente, a loja em que eu trabalhei já não existe mais, mas na época, era uma das mais conhecidas entre as demais lojas da rede. Um dos motivos que a tornava famosa era a grande quantidade de funcionários gays homens e mulheres. Mas a loja não era conhecida apenas por este motivo. Devido à qualidade de nossos produtos e do nosso atendimento, muitos clientes vinham de bairros remotos só para nos visitar...
Nesta época, eram três os gerentes da loja: Sr. Thomaz, o gerente principal; Cláudia, a gerente assistente e Letícia, que era trainee de gerente.
Graças a muito esforço, depois de dois anos, eu já trabalhava como coordenador.
Se eu chegasse a Trainee, seria mais fácil realizar minha meta de pagar uma faculdade.
Embora houvesse muitos funcionários gays na loja, durante muito tempo, eles nem imaginaram que eu era um deles. Até que uma vez, um rapaz me pegou beijando um cara numa boate. Se é que um dia havia sido um segredo, a partir daquele momento não era mais. Mas como eu achava que minha homossexualidade não era da conta de muitos dos meus colegas de trabalho, não fiz questão de falar. Então, nem todo mundo ficou sabendo...
Uma das pessoas que sabia que eu sou gay era a Alessandra, com quem eu realmente me abria, contava tudo.
O rapaz que havia me visto na boate chamava-se Adriano, ele era loiro, bonito, musculoso, jeitão de homem. Mas no dia em que ele me descobriu, eu o descobri também, e ficou tudo em família.
Embora eu o achasse bonito, ele sempre me dizia que o negócio dele eram os homens negros. Já que eu sou branco, fiquei chupando o dedo...
Talvez tudo andasse neste ritmo durante o resto da minha vida.
Eu achando o Adriano interessante e ele achando os outros homens mais interessantes do que eu.
Infelizmente, ou felizmente, dependendo do ponto de vista de cada um, a vida tem mais imaginação do que muitos de nós.
Certa vez, o Thomaz incumbiu-me de selecionar novos funcionários para a loja.
O Adriano e a Alessandra, que ficaram mais próximos de mim, falaram para eu escolher um cara lindo de morrer.
Eu dizia que o ideal era escolher uma pessoa que fosse extremamente profissional, e que em minha escolha a aparência não iria interferir.
Mas eles diziam: Pô, Vilser! Pelo menos um! Escolhe um do tipo galã, só para a gente poder olhar para um cara bonito todo dia.
Como o Thomaz disse que a loja contrataria uns três funcionários, eu achei que se disfarçasse, eu poderia fazer isto com pelo um funcionário.
Afinal de contas meus olhos também pediam um colírio novo para relaxar um pouco.
Após várias entrevistas, escolhi um rapaz chamado André. Como se escolhesse o príncipe dos meus sonhos, optei por um simpático loiro, maior do que eu, com belos olhos verdes e um rosto de anjo. Não era musculoso, mas um magro com ossos bem largos e fortes. A Alessandra aprovou. O Adriano, que esperava um negrão como aqueles de filme policial americano, reclamou!
Quando eu comecei a selecionar uma segunda pessoa, que agora eu avaliaria mais pelo profissional e menos pela aparência (ou seja, segundo o critério de beleza da Alessandra), o Thomaz pediu para que eu suspendesse as entrevistas, pois ele já havia escolhido quem seria o outro funcionário. E devido ao movimento da loja, que na época havia diminuído um pouco, por enquanto, contrataríamos apenas estes dois.
No dia em que os dois começaram, eu descobri quem era o outro rapaz: Robson, um rapaz que veio de Londrina, Paraná. E também descobri que era sobrinho do Thomaz. Nepotismo pouco é bobagem. Mas até que não era de todo mal... Embora Robson fosse baixinho tinha 1,65 de altura, tinha o corpo bem troncudinho, malhado pela vida de fazenda. E também tinha belíssimas feições italianas: pele clara, olhos azuis, cabelos bem pretos e lisos. Mas não era nenhum caipirão deslumbrado, era o único de nós com faculdade.
Era necessário que duas pessoas experientes treinassem os dois rapazes. Claro, fiz questão de ficar com o André, que afinal de contas, escolhi sob meus critérios. A Alessandra disse que tinha o direito de ficar com ele, já que eu não pude escolher um outro para ela. O que ambos concordávamos é que não estávamos afim de pajear sobrinho de ninguém...
Notei que não estávamos sós neste sentimento. Todos na loja olhavam torto pro Robson, afinal de contas, ele não havia entrado por mérito próprio, mas por ser parente do chefe. Acabei ficando com pena dele, e disse para a Alessandra que o ensinaria...
Capítulo II
Apresentamos o plano de treinamento ao Thomaz. Seríamos quatro na produção dos lanches: Eu, a Adriana, o André e o Robson.
A Alessandra, com um sorriso bobo na cara, ficava treinando o André e invariavelmente soltava uma indireta no ar para provocar-me.
E eu, ensinando o Robson, sobrinho do Thomaz, gerente geral da loja...
Os demais funcionários continuavam a olhar para o Robson com desdém, detratavam-no até...
E como eu era obrigado a conviver mais com o rapaz, com o tempo ele foi se apegando mais a mim.
Adorava contar piadas sem graça do tipo: Sabe qual é maior estrutura musical do mundo? É a bunda. Pois tem uma banda de cada lado e um cu juntinho(conjuntinho) no meio.
E eu ria, né... Fazer o quê?
Quinze dias depois, eu descobri que passara no vestibular do Cursinho da Poli (curso para entrar na USP), e comecei a chegar mais tarde no serviço. Meu horário era as 17:00, e passei a entrar às 19:00. O Robson e o André já estavam até mais bem treinados... e começariam a andar com as próprias pernas, sem ninguém para pajeá-los.
Depois de alguns dias, a Alessandra contou-me que o Robson só abria a boca para falar algo quando eu chegava. Ele ficava olhando no relógio o tempo todo, quando muito abria a boca para perguntar a Alessandra, se onde eu estudava era muito longe.
Eu ria da Alessandra! Eu imaginava que ela queria me empurrar o Robson de qualquer jeito... Como um prêmio de consolação. Parecia que era possível escolhermos entre o André e o Robson, como se eles fossem brinquedos. Os dois eram bonitos, cada um a seu modo, mas nenhum deles ia namorar conosco só porque os achávamos bonitos.
O Adriano - meu amigo loiro, másculo e gay, por quem eu nutria uma certa esperança, mas que só gostava de negros - resolveu entrar no jogo.
Dois meses após Robson e André entrarem na loja, eu saí de férias.
Quando voltei, o Adriano, contrariando a atitude do resto do pessoal, estava amicíssimo do Robson.
Iam jantar juntos, iam embora juntos, trocavam altas conversas, aos poucos o Robson afastava-se de mim...
Foi quando escutei o Adriano comentar com a Alessandra:
-Eu ainda transo com o Robson. Mas nem que seja a última coisa que eu faça neste mundo.
Eu tinha que intervir, não sei se era ciúmes do Robson ou se era do Alessandro:
-Ué Adriano... Não era você que só gostava de negão?
-Ah, Vilser... Deixa de ser besta!!! Eu gosto mais de negão... Mas o Robson parece um jogador de futebol... Olha o corpo dele... As pernas grossas, o tórax, cara de macho, olha o sorriso dele... E também são bestas estas meninas da loja, que ao invés de repararem em como ele é gostoso, só pensam em prejudicá-lo, porque ele é parente do Thomaz, todos caem de amores pelo André... este magrelão. Ele tem até o rosto bonito, mas é um bobão!!! Desfila todo metido na loja, para que todos olhem para ele!!!
Eu incluí:
-Você está com inveja, porque o André tirou o seu posto de cara mais bonito da loja... E como descobriram que você é gay, as meninas voltaram toda a atenção para ele...
-Pois acredite no que você quiser, eu vou dar em cima do Robson, e se ele for gay, eu quero ser o primeiro a saber...
Aquilo rodopiou a minha mente.
Um sentimento que eu nunca imaginei que pudesse sentir tomou conta de mim... Eu não podia deixar o Robson ficar com o Adriano. Não só por que o Adriano nunca quis saber de mim...
Eu era o único amigo que o Robson tinha antes de sair de férias. O único em que ele confiava.
Toda vez que ele me via, respirava fundo e sorria.
Aquilo precisava continuar a ser daquele jeito...
Depois de tanto fazer pouco caso dele, eu estava apaixonado pelo Robson.
Eu precisava destruir a amizade entre ele e o Adriano...
Capítulo III
Eu queria jogar o Robson contra o Adriano...
Em que espécie de arapuca eu pensava em meter?
E SE o Robson preferisse o Adriano, já que ele era mais bonito que eu mesmo?
E SE eu ganhasse a disputa, que chances eu teria se o Thomaz gerente da loja, descobrisse que seu sobrinho era o alvo de uma disputa não declarada?
Mas o pior, é que, por mais incrível que parecesse, eu nunca pensei pelo lado mais coerente... Quem colocou na minha cabeça que o Robson gostava de homens ?
E neste caso, o que eu ganharia em destruir a amizade entre ele e o Adriano ?
Honestamente, coerência era uma palavra que desaparecera do meu vocabulário.
Eu havia virado vilão de novela...
Se bem que não foi necessário um grande esforço para tirar o Adriano do páreo... ele vivia falando para os outros gays da loja e para as lésbicas que o Robson dava brecha, que faltava pouco para o rapaz abrir o jogo, e etc.
Claro que havia um algo a mais que me fez achar no direito de prejudicar o Adriano... ele namorava um tal de Sérgio, fazia uns três anos... Embora ele sempre dissesse que este namoro não era nada muito sério...
Mas não foi necessário envolver o Sérgio, eu só precisei avisar ao Robson que alguém estava tirando uma com a cara dele. Infelizmente eu tive que aumentar um pouco o que o Adriano falava, o que era meio injusto... Mas... No amor e na guerra...
Marquei uma hora com o Robson dentro do banheiro. Pedi para que ele se escondesse atrás da porta do banheiro, e ouvisse uma conversa... Era difícil perceber sua presença no banheiro. Além disso o Adriano não era mesmo muito esperto... bonito demais... inteligência de menos...
Quando o Adriano chegou para trocar-se, toquei no assunto...
Perguntei se estava dando certo o jogo da conquista de Robson... Adriano nem observou a sua volta, foi logo escancarando: O cara se faz de difícil, mas vale o investimento, ainda vou passar a mão naquelas pernas dele... e aí vou ver se ele se entrega...
Dei algumas risadas, incentivei o Adriano a continuar na luta, e esperei-o sair.
Mas, por outro lado, ao mesmo tempo, eu estava aflito! E se o Robson na verdade estivesse gostando daquela história? E se ele estivesse a fim do Adriano?
Minhas dúvidas dissiparam-se quando ele saiu detrás da porta, esbravejando:
- Caralho! Se eu soubesse! Pô, eu acho que todo mundo tem o direito de ser gay, acho normal, natural... Mas ficar falando pelas minhas costas é muita sacanagem...
Acalmei-o, disse que as coisas eram assim mesmo, e que eu só havia feito aquilo porque eu não achava certo alguém ficar falando dele pelas costas. Mas que ele relevasse isto e tentasse ser amigo de Adriano, era só não dar muita intimidade.
Eu era mesmo um vilão de novela, quase uma Odete Roitmann.
Para não dar na cara, o Robson não deixou de falar com o Adriano. Embora o deixasse perceber que não estava mais tão empolgado com a nova amizade. O Adriano nunca desconfiou que fosse vítima de um plano. Aceitou que o Robson era heterossexual, e simplesmente, desistiu de agir.
Meu plano deu certo... O Robson enxergava-me como seu defensor, posição que fiz questão de defender: Como eu era supervisor da produção de lanches, eu impunha certo respeito, e ninguém mais pôde ficar com piadinhas para cima dele pelo fato de que ele era sobrinho do gerente principal. Eu argumentava que tais atitudes não eram produtivas. O Robson e principalmente o Thomaz, claro, adoravam meu discurso.
O resultado foi até melhor do que eu esperava: Robson passou a fazer tudo comigo, jantava, contava piadas, saíamos no mesmo horário, e como ele passou a morar sozinho aqui em São Paulo, às vezes íamos comprar alguma coisa juntos para sua casa.
Um dia, aconteceu algo estranho...
Eu fui ensiná-lo a preparar uns lanches que ele ainda não conhecia, e mostrei detalhe por detalhe como pegar nos ingredientes. Devido a uma distração dele, um ingrediente ficou prestes a cair no chão. Rápido, agarrei o ingrediente no ar. Ele havia feito o mesmo movimento. Trombamos um no outro. Caímos. Agarramo-nos um ao outro para levantar.
Eu ria do nosso mal-jeito...
Mas amei ter sido tocado por ele com aquela intensidade.
Suas mãos tinham um toque delicioso. Eu estava fascinado, mas contive-me, pois não queria dar bandeira de que ele mexia comigo... Principalmente depois do que eu havia feito com o Adriano.
Percebi que, sem mais nem menos, Robson começou a tremer...
Eu falei, em tom de brincadeira: - Calma, rapaz. Isto nem ia fazer falta, não deve valer nem 10 centavos.
No que ele respondeu: - Desculpe. Não sei o que foi. Não sei se fiquei nervoso por causa disto... Sei lá o que foi... Acho que eu tenho mal de Parkinson, deve ter surgido agora...
Rimos... Uma esperança de que ele podia ficar excitado ao meu lado apareceu... Quem sabe um dia...
Mas o problema dos sonhos, é que uma hora a gente acorda. O Robson deixava aos poucos de ser tão odiado na loja. Fez amizade com os poucos homens heterossexuais que ainda havia na loja. Estes não tinham certeza sobre mim, mas já haviam escutado certos rumores... Minha sorte, é que todo mundo gostava muito de mim, e eu não estava dando brecha, então ninguém questionou sobre nossa amizade... Ao menos até então.
Alguns meses depois, nossa loja ultrapassou as melhores metas de promoções do ano, fomos premiados com um churrasco em uma chácara na Via Anhangüera...
Eu, por mais que tentasse convencer-me de que avançava para o alto-mar dentro de uma canoa furada, não queria perder uma oportunidade de passar o dia inteiro olhando para aqueles olhos da cor do céu.
Insisti para que o Robson fosse ao churrasco, mesmo ele insistindo que não queria fazer parte.
Havia uma esperança de que se bebêssemos muito, quem sabe eu conseguisse forçar um pouco a barra. Seja lá o que acontecesse depois.
Ele, como era tímido, resistia, disse que não gostava deste negócio de churrasco, de bagunça. Mas acabei convencendo-o. Seria melhor se eu não tivesse insistido...
Capítulo IV
Sexta-feira de manhã, o Sol estava radiante. Quase tanto quanto eu. Eu estava feliz por ter convencido o Robson a ir ao churrasco.
Foram todos, inclusive os gerentes: Sr. Thomaz, a Cláudia, a Letícia...
Letícia, aliás, resolveu levar uma prima para a festa, a Iara... Uma ninfeta exibida de 19 anos, tudo aquilo que pode endoidar um homem. Principalmente aquele de quem eu gostava.
Meus amigos também foram, inclusive Alessandra e Adriano, este, aliás, também resolveu levar alguns amigos: dúzias de cerveja na sua mochila, já chegou na festa calibrado. O André, o bonitão que contratei, também foi.
Logo na partida, uma coisa já me deixou incomodado, mesmo que não houvesse grandes razões para isto: Eu fui em um carro (da gerente Cláudia), e o Robson em outro (do gerente Thomaz, claro!!!). A viagem levou cerca de meia hora. Mas achei que poderia compensar minha distância do Robson na festa.
No churrasco, todos estavam muito animados. Mal chegamos, e já se jogaram todos na piscina.
Todos menos Letícia, a trainee. Ela tinha pavor de água.
Ignorando tamanho temor da Letícia, talvez achando que ela estava brincando, o Adriano, que não sabia mais diferenciar alho de bugalho, pegou-a no colo, e indiferente a seus gritos, arremessou a moça na piscina... Na parte mais funda.
Muitos tentaram resgatá-la. Aos berros, desesperada, Letícia esbofeteava todos que tentavam ajudá-la. Um mal estar tomou conta da festa. O próprio Adriano tentou tirá-la. Mas se ela ia pra esquerda, ele procurava ela na direita. Mal ele sabia onde estava, quanto mais ajudar alguém.
Pobre moça.
Eu também tentei ajuda-la, em vão. O desespero dela ela imenso. O nosso também.
Apenas uma pessoa conseguiu ser rápida, forte e inteligente o bastante para pegá-la de jeito e puxá-la pelo pescoço: o Robson.
Ele tirou suas roupas, e como se estivesse apenas a passeio, retirou-a como se tira um pedaço de papel.
Letícia estava bem. Ela estava bem acordada, apenas assustada, tudo se resumia agora a um susto.
Passado o mal estar geral, renovados os espíritos, a festa voltava ao normal. O Adriano caiu no chão de bêbado, e não importunou mais ninguém.
O Robson virara um Semi-Deus... Todas as meninas - e muitos homens - estavam encantadas com sua força, astúcia e masculinidade.
Naquele momento, eu vi seu corpo pela primeira vez com muitos mais detalhes... Branco bronzeado, peludo, corpo definido, pés e mãos perfeitas, rosto de galã da máfia italiana (tipo Andy garcia), olhos da cor do céu e um corpo escultural (uma batata da perna do tamanho de um melão).
Meu objeto de desejo agora era o centro das atenções. Principalmente da tal Iara, prima da Letícia...
Capítulo V
Iara, moça bonita, no auge dos seus 19 anos, biquíni minúsculo, resolveu partir para o ataque.
Olhava e insinuava-se para Robson, insistentemente.
Robson, impecavelmente belo, mas extremamente tímido, desviava-se destes olhares, e fingia que não era com ele.
Infelizmente os demais homens da loja foram uma tropa crucial a favor do inimigo...
Bêbados, chatos e incapazes de conquistar sequer uma baranga, viram que a Iara estava dando um mole danado para o Robson. Como ele ficava no canto dele, insistiram que ele tinha que catar a mina...
Para tentar fugir do assunto sem maiores comentários, o Robson propôs uma partida de futebol.
Como na grande maioria das vezes, gays e mulheres não quiseram participar, exceto por mim e pelas lésbicas...
Formaram-se dois times pequenos de sete jogadores. Claro que algumas posições iam ficar desfalcadas, mas daria para brincar...
O Robson ficou no time adversário ao meu. Se bem que eu não achava ruim, quem sabe a gente não disputava uma bolinha entre nós, e ralava um no outro.
E para ajudar, naquela tarde onde eu tive que aprender que meu herói era herói de todo mundo, descobri que Robson, além de exímio nadador era o melhor jogador de futebol de todos ali presentes.
Até eu começava a irritar-me. Será que tudo que esta praga faz é melhor?
Seu time ganhava de dois a zero do nosso, graças a ele.
E o que eu queria que acontecesse, disputar uma bola com ele, de certa forma acabou acontecendo...
Começamos a disputar pela bola.
Ele, experiente, queria me fazer de bobo. Mas, mesmo não sendo Pelé, sei meus truques.
Mas o tiro saiu pela culatra...
Num certo lance, eu errei a bola, e acertei em cheio sua canela, levando-o ao chão.
Estendi a mão para ajudá-lo. Mas talvez por causa da dor, ou por causa da ambição em ganhar o jogo, ele afastou minha mão, empurrando-a.
A Iara aproximou-se alegando que estudava enfermagem, e talvez pudesse ajudar...
Porque a vaca não estudou balé, canto ou suicídio como qualquer piranha normal de sua idade deveria fazer??? - eu pensei...
Afastei-me do bolo de gente que estava formando-se. Eu era o vilão mais uma vez. E desta vez não era minha intenção.
Longe do campo onde o jogo rolava, pude apenas ficar observando...
A canela de Robson aos poucos melhorava, dava-se para perceber pelo rosto dele.
E a vaca em miniatura Iara era mais baixinha do que o Robson ao seu lado estava ali, massageando aquelas pernas que eu tanto queria tocar.
Aqueles rapazes que instigavam o Robson a ficar com a Iara, secavam os dois com os olhos, fazendo piadas entre eles, dizendo: deixa de ser idiota rapaz.
Após alguns afagos e olhares insistentes de Iara, o pior aconteceu...
Eles começaram a se beijar.
Uma dor imensa, uma pane no meu corpo, um ódio infinito cegou meus olhos.
Eu não podia intervir.
Cego, levantei-me da borda do campo e segui para longe, entrei em um banheiro bem afastado do resto da chácara.
Desencadeei a chorar. Comecei a espancar as paredes com minhas mãos. Queria destruir tudo. Mas, contive-me...
Com as pernas fracas, deixei-me cair no chão e apenas chorei. Minhas esperanças de ter o Robson abandonavam meu pensamento, meu corpo. Seguiam rumo ao nada, acompanhando as lágrimas que deixavam meus olhos.
Queria gritar, mas eu não queria que ninguém soubesse. E nem tinha forças para isso.
No auge de minha fúria, só tive forças para gemer baixinho.
Muito tempo depois, fui interrompido por passos que se aproximavam.
Esfreguei a mão no rosto e procurei um lugar para esconder-me.
Era um banheiro onde não havia portas, apenas divisórias, devia ser muito pouco usado, ou até estar abandonado. Eu estava tão cego que escolhi um péssimo esconderijo.
- Vilser? a voz me chamava. Era o Robson.
Fiquei petrificado de medo.
Tentei esconder meu rosto, para não deixar à mostra o rosto molhado pelas lágrimas.
Mas ele viu, puxou minhas mãos que cobriam o rosto, assustado, perguntou:
- Cara, o que aconteceu? Você tá legal?
- Eu estava brincando de esconde-esconde - respondi, é que eu estava batendo a cara na parede (é o que a gente fala quando conta os segundos para procurar alguém). Não sabia que ia doer tento...
Ele riu. Não sei por que, mas não me acreditou...
Ele insistiu em saber o que acontecia comigo, se podia ajudar-me.
Sua insistência, dilacerava mais ainda o coração de alguém que já não tinha mais chão para pisar... Contar logo toda a verdade que diferença faria?
- Quer saber, cara? Você quer saber mesmo, véio? Eu tô assim porque eu te vi atracado com aquela piranha... Era isto que você queria escutar?
Capítulo VI
O Robson arregalou os olhos...
Sentou-se bruscamente numa espécie de banco de concreto, destes que costuma haver em banheiros do tipo vestiário... Ficou olhando pro teto por alguns segundos, e depois falou:
- Se você queria ficar com ela, você podia ter me perguntado... e forçou uma risada.
Eu continuei, bem mais sério:
- Cara, eu não curto mulheres... Fui claro agora, ou quer que eu desenhe?
- Eu já entendi... Estava zoando... Deu uma pausa.
Depois continuou, sempre olhando para o teto: - Eu não sabia... Quer dizer... Até ouvi uns comentários sobre você... Mas eu achava que era zoeira, o pessoal chama todo mundo de viado mesmo... E mesmo neste caso, eu nunca imaginei que você pudesse estar a fim de mim, até por causa daquela história do Adriano...
- Pois é... fiquei olhando para baixo... - Então é isso cara... Eu sei que você não tem nada a ver com isto que eu sinto... Mas sei lá, não deu para segurar a barra de te ver com aquela mina... Eu corri pra cá...
Olhei para o relógio, e de cabeça baixa, tentei fugir do assunto, com vergonha do que estava sentindo:
-Por falar nisto, vou voltar lá para a festa... Se você viu que eu sumi, logo, logo, vem mais alguém... E se pegam nós dois conversando aqui, vestidos só de sunga... Podem comentar sobre você também...
-Eu não ligo pro que os outros pensam... - disse ele, sério e virando aqueles malditos e lindos - olhos azuis para mim.
-Beleza... eu falei, de cabeça baixa: - Mas eu tô com fome, não comi nada desde a hora que cheguei, e eles devem estar fazendo algo para comer...
Respirei fundo e complementei: - E se você não quiser mais falar comigo beleza... Eu entendo...
Virei as costas para ele, e me dirigi para a porta do banheiro. Robson levantou-se. Deu umas duas voltas em torno de si mesmo, suspirou alto, um tanto impaciente, pensativo. Eu parei de andar. Imaginei que ele queria dizer algo.
-Vilser... Desculpe-me se eu não sou gay...
Achei uma atitude estranha, e ainda de cabeça baixa, de costas pra ele, falei:
- Desculpar? A culpa não é sua... Nem minha...
Ele pegou em meus ombros, me virou de frente para ele e falou num tom estranho, que tentava mostrar tranqüilidade, mas que transmitia uma certa impaciência:
- Olha nos meus olhos quando eu estiver falando com você, caramba!!!
Notei que os olhos dele estavam um tanto úmidos.
Eu não sabia se era compaixão, ou raiva.
- Vilser, eu não sou gay, mas eu gosto muito de você, você é o melhor amigo que eu já tive... Eu não gostaria de perder sua amizade, por nada neste mundo...
Eu sei que querer sua amizade é até egoísmo meu, eu sei que não é fácil...
Mas amanhã ou depois você nem está mais apaixonado por mim... E nossa amizade, que é tão legal, não existirá mais...
Eu poderia esperar qualquer reação de um cara heterossexual, menos esta. Portanto falei:
- Robson... Obrigado pela consideração... Mas eu não ia suportar ver você namorando, beijando suas minas, casando, tendo filhos... Ia me doer demais, cara!
- Vilser, eu não sei se resolve... Mas e se eu te prometesse que eu nunca ia beijar nem mexer com uma mulher na sua frente... Será que mesmo não sendo mais fácil, não é pelo menos um sacrifício que cada um de nós podia fazer para continuar perto um do outro?
Ouvindo-o falar aquilo, com aqueles olhos azuis rasos dágua...
Não tive como recusar sua amizade... Nunca um amigo, nem mesmo um amigo gay, havia me dito que abriria mão de algo, por menor que fosse, só para continuarmos amigos...
Ficar ao lado dele, ser somente um amigo talvez já fosse algo... Imagino como deveria ser difícil para um homem heterossexual falar tudo aquilo... Esperava que ele fizesse tudo, até me bater... Não aquilo! O cara parecia ser mais perfeito do que eu pensava.
Eu gostaria de dizer que, mesmo sem um final feliz, a história terminaria aqui.
Que todos meus sonhos haviam se acabado e que o mais fácil era partir para outra...
Ledo engano, não era o final da minha história com o Robson, mas sim o começo.
E ainda veria muito mais coisas que me fizeram acreditar que a vida é uma ilusão.
Nada do que parece ser a nossos olhos, realmente é.
Capítulo VII
Engraçado como é a vida...
O cara que eu escolhi, o André, o loiro bonitão, com o tempo, demonstrou ser um verdadeiro puxa-saco, adorava bajular e adular o Sr. Thomaz, para ver se alcançava um cargo mais elevado. Mais bajulava que trabalhava.
A pessoa que a princípio eu até evitava conversar, por ser sobrinho do gerente, demonstrou ser um funcionário esforçado, uma pessoa dedicada a ser eficiente e ajudar os outros...
Bom nadador, bom jogador, e alguém capaz de fazer tudo por uma amizade... Fora que era extremamente bonito.
E o que tornou o destino ainda mais caprichoso: Eu estava apaixonado por ele, e não pelo loiro sonso que eu havia contratado...
Eu pretendia cumprir o combinado... Esforçar-me para aceitar somente a amizade do Robson, enquanto ele faria o possível para não me magoar, deixando de beijar ou mexer com mulheres perto de mim, tudo para manter nossa amizade.
O problema é que um cara apaixonado não costuma seguir cláusulas do contrato...
Saímos do banheiro... Coloquei um boné para tentar disfarçar o rosto, e voltamos à presença dos demais funcionários e convidados do churrasco. Todos já estavam calibrados o suficiente para nem perceber que eu havia sumido por um bom tempo.
Ao ver o Robson aproximando-se, a Iara veio correndo, como quem estava doente de saudades, doida para beijá-lo novamente.
O Robson fez uma cara de que é isso menina, sai para lá e se esquivou um pouco... Ela estranhou a atitude dele, mas continuou agarrada a seus braços.
E ele, embora de cara amarrada, permitiu que ela continuasse ao seu lado.
Só o fato dele estar junto à ela e não a mim, já me maltratava o suficiente.
Para tentar não pensar, comecei a beber, a beber muito...
Fiquei bebendo de um lado da churrasqueira, e reparava que o Robson, do outro lado das mesas, também bebia...
A Alessandra reparou que havia algo errado comigo, e veio perguntar-me:
-Vilser, está tudo bem, sinto que você está meio triste...
Tentando não contar a verdade, mas já um pouco fora de mim, limitei-me a dizer-lhe baixinho:
-Coisas do coração, aquelas dores que ninguém pode ajudar a curar...
Sem querer, ou sei lá, até mesmo propositadamente pois eu já estava meio alto na bebida, olhei para o Robson... A Alessandra percebeu tudo em fração de segundos.
Percebeu que eu sofria por ver Robson com a Iara...
Alessandra tentou alegrar-me. Para espantar meu baixo astral, tirou uma música sertaneja triste que o Sr. Thomaz havia colocado para tocar, e colocou um CD da Madonna com o qual ela sempre andava ela é doente por Madonna...
Ela subiu em cima da mesa e convidou-me para dançar Open Your Heart.
Bêbado... Sem medo de qualquer tipo de comentário... E sem medo de cair e levar umas quinze fraturas... Subi e cai na dança...
Eu só queria espantar minha depressão...
Agitando e rebolando feito Elvis Presley com convulsão, joguei meu boné longe... E continuava a chacoalhar em cima da mesa...
Todos resolveram rodear a mesa, agitando os braços, enquanto eu e Alessandra dublávamos a Madonna...
A performance dela era íncrivel... Parecia a própria...
Eu, como dançarino e bailarino bêbado, parecia o King Kong com urticária...
Para ajudar, de repente, mais alguém resolveu juntar-se a nós...
O Robson, colocou o boné que eu havia atirado longe em sua cabeça, subiu em cima da mesa, estendeu os braços, pegou em minhas mãos, e começamos a dançar como Olívia Newton-John e John Travolta em Grease...
Com direito a segurar-me em seus braços e tudo o mais.
Todos riam a beça... Pois não éramos necessariamente tão harmoniosos.
A Iara ficou furiosa.
Capítulo VIII
A Iara estava brava, mas não era exatamente comigo (como eu estava com ela...).
Estava irritada com o Robson, porque ele não estava mais o mesmo grude com ela que antes, e dava a impressão que ele preferia dançar até com outro homem do que estar com ela.
Isto a deixou muito incomodada.
Aproximou-se da mesa, cruzou os braços e nos olhava com cara feia.
Como ele continuou a dançar... Ela disfarçou a irritação e o chamou.
Ele a ouviu, virou-se para trás, e foi falar com ela.
Não desceu de cima da mesa onde eu continuava a dançar com a Alessandra.
Estávamos sobre aquelas mesas bem grandes, como as que existem em refeitório de escolas.
Robson agachou-se para falar com a Iara, meio cambaleante.
Ela disse que ia até o carro procurar não sei o quê desculpa esfarrapada, claro. E pediu docemente para que ele a acompanhasse.
Ele sentou-se na mesa, acho que para recuperar o fôlego antes de levantar.
Eu, bêbado e magoado, só de pensar em vê-lo sair de perto de mim, aproximei-me e puxei, intencionalmente e com força, o meu boné que estava em sua cabeça.
Robson caiu da mesa.
Graças a Deus, ele não se machucou.
Ele não foi atrás da Iara, mas ficou bronqueado, e também não voltou a falar comigo...
Ficou de cabeça baixa até o final da festa. No máximo, levantava a cabeça e olhava para mim com uma cara de chateação.
Fomos embora, cada um no carro em que veio.
Robson no carro do Sr. Thomaz; Iara, no carro da Letícia, graças a Deus; eu, Alessandra e o André, no carro da Cláudia.
Dentro do carro, de cabeça baixa, fui embora cantarolando Open Your Heart da Madonna, baixinho, choramingando, recordando minha dança com Robson:
I think youre afraid to look in my eyes,
Sinto que você tem medo de olhar em meus olhos,
You look a litlle sad boy I wonder why...
Vejo que você é um rapaz triste, eu queria saber por quê...
If you give me a half a chance youd see
Se você desse-me ao menos uma chance, veria
My desire burning inside of me...
Meu desejo queimando-me por dentro
But you choose look the other way...
Mas você escolheu olhar para o outro lado...
...
Uma semana depois, graças ao meu esforço no trabalho, recebi uma promoção.
Eu inaugurava o departamento de Delivery, o sistema de entrega a domicílio da loja, e eu seria o responsável.
Graças ao excesso de trabalho, naquela semana, eu e o Robson nos falamos muito pouco. Ajudou o fato de que eu tinha certo receio de falar com ele, depois do que aconteceu no churrasco.
Na sexta-feira, mudei oficialmente de setor, e deveria levar comigo dois funcionários.
A Alessandra não podia sair de seu setor, era a mais experiente na produção.
Perguntei ao Adriano se ele queria ir, ele topou.
Por ter visto meu convite ao Adriano, Robson aguardou o primeiro momento em que eu estive sozinho para perguntar:
-E aí, vai querer se ver livre de mim?
Olhei para ele com um acara de espantado e falei:
-E você? Tem certeza de que não é o melhor para nós? Separados não fica melhor para todos? Ainda mais depois do que eu aprontei com você com aquela história do boné...
-Fiquei meio chateado na hora, mas passou. Ele respondeu.- Se você ficar isolado lá no Delivery, aí que a gente não vai mais poder se falar direito...e onde fica nosso trato de amizade?
Eu olhei com um sorriso que não conseguia esconder e falei:
-Tudo bem, eu sei que você quer é ser promovido às minhas custas. Mas, beleza, você vai comigo para o Delivery...
No dia da inauguração do Delivery, tudo corria bem, até por quê eu estava feliz pela escolha de Robson de continuar ao meu lado.
Nosso novo setor ficava ao lado da entrada da loja.
Animado com o novo serviço, eu explicava e ensinava o serviço ao Robson e ao Adriano.
De repente, alguém que eu não queria ver nunca mais, entra pela porta.
Era a Iara.
Eu enlouqueci de ódio.
Capítulo IX
Na hora em que eu vi a Iara entrando, concluí que ela estivesse atrás do Robson.
A minha raiva em vê-la novamente atrás dele era grande, mas eu estava de mãos atadas.
Eu tinha no coração a esperança de que o Robson podia vir a gostar de mim... Mas era só um sonho...
De que me ia adiantaria gritar, esbravejar ou querer matá-la?
Se o Robson gosta de mulheres, de nada adiantaria matar a Iara, se ainda existem pelo menos umas 3 bilhões de mulheres no mundo... Eu precisaria matar muita gente...
A única atitude que eu achei menos incoerente, até pela minha posição, foi sair daquele local, para não ver cena nenhuma. E também para não fazer cena nenhuma!
No momento em que a Iara entrava na recepção, o Robson estava perguntando-me alguma coisa, que eu nem lembro o que era.
Assim que ela entrou, eu virei as costas para o Robson. Sem dar satisfações, atônito, saí da área do Delivery sem responder sua pergunta e dirigi-me ao vestiário.
Ele olhou para o lado, viu que a Iara estava entrando, e deixou-a a olhar navios. Veio atrás de mim.
Eu, como um avestruz, entrei dentro do vestiário, abri a porta do meu armário e enfiei a cabeça lá dentro, como se estivesse procurando algo... Acho que uma faca para me matar, talvez...
O Robson veio, parou atrás de mim e perguntou-me:
-E agora, o que é que foi, ô estrela de cinema?Perdeu o creme para mãos?
-Ô Robson, querer que eu fique por lá já é demais, né não?
-Você está falando da Iara?
-Não, avestruz. Por causa do cruzamento de Poltergeist com assombração... Parei para pensar... É verdade, acho que vocês chamam o cão de Iara!
Ele riu. E continuou falando:
-Eu não tenho nada com a Iara... A gente só ficou naquele dia. Ela deve ter vindo pegar a Letícia, que está saindo do serviço neste horário...
Meu coração bateu aliviado...
Um sentimento de alegria quase inenarrável tomou conta de mim. Além da vergonha, é claro...
Voltamos para o delivery como se nada tivesse acontecido.
Assim que voltei, percebi que a Iara me olhava com uma cara muito feia... E quando o Robson virou as costas eu mostrei a língua para ela.
Nunca mais vi a Iara depois daquele dia.
Mas aquela minha reação iria causar uma tempestade jamais vista na minha vida.
Afinal de contas, Iara era prima da Letícia, umas das gerentes da loja.
Provavelmente ela contaria à prima o ocorrido.
E a Letícia provavelmente contaria ao Thomaz, gerente principal da loja, quais eram minhas verdadeiras intenções com Robson, seu sobrinho.
Capítulo X
Eu imaginava o que aconteceria se a história chegasse ao ouvido do Thomaz...
Mas o que realmente eu poderia fazer para mudar algo?
Atacar o Robson?
O Robson já sabia que eu era apaixonado por ele... Forçar uma situação seria agressivo... Ele iria ficar puto se não me quisesse tanto quanto eu o queria...
Ele deixara bem claro que queria que houvesse um esforço de ambos para que nossa amizade ficasse acima de qualquer coisa...
Se eu o agarrasse a força, estaria violando este trato... E acho que forçar a barra sem que o outro queira, não é mais amor... é estupro. Eu precisava de uma luz...
Naquele mesmo dia da visita da Iara à loja, naquela mesma sexta-feira, a minha amiga Alessandra, vendo que eu estava com a cabeça a mil, convidou-me para tomar umas cervejas:
- Vilser, eu acho que você tem que relaxar um pouquinho, quem sabe se a gente sair, beber um pouco, dançar, pular, desabafar, pelo menos você já dá uma relaxada...
- Alê, eu não sei se tomar um porre resolve o problema de alguém... Não estou a fim de virar alcoólatra por causa de ninguém... Não nasci pra ser bêbado e ficar chorando dor de corno...
-Deixa de ser besta, Vilser. Um gorózinho não mata ninguém não... Vamos lá, só hoje...
Não éramos os únicos com planos de sair naquela noite.
Os rapazes da bagunça... Aqueles que se dizem heteros, também estavam planejando balada para aquele dia.
Estavam a fim de catar umas minas, beber até cair, fazer rachas e outras coisas que eles consideram normais depois dizem que os gays é que têm problemas...
Convidaram o Robson para ir com eles...
Os gays e as lésbicas também resolveram que iriam sair juntos naquela noite...
O Adriano veio nos convidar eu e a Alessandra para nos unirmos a este segundo grupo.
Como eu estava afim de desabafar um pouco com a Alessandra, que até então sabia muito pouco da história, eu disse ao Adriano que já tínhamos combinado ir para outro lugar... um pouco mais sossegado que boates, eu disse que íamos a um barzinho...
Contrariando meu plano de ir a sós com a Alessandra, o Adriano automaticamente convidou-se para vir conosco... E não foi mais com os demais. Não tive argumento para recusar sua companhia.
Eu, a Alessandra, o Adriano e o André (o loiro bonitão que eu havia contratado), encerraríamos nosso expediente as 22:00, os demais funcionários, somente no fechamento da loja, à 01:00 da manhã.
Às 21:30, o Robson veio falar comigo, sorridente e com aqueles olhos azuis que eram meu caminho para o inferno:
-E aí, Vilser? Os caras me chamaram para sair hoje, quer ir com a gente?
Com este pedido, confesso que fiquei tentado a mudar de rumo, mas já sabia que seria um tiro na água...
Já me bastava o que aconteceu na chácara. Se os caras provocassem o Robson novamente para ficar com uma garota, no mínimo eu quebraria a cadeira na cabeça de alguém. Era difícil, mas necessário que eu recusasse:
-Não vai dar Robson, eu já tinha marcado sair com a Alessandra...
-E onde vocês vão? - Perguntou-me Robson, com ar de quem duvidava que eu estava falando a verdade...
-Acho que num bar... Respondi. - Talvez num karaokê, talvez beber um pouco, cantar mal...
Ele riu. Deu uns dez segundos de pausa, olhando-me pensativo... segurou no meu braço e perguntou:
-Ah cara, o Felipe falou que o lugar que eles vão é legal pra caramba. Por que a gente não vai com eles?
-Robson. - Interrompi com um ar sério. - Se você quer ir com eles, beleza... Eu não vou furar com a Alessandra agora...
Robson pensou mais um pouco, e disse:
-Isso quer dizer que eu posso ir com vocês?
-Pode, se é o que você quer...- Respondi, surpreso pela escolha dele.
Robson saiu correndo, conversou com o André, pedindo-lhe para que trocasse de horário de saída com ele.
André recusou-se.
Robson irritou-se com ele, e veio falar comigo, dizendo que teria que cancelar nossa primeira balada juntos, por causa do André.
Esta seria a primeira de uma série de desavenças que haveria entre eu, Robson e André... Mas esta foi fácil de resolver.
Fui conversar com o Thomaz, e pedi para que ele liberasse o Robson mais cedo.
Ele hesitou um pouco, pois ficariam poucos funcionários na loja para o fechamento.
E apesar de tê-lo contratado, Thomaz nunca concedeu privilégio algum ao seu sobrinho Robson. Mas acabou acatando meu pedido.
No vestiário, o Robson estava radiante, e eu mais radiante ainda.
Apesar do nosso pacto, eu não conseguia deixar de suspirar e ter palpitações ao vê-lo seminu dentro do banheiro, trocando-se comigo.
O Adriano, que infelizmente também estava saindo conosco, também filmava-o bem...
O Robson saiu primeiro do banheiro, disse que ia dar um telefonema.
O Adriano aproximou-se de mim e disse:
-É hoje que eu encho a cara deste bofe e faço ele. Por bem ou por mal. Ainda bem que ele resolveu sair com a gente.
Claro que eu dei-lhe um belo de um sermão, falei para respeitá-lo e etc. Mas, fofoqueiro como Adriano era, se eu falasse algo a ele, era mais certo o Thomaz saber através dele, do que pela Iara e sua prima Letícia.
Entretanto, eu não sabia como descartar o Adriano do nosso passeio, mas sabia que aquele cara bêbado e interessado no Robson iria me causar problemas.
Justo na noite que poderia ter sido só minha...
Capítulo XI
Era sexta-feira de inverno...
A noite estava muito fria, eu vestia uma jaqueta de couro.
Antes de sairmos da loja, já compramos umas latinhas de cerveja e fomos bebendo pelo caminho.
Já na saída, o Adriano tentava puxar assunto com o Robson.
Desde que, graças a mim, o Robson perdeu a confiança no Adriano, eles não eram mais tão íntimos...
As pessoas mais próximas ao Robson eram eu e a Alessandra, então ele conversava mais animadamente conosco, tanto na loja, como naquela noite.
O Adriano tentava falar sobre mulheres, carros, sobre qualquer coisa que desse, mas o Robson lhe respondia com monossílabos: Sim... Não... Talvez... Não sei...
Robson parecia estar mais a fim de tomar a cerveja...
Em um determinado momento, eu comecei a rir. Acho que feliz por ver o Robson dar pouca atenção ao Adriano...
O Adriano perguntava:
-O que foi Vilser, o que está pegando?
Eu olhava para ele e embora me segurasse, ria mais ainda... Acho que ele começou a perceber minha felicidade em vê-lo tentar inutilmente falar com Robson...
Fomos a uma região de São Paulo com vários bares... onde havia alguns com freqüência GLS.
O Robson hesitou um pouco em entrar num lugar destes, mas eu achava que estaria mais seguro: menos mulheres para que ele caísse na tentação de olhar.
Escolhemos um onde havia um karaokê.
Sentamos numa mesa, ele puxou-me pelo ombro, e falou baixinho ao meu ouvido, sem que a Alessandra ou o Adriano pudessem escutar:
-Se alguém se aproximar de mim com segundas intenções, eu estou com você...
Que mais eu podia querer ?
À mesa , o Adriano tentava suas últimas jogadas, mas por um grande golpe de sorte, foi interrompido.
Por mais que a cidade seja grande, o mundo é muito pequeno, e a vontade de Deus é impiedosa:
Os amigos do Sérgio, o namorado do Adriano apareceram por lá.
O Adriano, sem graça, foi até a mesa deles, e lá ficou, conversando... bancando o namorado fiel que saiu apenas para beber com os amigos... Como se alguém realmente acreditasse nisso...
A noite seguiu sem maiores contratempos...
Durante o tempo que estávamos lá, eu tentava embebedar o Robson, para ver se naquele ambiente ele ficava mais maleável...
Depois de algumas horas, o Robson olhava e conversava apenas comigo. A uma certa altura, ele não tinha mais olhos nem ouvidos nem para a Alessandra. Não olhava para os lados, nem para comentar se as meninas eram bonitas ou não.
De repente, lá pelas 4 da manhã, ele resolve cantar no karaokê.
Como eu quero do Kid Abelha...
Ele levanta, corpo meio mole por causa da bebida.
Aquele rapaz de rosto lindo, forte, baixinho, cabelos pretos espetados, olhos azuis, pernas arqueadas... o melhor exemplo do que é um homem.
Sua voz - não muito grave, mas bem máscula - saia de sua boca meio engasgada, meio rouca, tão grogue ele já estava...
Diz pra ficar muda faz cara de mistério,
Ele vira-se, olha para mim e continua:
tira esta jaqueta que eu quero você sério...
Eu, sentindo a maior felicidade do mundo, comecei a rir.
Embora um pequeno fio de preocupação insistisse em me incomodar:
Mesmo se a Iara decidisse não se intrometer na vida do Robson, agora era inútil.
O maior fofoqueiro da loja iria contar tudo a todo mundo... O Adriano fez cara de velório ao ver o Robson cantando para mim...
Capítulo XII
Quando o Robson voltou à mesa, eu esperava um beijo, alguma coisa.
Ele olhava para mim e ria.
Eu, bêbado, aproximei meu rosto do dele, mas ele esquivou-se.
Decepcionado, eu me afastei.
Ele colocou a cadeira do meu lado e falou, rindo de bêbado:
- Beijo não, mas nós podemos ficar abraçados...
Embora meio frustrado, aceitei o que eu podia ter.
Ao amanhecer, fomos embora.
Estávamos somente eu, o Robson e a Alessandra. O Adriano resolveu ir embora com seus amigos.
Eu e o Robson estávamos praticamente travados. Saímos abraçados, eu e o Robson. A Alessandra estava mais incrédula do que eu com o fato...
Que situação ambígua... Não havia como saber se este cara queria algo ou não...
Ele contava umas bobagens sem nexo no meu ouvido, e eu gargalhava... Um pouco de insanidade minha, talvez, pois havia um pouco de mim que queria chorar.
Deixamos a Alessandra no ponto de ônibus que a levaria até em casa.
No caminho do nosso ponto de ônibus, desfizemos o abraço, passaríamos em frente a um corpo de bombeiros.
Um soldado (que não era o José Albucacys - mas dava pro gasto... e como dava!) perguntou a mim, educadamente :
-Por favor, grande. Você tem horas pra me dar?- Desta maneira mesmo...
Eu, longe de mim, irritado por que o Robson recusou o beijo, mandei ver:
-A hora que você quiser, meu amigo!!! É só pedir!!!.Cú de bêbado não tem dono!!!
Eu e o bombeiro caímos na gargalhada... Pedi-lhe desculpas e disse-lhe as horas.
O Robson fechou a cara.
O bombeiro fingiu que não tinha falado nada, e emudeceu-se.
Continuamos nosso caminho... em silêncio. Longe do posto, o Robson começou a gritar comigo:
-Você não passa de uma puta. Parece que não pode ver rola. É assim que você queria um beijo...
Ia me beijar e depois dar pro primeiro que aparecesse!!!
-Se você tivesse me beijado, isso não teria acontecido!!! - Respondi no ato, irritado.
-Você não entende que eu não sou gay? - Continuou a gritar.
Eu fiquei calmo e falei serenamente:
-Então por que você está bravo comigo ?
-Eu não sei... - depois acalmou-se, e disse: - Será que você não entende que é difícil pra mim?
-O que é difícil pra você, Robson ?
- Vilser, eu gosto de você. Muito. Mas não é desse jeito, eu gosto de ficar com você... Estar ao seu lado. Pra tudo. Mas namorar, beijar, transar... Eu não sei se é isto!!!
Ficamos parados, em silêncio... meus olhos encheram-se de lágrimas. Eu não quis mais abrir a boca. Depois de mais alguns minutos, ele falou:
-Me deixa curtir você, ficar ao seu lado... Quem sabe um dia...
Não respondi. Fomos embora em silêncio. Eu peguei meu ônibus, e ele, pegou o dele depois.
...
No outro dia foi nossa folga.
No dia de serviço, cheguei mais cedo à loja. Haveria uma reunião com todos os funcionários da loja.
Eu fiquei sozinho na loja, todos os outros funcionários estavam na reunião, no segundo andar, inclusive a Alessandra e o Adriano.
O Robson chegou à loja, me cumprimentou, entrou e foi à reunião.
O Thomaz pediu para que ele descesse e ficasse comigo, e avisou que a reunião duraria uma meia hora.
Ficamos a sós na loja, eu e o Robson.
Peguei uma vassoura e dirigi-me ao salão principal dos clientes, para limpar o chão.
Ele veio atrás de mim... e me pediu a vassoura, no que respondi:
-Pra que você quer a vassoura?
-Para limpar o chão do Delivery... - ele respondeu.
-Pegue outra...
Ele parou na minha frente, e num movimento brusco, tirou a vassoura de mim, falando:
-Eu quero esta...
Ele saiu correndo... Eu, instintivamente, saí correndo atrás dele, tentando tomar a vassoura de volta.
Robson desviava-se de mim e eu continuava a correr atrás dele.
Num momento, ele se jogou no chão, abraçado à vassoura.
Eu sentei em cima dele, e tentei puxar a vassoura de suas mãos.
Ele me puxou sobre seu corpo, deixou a vassoura cair de lado, eu fiquei trêmulo, eu estava praticamente deitado sobre o corpo dele, sentindo cada parte do seu corpo... Seu calor...
Robson aproximou o seu rosto do meu, inclinou sua cabeça... Algo iria rolar.
O Thomaz apareceu.
O gerente principal acabara de descer as escadas, veio procurar algo para levar à reunião, achou o tudo o que não poderia ser visto... Eu em cima do Robson. Deitados no chão. Abraçados.
Entrei em choque.
Capítulo XIII
O Thomaz viu a cena, o Robson, seu sobrinho, deitado no chão, comigo em cima dele.
Apenas falou, num tom calmo:
- Vilser, por favor, venha até meu escritório...
Subimos as escadas.
Ele abriu a porta da sala de reuniões, entregou uma planilha na mão da Cláudia, a segunda gerente, e pediu que ela continuasse a reunião sozinha por alguns instantes.
Pediu também à Letícia para que descesse ao piso inferior, para tomar conta da loja com o Robson.
Entramos em sua sala.
Eu tentava manter a calma, apesar do nervosismo. Seja lá o que se passava pela cabeça de Thomaz, eu não iria abaixar a cabeça e levar toda a culpa, eu diria tudo o que o Robson fez...
O gerente principal começou a falar:
-Vilser. Eu, a Cláudia e a Letícia estávamos conversando sobre você, e concluímos que você já está bem preparado para assumir uma vaga de gerente em uma loja da rede.
Eu esperava qualquer assunto, menos um assunto profissional.
O Thomaz parecia não ter visto ou fingiu que não viu - a cena que acabara de presenciar na produção de lanches da loja.
Ofereceu-me uma vaga de segundo gerente na Zona Norte.
Segundo gerente... Eu seria mais importante do que a Letícia...
Explicou-me como seria, quais as vantagens e desvantagens da proposta.
No final, quando eu já não esperava mais nenhuma espécie de comentário sobre a cena ocorrida, ele emendou:
- Vilser. Eu gosto muito de você como pessoa e como profissional, por isso eu preciso te avisar:
Um gerente não pode ficar de brincadeira com funcionários. Do mesmo jeito que eu te vi de brincadeira com o Robson, um supervisor poderia tê-lo visto e não reagiria como eu agi, muito menos continuaria investindo em você...
Para que seja um bom gerente, é necessário que você pense como um gerente, e aja como um gerente.
Posso ter certeza de que não vou ver uma cena destas novamente ?
Balancei com a cabeça, sinalizando que sim.
Uma promoção... Eu estava recebendo uma promoção e não uma punição.
Ali naquele momento, descobri que o Sr. Thomaz era um cara muito legal. Ele gostava muito do meu trabalho, e dificilmente me mandaria para a rua caso soubesse que eu queria desviar seu sobrinho...
No máximo, ele faria o que realmente fez, afastar-me de seu parente, mas de modo que meu trabalho fosse reconhecido.
Nem tudo eram flores naquela história de promoção.
Eu era funcionário numa loja na Zona Sul. Com esta transferência, eu iria ficar muito longe de Robson. Como ele era do Sul do Brasil e não saía muito de casa, ele não conhecia São Paulo direito. Dificilmente nos encontraríamos novamente. Eu passaria a trabalhar em torno de 14 horas por dia.
...
Além disso, a bomba Adriano estourou.
Em dois dias, o único comentário que corria na loja era que Robson e eu ficamos juntos naquela madrugada de Sexta para Sábado.
Robson desmentia com ênfase. Vi que ele não estava preparado para encarar o mundo por mim.
Aos poucos, Robson começou a deixar de falar comigo.
O que também era culpa minha.
Por causa da promoção, eu enfiava minha cabeça no trabalho: não queria levantar mais suspeitas, nem sofrer por causa de um amor não correspondido...
Uma semana depois, eu fui transferido da loja da Zona Sul para a loja da Zona Norte.
No dia da despedida, Alessandra chorava muito. Abracei-a fortemente, como aos demais funcionários.
Não falei com o Adriano.
Estendi friamente a mão para o Robson. Vi seus olhos azuis brilharem mais uma vez... talvez aquela fosse a última vez em que eu olharia aqueles laguinhos.
No outro dia, eu comecei a trabalhar na nova loja.
Capítulo XIV
Se tornar um gerente não era a coisa mais fácil do mundo.
Tudo bem que o gerente principal da nova loja era até bonitão... parecia um Luciano Szafir de 1.90...
Seu nome era Maurício.
Mas o que o Maurício tinha de bonitão, tinha de exigente.
Pelo menos o triplo de exigência do que o Thomaz...
Qualquer pequeno erro cometido na loja, era motivo para um sermão de duas horas... A vantagem é que o Maurício era um cara extremamente profissional, assim como o Thomaz. Nada de gritaria pela loja, como a Cláudia e a Letícia faziam. Toda e qualquer bronca era dada somente nos bastidores.
Mas ele nunca teve grandes problemas comigo.
Dedicado no trabalho como eu estava devido ao que aconteceu comigo eu mal falava, só trabalhava.
Como eu seria o segundo gerente, era inevitável que conversássemos muito.
Até que ele resolveu falar sobre assuntos pessoais - família, vizinhança, etc.
De repente, no meio da conversa, ele solta:
-Vilser, escutei um papo por aí de que você é... - deixou no ar, como quem estava com vergonha de falar.
-Sou, sim! Viado, boiola, frutinha, e coisas do gênero... Pois é sou mesmo... - Falei, irritado... - Por quê? Vai me mandar embora por causa disto?
-Claro que não. Só queria puxar assunto. - Deu uma pausa, pensativo...- Quem sou eu para achar ou deixar de achar alguma coisa. Acho que as pessoas têm o direito de fazer o que querem.
A conversa continuou por um bom tempo. Rimos muito de várias coisas.
Falamos sobre tudo, sobre nossos amores do presente e do passado.
Ele era heterossexual. Tinha um caso com uma gerente de outra loja, mas que ninguém poderia saber... Pois ela era casada.
Já que os segredos estavam na mesa, falei sobre o Robson, quem ele era, tudo o que aconteceu...
Ele ria e muito.
Ele havia trabalhado em outra loja perto da onde eu trabalhava, e já havia recebido uma visita do Robson e do Thomaz.
Disse-me que as meninas da loja ficaram apaixonadas pelo Robson.
Os dias passavam-se a passos de lesma naquela nova loja.
Meu coração batia saudoso.
Mas era melhor que fosse daquele jeito.
Duas semanas depois...
O Maurício chega na loja rindo até as orelhas... E começa a falar, ofegante de felicidade:
- Vilser, tenho uma novidade pra te falar, cara!
Eu friamente, respondi:
-Fala, Maurício...
-Você tem visita! Olha na porta! - ele falou.
Era o Robson.
Capítulo XV
O Robson estava na porta da loja...
Meu coração batia tão forte, que acho que dava para escutar mesmo da distância onde ele estava.
E eu que queria fingir calma, indiferença...
Não podia deixar aquele rapaz perceber que eu estava com as pernas tão bambas.
Sair de onde eu estava era tão difícil.
Respirei fundo e resolvi aproximar-me dele...
Por mais que eu quisesse fingir que seu aparecimento ali era a coisa mais natural do mundo... Meu sorriso ia até a orelha. Aliás, até a nuca... Coringa perdia feio...
Ele estava ali, todo mauricinho, gel no cabelo, perfumado, parecia um sonho... Aliás, eu pedi para o Maurício me beliscar. Estava difícil acreditar.
Dirigi-me até a porta, e ele me viu...
Abriu um sorriso imenso, o que fez meu coração ficar mais acelerado do que já estava... A estas alturas, meu coração era um trio elétrico pulando sozinho...
- E aí, beleza? - Ele iniciou a conversa.
O Robson era muito pouco original. Não havia jeito de nos encontrarmos e ele dizer: Oi, tudo bem ?
Era previsível. Sempre o mesmo: E aí, beleza ?
- Beleza... - Criei forças e respondi... e ainda continuei: - Cara como é que você chegou até aqui ?
- Ué. Peguei um ônibus, um metrô e cheguei...
- E como é que você sabia em que loja eu estava ?
- A Alessandra sabia onde você estava. Aí, eu perguntei pra ela... Depois, peguei o telefone naqueles cardápios de delivery e liguei pra cá. Um dos atendentes me falou como chegar aqui...
- Pensei que a gente nunca mais ia se ver... - Falei, abaixando a cabeça, entregando o resto do que ainda restava de dignidade.
- Eu não vim antes porque eu achei que você estava bravo comigo... - ele falou, atencioso como só ele conseguia ser.
Eu olhei para trás, e observei que do balcão, o Maurício podia ver toda a cena. De camarote. Ele sorria e continuava a observar-nos.
O Robson interrompeu meus pensamentos:
- Você já almoçou ? Se desse para você dar uma saidinha agora, a gente almoçava juntos.
- Claro. Eu não almocei ainda... Espera só um momento. Eu vou avisar o Maurício. - falei, ainda trêmulo.
Eu não conseguia disfarçar que estava completamente derretido... Transbordava felicidade.
Falei com o Maurício...
O Maurício zombava de mim, dizia com um certo tom de deboche:
- Cuidado rapaz. Deste jeito você pode quebrar a cara...
Disso eu já sabia... Mas só o que eu queria naquele momento era estar perto do Robson...
Saímos do meu restaurante. Para irmos em outro.
- O que fez você vir ? - Acabei com o clima romântico - pelo menos o que eu imaginava existir naquele momento. A pergunta era inevitável... A resposta também:
- Ué. Eu não posso mais querer falar com você ? Precisa ter motivo ?
- Poder querer falar, pode... É que eu não estava mais afim de criar esperança nenhuma...
Houve uma pausa... E ele falou:
- Eu já te disse que não queria que a nossa amizade acabasse...
O papo da amizade de novo...
Aquilo me fez desanimar... Eu imaginando um encontro com direito a beijo romântico e tudo o mais...
Suspirei fundo e abaixei a cabeça.
Ele viu que eu estava um pouco decepcionado, e continuou a falar:
- Vilser. Será que você não percebe o quanto nossa amizade é importante para mim...
Ele colocou seu dedo indicador em meu queixo, para levantar a minha cabeça.
Em seguida, riu, tentou fingir que era autoritário, uma cena que ele sempre gostava de fazer, e falou:
- Olha nos meus olhos quando eu estou falando com você...
Seu toque era algo divino, quase irreal.
Não havia como não olhar para aqueles olhos, dois incineradores de chama azul...
- Eu não quero te prometer algo que eu não posso cumprir... Mas eu preciso de você... Seja meu melhor amigo... - Mais uma pausa... E continuou :- Eu não cruzaria esta cidade, vindo a um lugar que eu não conheço, se você não significasse nada para mim...
Continuamos, e depois desta cena, ficamos a falar bobagens...
Antes do fim da hora do almoço, ele perguntou se seria possível almoçarmos pelo menos uma vez por semana juntos... Para nos vermos.
Eu disse que tudo bem. Entreguei meus pontos. Eu já não conseguia recusar mais nada.
Mais um pouco e até me jogaria da ponte por ele...
Acordo feito, acordo cumprido.
Uma ou duas vezes por semana, encontrávamo-nos para almoçar juntos.
Eu sofria, porque sempre sonhava com um pouco mais.
Mas era o que eu podia ter.
Mas vejam... O cara que eu achava ser o mais lindo do mundo, dispensava horas da sua vida, atravessava a cidade, só para estar ao meu lado. E quando estávamos juntos, fazia o possível para me ver feliz e sorrindo. Ele não falava de mulheres. Nem olhava para elas.
Já era uma conquista.
Acho que eu podia dizer que a gente namorava, só que não havia um contato físico mais íntimo.
Desde que eu saí da antiga loja, continuei a conversar com a Alessandra.
Não a via pessoalmente, mas nos falávamos muito por telefone.
Era minha espiã naquela loja. Tudo o que o Robson fazia ela me falava.
Como um ser apaixonado procura sofrer...
Eu corria o risco de ouvi-la falar que ele estava namorando ou que saia com os outros rapazes, para continuar posando de macho convencional para eles...
Por sorte, isto não aconteceu.
Num belo dia...
Bem, não tão belo assim...
Um pouco mais de um mês depois que o Robson veio atrás de mim pela primeira vez, a Alessandra chamou-me para ir à praia.
Iríamos em um carro alugado, com mais três pessoas : um motoqueiro chamado Guilherme, o André o loiro bonitão que eu havia contratado, e uma outra menina, a Gisele.
Achei que seria uma boa idéia sair sem ter que pensar em Robson o tempo todo, sem ficar esperando algo a mais toda vez que nos víamos.
Na noite em que havíamos combinado, lá estávamos, todos os cinco, prontos para passar a noite na praia.
Aliás, seis.
A Alessandra convidou o Robson, sem me avisar.
Eu arregalei os olhos ao vê-lo.
Depois ela me disse ao pé do ouvido que havia o convidado primeiro, só por educação...
O Robson disse a ela que só iria se eu fosse junto.
Capítulo XVI
Claro que eu estava contente com a surpresa...
Apesar de tudo, era um momento a mais que eu iria poder ficar ao lado do Robson... Além dos nosso almoços...
Entramos nos carro, um Gol daqueles arredondados...
Seis pessoas num carro compacto.
No banco da frente foi o Guilherme, o motoqueiro e a Gisele (que era mais gordinha...).
No banco de trás, da esquerda para a direita estávamos sentados: Robson, André, Alessandra (que era magrelinha e sempre coube em quaisquer dez centímetros...), e eu.
Já fiquei meio incomodado logo de cara... Pensava por que cargas dágua o Robson não se sentou ao meu lado...
O começo do caminho foi tranqüilo, descemos pela Anchieta...
No trecho da serra, o André que já tinha bebido umas três latas de cerveja, queria que o carro parasse a qualquer custo, estava doido para mijar no mato...
Ele desceu, e a Alessandra me abraçou, falando:
-Que noite linda...
O Robson se aproximou de mim, esperou a Alessandra voltar para o carro, e antes que entrássemos novamente disse baixinho...
- Eu acho que esta noite está com um ar diferente, você não acha?
Eu ri, e falei:
- Só me resta torcer para que esteja mesmo...
Prosseguimos viagem.
Quando já estávamos na pista que dá acesso a Praia Grande, o carro voa sobre uma lombada mal sinalizada, e aterrissa uns metros depois... (tudo bem, é um exagero para animar a história, foram só uns centímetros...)
Nenhum ferido.
Mas foi o suficiente para o carro quebrar.
Ficamos na rodovia mesmo, procurando uma oficina aberta... Nos dividimos em dois grupos: Guilherme, Gisele e André, no primeiro, e Robson, Alessandra e eu, no segundo.
enviada por Vilser
12/02/2005 23:14
Capítulo XVII
Se o primeiro grupo procurava avidamente por uma oficina, o nosso grupo já foi entrando dentro do primeiro bar que encontrou.
Começamos a calibrar logo de cara, já que não iríamos dirigir mesmo.
Ainda assim, o Robson estava quieto demais naquela noite...
Eu não sabia se era porque a Alessandra estava próxima, ou se era porque ele maquinava algo naquela cachola...
Como não achamos nenhuma oficina entre o carro e o bar, voltamos para o carro. O primeiro grupo já havia voltado...
Eles encontraram uma oficina que ficava aberta a noite toda (acho que foi esta oficina que colocou aquela lombada sem sinalização, pois o conserto do carro ia ficar uma fortuna...)
Levamos o carro até esta oficina, e como o carro só ficaria pronto de manhã, seguimos a pé até a praia... Que ficava a uma hora daquele local.
Depois de muito tempo de caminhada, comecei a reconhecer o local, já faltavam poucos quarteirões para chegarmos à praia, foi quando o André tirou uma coisa do bolso que me deixou meio sem graça.
Era um baseado.
Honestamente, eu nunca simpatizei muito com usuários de quaisquer tipo de drogas... Nunca achei que elas pudessem ser necessárias para me fazer feliz.
O loiro bonitão que eu contratara, decepcionava-me mais uma vez. Mas cada um leva a vida que quer... Não me roubando na hora em que precisar de dinheiro para sustentar seu vício...
O Guilherme, o motoqueiro, resolveu dar um tapinha.
Guilherme era o mais velho de todos nós. E só não era o mais bonito porque a concorrência era desleal: De um lado, o Robson com seu corpo malhado, cara de italiano mafioso, tipo Andy Garcia e seus olhos azuis, do outro lado, o André, 1,86m, louro, olhos verdes escuros, magro mas com aqueles ossos bem grandes e fortes...
Mas nenhum dos dois era tão másculo e com jeito de macho no cio do que o Guilherme, cabelos pretos encaracolados, olhos verdes claros. E uma cara de tarado que só ele tinha. O motoqueiro era do tipo que enfia a mão na mala para arrumar o tempo todo. Os outros dois eram dois adolescentes perto dele.
Gisele, doida para dar para o motoqueiro, pegou no cigarro e deu uma tragada.
Depois, ofereceu à Alessandra, que recusou.
Perguntou se eu ou o Robson estávamos a fim.
Também não quisemos experimentar.
Há alguns metros, sei lá por que motivo ou razão, o André fez uma pergunta ao Robson:
- E a sua namorada, a Vanessa, quando que você vai trazê-la para a conhecermos ?
Foi como sentir cinqüenta apunhaladas de uma vez só...
Capítulo XVIII
Eu fiquei meio zonzo com aquele papo do André em dizer que o Robson tinha uma namorada.
Não era possível. Neste dia em que fomos à praia, eu já conhecia o Robson fazia uns seis meses. Ele nunca havia comentado nada comigo. Se ele tivesse mesmo uma namorada, e eu fosse tão amigo dele como ele dizia, claro que ele teria dito a mim primeiro...
A Alessandra também não sabia. Parecia mais indignada que eu, inclusive foi a primeira a perguntar:
- É sério, Robson? Como você nunca nos disse que tinha uma namorada?
Ele ficou com aquela cara de quem comeu e não gostou.
A leve embriaguez que nos deixara animados desaparecera por completo.
Ele respirou fundo, e começou a falar, olhando para lugar nenhum:
- É. Eu namoro a Vanessa faz uns dois anos. É que eu não sou de falar muito sobre minha vida pessoal, vocês sabem disso...
E era verdade. O Robson falava sobre muitas coisas. Era uma matraca.
Mas era muito reservado ao falar para qualquer pessoa sobre amigos, parentes e outros relacionamentos. Comigo ele até se abria mais... Mas ainda assim, não era uma porta escancarada.
O André era lindo, mas muito arrogante e burro. Não sabia que havia um mundo ao seu redor. Jamais perceberia o que eu sentia pelo Robson para falar aquilo propositadamente. Ele falou naturalmente, apenas para puxar assunto.
Eu ficava a cada minuto mais tonto. O coração em frangalhos.
Tentei mudar de assunto. Tentei acreditar que fosse uma mentira. Até para poupar a mim mesmo.
Mas a ansiedade e o nervosismo não permitiram.
Chamei o Robson de canto, e falei baixinho, pedindo-lhe que olhasse em meus olhos como ele fazia comigo:
- Robson, você tem mesmo uma namorada? Ou você falou isto só para despistar o pessoal da loja, para acabar com os comentários que havia sobre nós?
Ele tentou desviar os olhos de mim, e falou baixinho:
- Vilser. Vamos mudar de assunto. Não me faça estragar sua noite...
Suspirei com o resto de forças que ainda havia em meus pulmões. Minha voz já não saía direito, quando eu disse:
- Então é verdade. E você ainda disse isso ao André, e não falou para mim...
- Ele me perguntou. E eu respondi, ué! Robson falou, ainda sussurrando.
- E a quanto tempo você namora? - Perguntei, sussurrando mas irritado.
- Dois anos...- Robson falou, e voltou a olhar para o nada.
Saí de perto do Robson.
Voltei para perto das outras pessoas.
Ele veio atrás.
Pedi um trago do baseado ao Guilherme.
O Guilherme fez uma cara de espanto. Assim como o Robson e a Alessandra esta fumava que nem uma chaminé, mas nunca experimentara qualquer tipo de droga ilícita.
Aspirei fundo aquele papel enroladinho sabe lá Deus com o quê...
O resultado não poderia ser muito bom, afinal de contas eu já havia bebido.
O Robson, que também nunca fazia nada de errado neste sentido, puxou o cigarro de minhas mãos quando eu o trazia próximo à boca para uma segunda tragada, e ficou segurando com ar de incomodado. Parou de andar.
Todos nós paramos na rua, e ficamos olhando para ele...
Ele colocou o cigarro na boca e deu uma tragada também.
Eu sentia que ele me tinha como exemplo. Já aconteceram situações semelhantes em que ele só fazia algo depois que eu desse o aval ou que eu fizesse primeiro.
Ele ofereceu o cigarro novamente a mim, com cara de tristeza.
Eu tirei da mão dele, e o cigarro que havia estado em sua boca agora estava na minha novamente. Traguei novamente.
Eu comecei a rir.
Rir de dor, rir de raiva, rir de sofrimento. Eu não sei como alguém seria capaz de rir de desespero. Mas eu ri.
A Alessandra veio me acudir:
- Vilser, você está legal ?
Eu ria mais, e mais.
E comecei a andar para trás, até dar as costas para eles, eles ficaram olhando. Continuei a andar e num repente, comecei a correr, desembestado, eu estava fugindo.
Eu estava fugindo do Robson.
Eu queria fugir da minha vida. Da vergonha de ter me iludido tanto.
Como eu não percebera que não dá para lutar contra o destino?
Não bastava vencer Iara e o Adriano. Era preciso vencer o próprio Robson.
Ele era heterossexual. Eu imaginava coisas o tempo todo, vivia um amor que não existia, acreditando que era somente falta de coragem da parte dele, mas que com o tempo, tudo se acertaria.
Bêbado, levemente drogado, eu corria em direção à praia.
Por mais fora de mim que eu estivesse, eu tinha plena consciência do que fazia... Sabia que havia um trecho da praia, na divisa entre Praia Grande e Itanhaém onde a praia não era urbanizada...
Um trecho ermo, vazio, escuro... Mas na época, os bandidos ainda não eram tão numerosos naquela região, embora fosse perigoso do mesmo jeito.
Eu não pensava no perigo, eu queria morrer mesmo.
Cheguei ao lugar. Estávamos fora da época de temporada. Era inverno.
Mas era daquelas noites de inverno de exceção, não era uma noite fria.
O céu estava claro. A lua cheia, imensa, azulada, iluminava todo aquele trecho.
Eu até preferia que estivesse mais escuro. Para que não passasse pela cabeça de ninguém passar por ali, nem um morador daquela região.
Sentei na areia.
Pegava a areia pelas mãos e espremia-a entre os dedos.
Pela primeira vez naquela noite, consegui chorar.
Chorava e socava a areia em paz, tendo apenas a lua e o mar como testemunhas.
Fiquei ali durante muito tempo, pensando, chorando e socando.
E tinha umas alucinações estranhas, achava que a lua conversava comigo.
Embora eu ache que nem era necessário eu estar drogado para tanto, eu nunca bati muito bem da bola mesmo...
Levantei-me e resolvi aproximar-me do mar. Colocar meus na água.
Quem sabe haveria coragem o suficiente de entrar, e nunca mais sair.
Coloquei os pés na água.
Embora fosse uma noite muito agradável, a água estava gelada.
Realmente, eu nunca conseguiria me suicidar. Concluí que morrer deve doer muito.
Mas fiquei parado, olhando para longe, e observando os elefantinhos verdes que atravessavam ao mar.
De repente eu olhei para o lado, e tive mais uma alucinação. Vi o Robson correndo em minha direção.
Irritei-me com minha própria alucinação. Já que era um devaneio mesmo, porque eu não enxergava o Brad Pitt... Lindo, loiro e forte... Chegando para me consolar.
O problema é que a alucinação não foi embora. Pior, ela continuava a aproximar-se de mim.
Pior ainda, quando a alucinação chegou perto, ela se pôs a minha frente e empurrou-me para o chão.
Sentado na areia, gritei...
- Caralho!! Mas até minha alucinação tá a fim de me derrubar hoje!!!
Não era alucinação porra nenhuma! Era a besta do Robson mesmo.
Já imaginei que ele devia ter ficado puto porque eu demonstrei que ficara louco de ciúmes por causa da sua namorada, isso na frente de todo mundo. E aí apareceu naquele momento para me socar até a morte...
Capítulo XIX
Eu fiquei ali sentado na areia da praia.
Fiquei esperando pela surra.
Sinceramente, eu não queria saber de mais nada.
Mesmo que eu apanhasse, eu não me sentiria pior do que já estava.
Em pé, a uns dois passos de distância de mim, o Robson olhou fixamente para minha cara, com cara de quem estava muito bravo, mas obviamente estava menos fora de si do que eu.
Eu alternava meu olhar, ora olhava para ele, ora visualizava o mar, vendo os elefantes verdes...
Robson, que estava de frente para mim, suspirou profundamente. Virou-se, afastou um pouco, ensaiou uma corrida, e deu um chute na areia, levantando uma nuvem de pó. Acho que descontava sua fúria.
Parou, pôs as mãos na cintura, e ficou balançando a cabeça, fazendo sinal de negativo.
Agachou-se subitamente. E sentou-se na areia, de costas para mim.
Agarrou um punhado de areia, e atirou-a em direção ao mar, fazendo nova nuvem de pó.
Eu falei:
- A areia não vai acabar... Pára de jogar ela fora...
Ele virou levemente a cabeça, fez cara feia e com voz de irritação, quase gritando, sem olhar para trás:
- O que você ia fazer?
Fiz cara de pouco caso, e respondi:
- Eu não ia fazer nada. Eu ia entrar na água. Mas ela está muito gelada...
Ele levantou-se, e veio em minha direção.
Eu continuei ali, sentado. Indiferente à aproximação dele. Eu estava com os braços para trás, apoiando o tronco e com as pernas esticadas, pouco abertas.
Robson ficou bem à minha frente. Quase pulando, abriu as pernas sobre mim, e ajoelhou-se, quase sentando em meus joelhos...
Como ambos estávamos de bermuda, senti os pêlos daquela perna musculosa esfregando-se nos meus.
Ele vestia ainda uma regata e tênis não tínhamos a intenção de entrar no mar mesmo.
Eu estava de camiseta e descalço, pois tinha tirado meu tênis para entrar na água.
Ele colocou as mãos em meus ombros e perguntou, ainda num ar levemente incomodado:
- Por que você faz isso comigo?
Fiz cara de poucos amigos:
- Você achava que eu ia ao seu casamento, que veria seus filhos nascerem, crescerem e permaneceria sempre ali do lado, vendo tudo sem poder te ter ? - respondi, sem olhar para seus olhos.
- Desculpa cara, mas eu sou só um ser humano.
Não chorei, mas meus olhos encheram-se novamente de lágrimas.
- Vilser. - Ele falou baixinho. Como era gostoso ouvi-lo dizer meu nome. Sua voz agora tinha um tom mais triste, era só um pouco mais alta que um sussurro. E continuou:
- Cara, eu já pensei várias vezes em nunca mais falar contigo. Até porque eu não sou tão mal quanto você deve imaginar que eu sou. Sei que não é fácil ficar perto de uma pessoa que a gente quer, mas não pode ter.
Eu tentava desviar meus olhar para longe daqueles olhos extremamente sedutores.
Provavelmente porque eu não queria que ele me visse chorando. E ele continuou a falar:
- Só que eu gosto muito de você, cara. Se você quer saber, eu não confio em mais ninguém neste mundo. Você acha que o tio Thomaz me ajuda ? Você acha que minha namorada me está do meu lado?
Eu não posso contar com ninguém...
Todo mundo só sabe me testar e me testar a cada dia, e exigir de mim que eu seja melhor do que todo mundo, e exigir que eu me supere a cada dia.
Você é a única pessoa que me trata como eu gostaria de ser tratado.
Eu sinto que você gosta de mim como eu sou. Não exige que eu mude isto ou aquilo, não exige que eu seja mais responsável, que eu tenha que mudar para agradar a ninguém.
Ele me abraça, e se senta sobre minhas pernas...
Ele era forte. E pesado...
Mas era um abraço tão gostoso.
Eu sentia em cada detalhe aquele corpo quente, o qual eu sempre desejei. O corpo que eu sempre sonhei em tocar. Sempre desejei cada milímetro, cada pêlo daquele corpo maravilhoso.
Ele afastou um pouco o corpo, e continuou:
- Você é a pessoa mais importante para mim neste mundo, cara.
Eu queria amá-lo com a mesma força que eu sei que você me ama.
Mas eu estou confuso. Eu nunca gostei de homens.
Já servi o exército, já estudei em colégio interno só com outros rapazes, mas nunca passei por isto.
Eu não sei se estou disposto a enfrentar o mundo. Não sei dizer se sinto tesão por você. Eu não entendo o que eu sinto.
Só sei que eu quero você do meu lado. Sempre por perto.
Ele pôs a mão no meu rosto, segurou meu queixo, inclinou seu rosto e deixou nossos lábios se tocarem.
Ele estava tremendo e suando frio. Mas estávamos nos beijando.
Foram poucos segundos, quando ele afastou o rosto, começou a rir e disse:
- É muito estranho beijar uma boca com pêlos, arde o rosto.
Isso porque eu tinha feito a barba na manhã daquele mesmo dia. E meu rosto fica liso quando me barbeio.
Imagine se ele beijasse um homem como ele. Robson é daqueles homens que mesmo fazendo a barba todo dia, o rosto continua escuro, com os pêlos por nascer. O que sempre contrastou muito com seu rosto branco e olhos azuis.
Eu já havia beijado outros homens antes dele. Então, nem liguei para os arranhões que a barba dele me faziam.
Com o Robson, não foi um beijo de língua. Apenas um demorado toque molhado de lábios. O gosto era de um néctar nunca antes provado. Fiquei tão excitado que tive uma ereção que durou até muito depois do beijo.
Nem me preocupei em disfarçar. Ele fingiu que não viu. Seu pênis também animou-se um pouco, mas acho que o medo e o nervosismo eram maior que o tesão.
Ele se levantou e estendeu a mão:
- Vem, vamos atrás do povo, eles também devem estar preocupados, este lugar é barra pesada...
Segurei em sua mão e me limpei, e em seguida falei:
- Mas é só isso? E o cavalo branco? E a música de fundo que não tocou?
Ele riu. E não respondeu. Apenas me puxou pelas mãos para sairmos daquele canto escuro da praia.
E logo em seguida soltou minha mão. Não queria criar polêmica com a galera. Eu nem liguei. Fui do inferno ao paraíso em segundos.
Quando saímos da parte escura da praia, vimos um carro estacionado na orla, que tocava uma música das Spice Girls.
Robson riu, e em seguida falou:
- Vilser, eu acho esta música legal. Então, já que você estava reclamando, ela fica sendo a nossa música, beleza?
- Spice Girls... Que mal gosto cara... Mas tá valendo...
VIVA FOREVER
Um viva para sempre
Do you still remember, how we used to be
Você ainda se lembra como nós éramos?
Feeling together, believing whatever
Sentindo juntos, acreditando em tudo
My love has said to me
Em que o amor dizia
Both of us were dreamers
Nós éramos sonhadores
Young love in the sun
Um jovem amor ao Sol
Felt like my saviour, my spirit I gave you
Senti-me sendo salvo, entreguei-lhe meu espírito
We'd only just begun
Nós estávamos apenas começando
Hasta Mañana, always be mine
Esta manhã, sempre será minha
Viva forever, I'll be waiting
Viva para sempre, e estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, enquanto durar o Sol
Live forever, for the moment
Viva para sempre, até o momento
Ever searching for the one
Em que encontraremos um ao outro
Yes I still remember, every whispered word
Sim, eu ainda me lembro
The touch of your skin, giving life from within
Do toque da sua pele, transmitindo vida através dele
Like a love song that I'd heard
Foi tudo como uma canção de amor que ouvi uma vez
Slippin' through our fingers, like the sands of time
Desmanchando entre nossos dedos, como as areias do tempo
Promises made, every memory saved
Promessas foram feitas, cada lembrança foi guardada
Has reflections in my mind
Fazem parte da minha mente
Hasta Mañana, always be mine
Esta manhã... será sempre minha
Viva forever, I'll be waiting
Viva para sempre, e estarei esperando
Everlasting, like the sun
Para sempre, enquanto durar o Sol
Live forever, for the moment
Viva para sempre, até o momento
Ever searching for the one
Em que encontraremos um ao outro
Back where I belong now, was it just a dream
De volta a onde estou agora, reparo que tudo foi um sonho
Feelings unfold, they will never be sold
Os sentimentos vividos, eles nunca se perderão
And the secret's safe with me
Estes segredos estarão sempre a salvo comigo
Viva forever, I'll be waiting
Everlasting, like the sun
Live forever, for the moment
Ever searching for the one
Agora que eu sabia que havia um novo fio de esperança, era hora de mudar o jogo. Eu tinha que provar ao Robson que havíamos nascido um para o outro.
Naquele instante resolvi que estava disposto a encarar o vilão maior desta história, a Vanessa, namorada do Robson.
E provavelmente não adiantaria de nada tentar separá-los sendo bonzinho.
Venci Adriano e Iara usando malvadezas inocentes.
Era hora de Anakin Skywalker transformar-se em Darth Vader, para derrotar um inimigo extremamente mais poderoso... A sociedade está do lado do casamento heterossexual tradicional.
Se eu não jogasse sujo, o Robson iria querer manter as aparências para sempre, enquanto eu o veria sempre com aquela garota.
Começaria a maior de todas as minhas batalhas.
Capítulo XX
Voltamos para a companhia das outras pessoas.
A galera preferiu não tocar no assunto. Talvez porque de nada adiantaria querer saber o que havia se passado pela minha cabeça. Ou então porque era óbvio demais. Ou então porque ninguém se importava mesmo, já que queriam mais era beber e se drogar, e não ficar se importando com o sentimento dos outros.
A noite prosseguiu sem transtornos.
Porém o Robson havia se tornado ainda mais atencioso, queria realmente viver cada momento ao meu lado.
Corríamos pela areia, jogávamos água um no outro... Dávamos uma atenção maior do que o normal um ao outro.
O Guilherme ficou com a Gisele.
Entretanto, de vez em quando, entre um amasso e outro que ele dava na menina, ele olhava para mim e para o Robson e sorria com uma das pontas dos lábios.
Parecia que maquinava algo. Naquele momento eu não consegui entender se ele planejava algo contra um de nós, ou se ficava excitado, imaginando o que havia entre nós. O que fizemos escondido deles Se é que realmente ninguém mais viu...
Estiramos nossas camisas na areia para tentar tirar um cochilo.
Com o carro na oficina, éramos obrigados a dormir na areia mesmo.
Eu deitei primeiro no chão.
A Alessandra, de biquíni, deitou-se sobre meu braço direito.
Como estava chateada por não ter conseguido ficar com o André, resolveu deitar ali ao meu lado e começou a conversar baixinho, querendo saber para onde eu havia ido...
Porém, para minha surpresa, e de todos os presentes, o Robson se aproximou, tirou a sua camisa também e deitou-se ao meu lado, colocando sua cabeça sobre meu braço esquerdo.
Para que ninguém ficasse muito chocado com a atitude dele, ele fingia continuar bêbado ou ainda estava mesmo...
Mas eu e a Alessandra não podemos continuar nossa conversa.
Não cheguei a adormecer... Cochilei de leve.
Difícil foi ter que pensar nas coisas mais broxantes da face da terra - como uma vovó de pijamas ou um caranguejo que apareceria a qualquer momento para nos beliscar afinal de contas, por várias vezes eu comecei a ter uma ereção com o cara que eu amava deitado nos meus braços... E usando bermuda todo mundo perceberia.
Mas no meio da madrugada, como começou a esfriar, o Robson virou de lado, colando seu rosto em meu peito. E através da minha cintura, senti um volume que começava a crescer dentro de sua bermuda.
Aí não tem cristo que agüente... Meu amigo de dentro da cueca queria saltar para um passeio noturno, o pior é que estava dolorido. Eu não podia ajeitar o pênis dentro da cueca, porque num braço estava deitada a Alessandra, e no outro, o Robson.
Quando estava mais frio, ninguém agüentou... Levantando para vestir nossa camisas e ir até a oficina, ver se o carro estava pronto.
Com o carro pronto, resolvemos passear pela cidade com ele.
Dentro do carro, Robson disse que estava com calor e tirou a camisa novamente.
Só que desta vez ele estava ao meu lado.
Cada momento de contato, era melhor que o outro.
Capítulo XXI
O Robson realmente tinha atitudes muito estranhas para um rapaz que acreditava ser exclusivamente heterossexual muitas vezes, ele tinha medo de demonstrar afeto por mim, para evitar comentários, entretanto, havia momentos em que ele mandava o mundo à merda, como naquele dia na praia, onde ele se deitou ao meu lado, em cima do meu braço.
Aquilo criava uma nuvem de insegurança do tamanho de duzentos mamutes sobre a minha cabeça: Será que um dia, se ele realmente gostasse de mim ele venceria seus medos?
Não poderíamos ficar o dia inteiro na praia.
Logo no começo da tarde, deveríamos voltar para a loja onde Robson trabalhava, pois quase todos trabalhariam, apenas duas pessoas estavam de folga: Eu e a Alessandra.
Mas não podíamos deixar de honrar o Sol, que estava disposto a nos brindar com sua presença naquele dia atípico de inverno: Sem nenhuma nuvem no céu.
Depois de algumas volta de carro, resolvemos tomar um banho de mar. Não havíamos entrado na água ainda. Durante a madrugada, eu havia ficado somente na intenção. Quando brincamos um pouco, no máximo havíamos molhado os pés.
Nem Robson nem Alessandra estavam com bronzeador. Mas como eu imaginava que poderíamos ficar mais um pouco e tomar sol, eu havia levado o meu.
A Alessandra foi a primeira a passar, mal começou e já veio pedindo, em tom infantil:
- Vilser, passa um pouquinho nas minhas costas, vai, eu não alcanço.
Eu já atendi prontamente ao seu pedido, entrando na brincadeira:
- Claro meu amor, o quanto você quiser.
O Robson já foi logo falando:
- Ih, vai acabar tudo, vê se deixa pra mim... - fez uma pausa e continuou:- Se bem que a Alessandra é tão magrela que para acabar com o creme, leva uns dez anos, dá para usar em umas duzentas Alessandras, pelo menos...
A gente começou a rir.
Mas o André ficou um tanto emburrado.
Eu não entendi se ele estava com ciúmes, porque queria ficar com ela, ou se estava fazendo graça. Existem pessoas extremamente mais complicadas do que parecem, além do Robson.
Depois de passar na Alessandra, eu comecei a passar em mim.
O Robson tomou o frasco da minha mão, e falou:
- Vocês esbanjam demais, quero ver se vai sobrar pra mim... Pode deixar que eu passo nas suas costas, vai ter que dar para nós três...
A Alessandra riu, o frasco estava quase cheio... Nunca acabaria apenas com três pessoas.
O que mais me surpreendia, era que nenhum homem que tanto queria preservar sua imagem de macho perante os colegas arriscaria passar bronzeador no corpo de um outro homem.
E foi o que ele fez.
Não foi nada tão excepcional, sua mão não percorreu as partes do meu corpo que tanto eu queria que elas explorassem. Afinal de contas, ele já não estava bêbado, não haveria desculpas ali naquele momento.
Mas foi inevitável sentir um prazer de outro mundo com aquelas mãos em mim.
Eu fechei os olhos e imaginava que estávamos a sós, sentindo sua mão forte mas muito macia percorrendo minhas costas.
Abruptamente, ele parou. Abri os olhos.
Ele jogou o frasco de protetor em minhas mãos e falou:
- Pode passar nas minhas agora...
Eu olhei em volta... Engraçado. Achei que haveria linchamento, que todos estavam nos olhando. Nada. Cada um estava cuidando da sua própria vida naquela praia.
Talvez o modo como estávamos agindo, sem nenhum carinho excepcional, sem delicadeza no trato, fazia com que nenhuma dúvida surgisse na cabeça das pessoas.
Passei o bronzeador no corpo dele, e mais uma vez fui ao delírio, sentindo cada pedaço daquelas costas largas, que não pareciam ter fim, tantos músculos haviam.
Nem o André, nem a Gisele estranharam a atitude do Robson. A Alessandra já sabia o que eu sentia por ele. E ficava cada vez mais espantada com as atitudes dele.
Já o Guilherme... olhava várias vezes com o canto dos olhos para avaliar cada passo que dávamos, cada toque que dava em Robson.
Sem maiores contratempos, curtimos e depois subimos a serra.
Guilherme me deixou em casa, e depois seguiu rumo à loja.
Robson descobriu onde eu morava. Guilherme também.
Marquei de me encontrar com a Alessandra mais a noite, já que estávamos de folga.
Combinaríamos o que eu faria para dar um fim no namoro de Robson e Vanessa.
Capítulo XXII
Passei o resto daquele dia dormindo.
Às sete horas da noite, conforme combinado, encontrei-me com a Alessandra num barzinho da Avenida Paulista.
Começamos a conversar sobre o que aconteceu na noite anterior, perguntei como o Robson havia me achado...
-Você saiu correndo, rindo que nem um louco. Eu fiquei desesperada. Eu lá ia saber para onde você poderia ir no meio da noite? Comecei a gritar por você...
- É, eu me lembro... - Comentei.
- O Robson olhou para a minha cara, disse para ficarmos pela Praia da Cidade Ocian... e antes que você sumisse por entre os prédios, ele saiu correndo atrás de você...
- E vocês ficaram esperando lá na praia da Ocian ? Houve algum comentário sobre minha atitude?
- O André falou que você devia ser fraco para agüentar a Maconha... A Gisele falou que você só queria aparecer - Rimos - - E o Guilherme, uns vinte minutos depois, disse que ia procurar por vocês... Já que ele conhecia bem a praia...
- O Guilherme? E ele disse se havia nos encontrado?
- Ele demorou para voltar. Voltou calado, estava tomando uma cerveja, perguntamos se ele havia encontrado alguém... Apenas balançou a cabeça dizendo que não. E disse: Ah, eles devem estar bem, logo, logo aparecem... Um pouco depois, acho que nem cinco minutos, vocês chegaram.
- Será que ele me viu com o Robson? - perguntei, mas já jogando o que realmente acontecera...
- Por quê? Vocês estavam por perto? - Alessandra perguntou-me.
- Eu corri para depois da praia Mirim... E o Robson me encontrou por lá... É um lugar meio deserto, porque não é urbanizado... - Eu disse.
- E...
- Nada de mais, eu ia entrar na água, mas a água estava fria. Então não entrei. Eu ia ficar tomando sol, mas estava de noite. Aí como eu não tinha muito o que fazer por lá, eu beijei a boca do Robson...
- O quê? Você é louco? E ninguém viu? - Alessandra gritava de euforia, estava muito feliz por mim, e muito descrente, uma vez que também já não esperava mais nada depois de saber que o Robson tinha uma namorada... - E ele, deixou você beijá-lo?
- O pior é que foi ele que chegou e tomou a iniciativa... Eu não seria besta de tentar forçar nada com um cara que é muito mais forte que eu...
- Ai, Vilser. - Ela se contorcia de tanto rir... Depois, uma seriedade um tanto maléfica tomou conta de seu semblante, e ela falou:
-Isto significa que já andamos meio caminho para acabar com o namoro deles, afinal de contas, ele gosta de você o suficiente para beijá-lo... Então ele não é tão heterossexual assim. Heterossexuais não beijam homens na boca...
- Mas, Alessandra o que eu iria fazer para separá-lo dela? Colocá-lo contra a parede é ela ou eu?
- Não, o que nós poderíamos fazer é com que ele pegasse raiva dela, ou o contrário, que ela pegasse raiva dele, minando o relacionamento deles.
- E isso como? Fazendo macumba? - falei e caí na risada...
- Sabe que não é uma má idéia? - Ela me respondeu, um pouco mais séria do que eu achava que o assunto merecia...
- Alessandra, eu não acredito nestas coisas... - respondi, ainda rindo um pouco.
Uns segundos de silêncio depois, ela disse:
- Mas você confia em mim, não é?
Ela ficava cada vez mais séria, então eu continuei, sério como ela:
- Já que você pretende fazer um despacho, então vê se faz um despacho ecológico, nada de matar bichinhos para os santos. Ou então faz um cheio de pinga, eles gostam destas coisas.
Pensando bem não bota muita pinga não senão é capaz deles ficarem muito loucos e colocarem a Vanessa pra se apaixonar por mim...
- Vilser, você está brincando com estas coisas... - ela me interrompeu antes que eu soltasse mais uma pérola...
- Tá bom, já que você acredita tanto, acho que tudo vale a esta altura... - falei como quem não tem mais nada a perder... - Mas então o que eu faço?
- Consiga o nome completo dela para mim... Do resto eu cuido...
Capítulo XXIII
Claro que aquela situação era complicadíssima.
Conseguir o nome completo da namorada do Robson para colocar na macumba...
Aquilo estava longe de ser do meu feitio, afinal de contas, embora eu não tivesse uma religião definida, cresci rodeado de pessoas na família com forte tradição cristã, muitos católicos e evangélicos fervorosos que defendiam que fazer coisas deste tipo era fazer uma espécie de pacto com o demônio.
Conceber aquilo era ir contra tudo o que eu havia aprendido durante toda a minha vida.
Por outro lado, estas mesmas religiões em que eu tanto acreditava, sempre foram as primeiras a querer apedrejar pessoas que pensam como eu, que gostam de pessoas do mesmo sexo. É como se estas religiões fossem donas da verdade absoluta e agem exatamente como aqueles que perseguiram a Cristo, sem um pingo de amor ao próximo que o mesmo Cristo tanto pregara...
Se estas religiões fazem exatamente o contrário daquilo que elas pregam, porque eu não poderia tentar fazer algo que talvez desse certo? Algo que poderia realmente trazer a pessoa que eu amo para perto de mim...
Errado por errado... então vamos meter o pé na lama...
Após alguns minutos de silêncio, continuei a falar com a Alessandra:
- O nome completo da Vanessa... Mas pra quê? Os santos vão aproveitar e colocar o nome dela no SPC? Aí ela vai estar tão endividada que vai esquecer o Robson?
Alessandra riu,
-Vilser. Deixe de ser imaturo. Senão, aí é que não vai dar certo mesmo. Tente acreditar em mim. Do resto eu cuido, eu já falei.
- Alessandra, como que vou conseguir isto? Vou chegar pro Robson e falar: - Oi Robson, eu queria o nome completo da sua namorada... Sabe o que é? É que eu quero comprar um carro para mim no nome dela...
- Calma, Vilser. Vamos pensar numa maneira. O nome completo do Robson até eu já sei, aparece lá na relação de funcionários do cartão de ponto, mas o mais difícil vai ser conseguir o nome dela... Mas nós temos que dar um jeito...
- Alessandra, não que eu me importe muito, mas o que você vai fazer ? Também não quero que a vida da moça vire um inferno, nem que ela morra ou passe fome... Só quero um fim de namoro básico, e que ela arrume um homem melhor que o Robson... Afinal de contas, eu estaria fazendo um favor para ela... Melhor se casar com um cara que nunca tenha se permitido ficar com um homem antes. Que deixe as roupas jogadas pela casa, fique enfiado no bar o dia inteiro, que bata nela ao chegar em casa... Ou seja, um homem normal como toda mulher sonha...
- Concordo com você, estaremos fazendo um favor a ela... Afinal de contas, depois da primeira vez, é capaz de ele cair na tentação de ficar com outro homem novamente.
Levantei várias outras hipóteses de como conseguiríamos o nome completo dela, mas nenhuma convincente o suficiente.
Seguimos para casa, e durante a semana continuamos a matutar como levaríamos nosso plano adiante.
...
Cinco dias depois, o Robson apareceu na minha loja novamente.
Almoçamos juntos como costumávamos fazer uma vez por semana.
Depois do almoço, enquanto voltávamos a loja, ele começou a gaguejar um tanto nervoso:
- Vilser, eu queria te pedir uma coisa, mas fico com medo de que você fique muito bravo...
Caramba, o que pode ser ? pensei eu. Mas pedi para que ele prosseguisse, afinal de contas, se era para acabar algo, se era para que deixássemos de nos falar, que fosse de uma vez...
- Vilser, é a Vanessa...
Buceta, caralho, maldição!!! Pensei Aposto que ele quer se casar e quer que eu seja o padrinho... mas eu só vou se for para botar fogo no vestido de noiva dela, é claro que eu boto!!! Até ela virar carvão. Maldita!!! - Mas falei apenas:
- O que tem a Vanessa?
- Ela ficou curiosa em te conhecer, diz que eu falo muito em você...
- Você fala de mim? Robson, o que você fala de mim para ela, homem de Deus?
- Calma, eu não falo nada de mais... Só falei que nós somos muito amigos, que conversamos muito, falei que almoçamos juntos, que saímos juntos, que confio plenamente em você... Ela ficou feliz em saber que tenho um anjo da guarda, aqui em São Paulo. E quer conhecê-lo. Ela insistiu muito, por isso, eu resolvi falar para você. Mas claro que se você não quiser... eu invento uma desculpa...
Desculpa? Ódio? Não... Pelo contrário... Mas que situação mais conveniente... Eu poderia conseguir o nome completo dela com algumas horas de conversa... Ou até fazer com que ela ficasse extremamente magoada com o Robson... Se eu armasse o circo da forma certa...
Como a pessoa mais doce e inocente da face da Terra, eu disse que não haveria problema nenhum em conhecê-la. Pelo contrário, disse que seria até um prazer...
Robson, sabia que eu tinha um bom coração. Jamais imaginou, que este mesmo bom coração, como estava apaixonado por ele, estava fazendo coisas foras de controle. Robson jamais desconfiou da arapuca que ele mesmo ajudara a criar...
Capítulo XXIV
Encontrar com o cara que eu gostava, acompanhado de sua namorada...
Mesmo sabendo que era por uma boa causa avaliar o terreno para planejar como destruir o relacionamento dos dois - não seria tarefa das mais fáceis.
Como o Robson cumpriria sua promessa de não beijar ou dar em cima de nenhuma mulher na minha frente, se a garota em questão é sua namorada oficial ? Se ele não a beijasse, como ela reagiria ? Se ele a beijasse, como eu reagiria ? Como meu coração agüentaria ver tal cena, sem que eu partisse para cima da garota e deformasse seu rosto a custa de incontáveis socos e pontapés ?
Em muitos momentos eu pensei em desistir.
Mas não podia. Eu nunca acreditei em feitiços, macumbas, mal-olhados e coisas do gênero.
Este nem era meu objetivo verdadeiro.
A minha real intenção era estudar uma brecha...
Avaliar o relacionamento deles. Descobrir se haviam pontos frágeis naquele relacionamento, saber exatamente onde era o calcanhar de Aquiles. E a partir daí, semear a discórdia entre eles. Até destruir por completo.
Que monstro eu havia me tornado...
Dizem que o amor é o mais nobre dos sentimentos. Mas a paixão...
A paixão tornara-me um ser calculista, disposto a fazer tudo para que a garota odiasse o Robson, ou que este passasse a odiar a Vanessa, ou melhor ainda, que ambos se odiassem, mutualmente.
Liguei para a Alessandra.
Contei-lhe sobre meus planos.
Ela ficou radiante, mas ao mesmo tempo, não queria que eu tivesse que passar pelo sofrimento de conhecer o demônio pessoalmente. Reforçou a idéia de que eu tinha que conseguir o nome completo da minha vítima.
Mesmo não acreditando nestas coisas, um peido para quem já está cagado não é nada...
...
Na quinta-feira, um pouco mais de uma semana após o lance da praia, Robson me ligou.
Marcamos de nos encontrar às 20 horas, em frente à estação Santa Cruz do metrô, a estação mais perto de onde trabalhávamos.
Cheguei um pouco antes do combinado, faltava uns sete minutos para o horário combinado. Não porque eu ansiava em conhecer a Vanessa, claro, mas por nervosismo, quanto antes eu entrasse em ação melhor.
Imaginei que iríamos de metrô.
Lá estava eu na porta da estação, quando um Palio Azul, prateado, quatro portas, o carro do ano, para na minha frente.
Robson estava ao volante.
- Entra aí... - falou, e as portas traseiras destravaram-se logo em seguida.
Entrei meio constrangido, não havíamos acertado se iríamos de carro ou não.
Se eu não tinha condições de comprar nem um Pois é, o Robson, que ganhava metade do meu salário, muito menos... O carro com certeza era da garota que estava no banco ao lado dele:
Loira - só para variar - olhos castanhos, simpática, até... Mas não era excepcionalmente bela como eu pensava... E ainda conseguia ser menor que o Robson, que tinha 1,67m de altura...
Mal acabei de sentar-me ela já escancarou logo o sorriso, e estendeu-me sua mão.
- Você que é o Vilser ? Prazer, eu sou a Vanessa, namorada do Robson.
Como se não fosse óbvio... Por acaso eu tenho cara de loiro?
- Oi, Vanessa. Prazer Só se for só seu, piranha. Eu sou o Vilser. Já que é para apostar quem é o mais retardado...
- Que nome diferente... onde sua mãe tirou este nome?
- É o sobrenome de um poeta Alemão... Se fosse um nazista, tudo seria mais fácil, eu já teria uma desculpa para te matar, sua vaca... Eu diria que foi possessão...
- Não devem existir muitos rapazes com este nome... Um dia, quando eu tiver um filho, quero um nome assim, único. Não é bonito, Soninho?
Robson respondeu, um tanto vermelho:
- Eu sempre achei...
Fiquei lisonjeado... Não pelo comentário da Vanessa.
Mesmo que ela dissesse que eu fosse um Deus, eu estava andando e cagando pra ela.
Mas foi a primeira vez que vi o Robson elogiar meu nome... principalmente na frente dela.
Mas Soninho... Que apelido cretino. Aquele som fincou na minha cabeça, doeu meus ouvidos.
Aliás, não sabia que som havia incomodado-me mais... Aquele apelido enfadonho que ela havia dado à ele, ou Zezé de Camargo e Luciano que tocava no aparelho de CD daquele carro.
Não me lembro exatamente o que eu disse, mas fiz uma piada bem mal educada a respeito daquela música.
E ela interveio:
- O Robson que gosta destas músicas...
Eu olhei para ele através do retrovisor, e comentei:
- Ninguém é perfeito...
Ele franziu suas sobrancelhas deliciosamente peludas como uma taturana, quase unidas no nariz, inflamou seus olhos azuis, e disparou:
- Você é que me compra estes discos. Chega com o embrulho fechado, e eu escuto porque eu acho que você gosta...
Um certo clima de desavença surgiu no ar logo no início da noite.
Não pensei que seria tão fácil. Eu sabia tanto sobre o Robson, todos os seus gostos, seus pratos favoritos, suas músicas. Parecia-me que Vanessa, apesar de namorar com ele há dois anos, não o conhecia o suficiente.
Apenas impunha sua vontade a ele.
Algo me dizia que não seria necessário muito esforço para chegar onde eu queria.
A noite prometia...
Capítulo XXV
Chegamos a uma choperia no bairro do Paraíso.
Choperia... Chopp... Bebida alcoólica... Junto com o cara de quem a gente gosta... Junto com a namorada do cara de quem a gente gosta...
Mistura ingrata esta...
Seria possível conciliar uns goles a mais com aquele encontro?
Em algum momento eu poderia derrapar e falar mais do que devia, e era capaz de nem me esforçar em conseguir o nome dela...
Mas, venhamos e convenhamos... Quem tinha que se preocupar com isso era o Robson não eu...
Afinal de contas, o que faz com que um homem aceite sair com sua namorada e com um cara que ele sabe estar declaradamente apaixonado por ele ?
Sua intenção seria criar um harém? Ou um dos dois seria prejudicado naquela noite? Neste caso, provavelmente seria eu, já que não seria provável que o Robson aceitasse que gostava de um cara de uma hora para outra...
Sentamos à mesa.
A Vanessa sentou-se do lado do Robson e eu fiquei numa cadeira de frente para ele.
O garçom chegou e o Robson já foi pedindo, sem me perguntar nada:
- Para mim, um chopp normal e para o rapaz um com groselha. E você Vanessa, gostaria de tomar o quê?
A jumenta escancarou os dentes e pediu:
- Um chopp normal.
Reparem numa curiosidade.
O Robson sabia que tipo de bebida eu gostava.
Ele lembrou-se que naquele dia em que fomos ao Karaokê eu comentara que preferia cerveja ou chopp se fossem com groselha.
Engraçado foi ele ter pedido por mim, num como um gesto proposital para mostrar que se lembrava deste meu comentário.
Ele nem fez questão de fazer o mesmo pela Vanessa.
Somando este ponto ganho ao ponto dele ter comentado que achava meu nome bonito, eu estava com a noite praticamente ganha.
Mas a Vanessa tinha uma vantagem. Ela era sua namorada oficial. Era mulher.
Poucos minutos depois, a Vanessa já estava se atirando no colo do Robson.
Mas o Robson não agiu como um canalha qualquer.
Como um gentleman, ele esquivava-se da Vanessa, gentilmente é claro, disse que estava com afta na boa, e como não sabia se era algo contagioso não poderia beijá-la naquele dia. Nem eu teria idéia melhor.
Sentia-me como um rei vitorioso.
Poucos minutos depois, Vanessa já precisava ir ao banheiro.
Assim que ela saiu de minha vista, eu disparei o primeiro míssil oficial da guerra:
- Robson, me desculpe... Mas Soninho é um apelido terrível. E comecei a rir.
- Eu sei, eu já havia até comentado com ela... Mas ela gosta...
- E por que ela gosta, você aceita e pronto! Que nem no caso do CD?
- Vilser, eu ia ficar discutindo para quê? Se ela acha que está bom assim, eu vou levando, até eu cansar... até eu ver que não dá mais...
Eu quase abria minha boca, dizendo que aquilo era falta de conversa entre eles, e que quando alguém gosta de outra pessoa, ninguém deve fazer tudo o que a outra pessoa quer, mas ceder em alguns pontos, contando que a outra pessoa ceda também, e assim chegar a um equilíbrio...
Mas eu não estava ali para construir um relacionamento e sim para destruir. Fiquei na minha.
O Robson não permitiria que eu continuasse, interrompeu meus pensamentos com uma nova informação.
Abriu aquele sorriso enorme, seus olhos azuis brilharam e ele disse:
- Mudando de assunto. Vilser , eu vou ser promovido. Vou tornar-me terceiro gerente da loja.
- Que legal, Robson... Sabia que você era competente para isto...
Sabia porra nenhuma. Sabia sim, que ele era sobrinho do Thomaz, e por isto deve ter sido promovido.
Por outro lado, se eu, que amava ao Robson com todas as forças do meu coração não via aquilo com bons olhos, imagine o resto da loja onde o Robson trabalhava...
A tempestade que aquilo causaria era de um tamanho desproporcional.
Realmente o Robson precisaria muito de um bom amigo, por isto fazia tudo aquilo comigo....
E fosse a promoção por merecimento ou por sacanagem, eu estaria ao lado dele.
Estar ao lado de quem poderia estar errado. Mais um sintoma de que aquela paixão me fizera perder a noção de moral.
- E aí eu poderia depender menos da ajuda financeira da Vanessa...
É, esta história poderia ficar ainda pior. E ficou.
- Como assim?
- A Vanessa é médica. Ganha razoavelmente bem. Ela que me ajuda em algumas contas para que eu possa ficar em São Paulo. Se dependesse só do salário da loja, eu não poderia pagar o aluguel da minha casa aqui na cidade.
Agora, havia mais uma peça que moldava o quebra cabeça, e detonava com a minha cabeça. E com o meu coração.
O Robson assumia naquele momento que amando ou não a Vanessa, ele estava com ela devido a segurança financeira de que ela o proporcionava. Compreendi o carro zero. Compreendi a dificuldade do Robson aceitar que me amava.
Não era só a sociedade. Não era só o conceito de certo ou errado impugnado a todos nós pela religião. Era saber como viver em São Paulo sem a ajuda financeira que a Vanessa podia proporcionar.
O que eu faria, ganhando a miséria que eu ganhava?
Era o Robson um gigolô?
Poderia eu convertê-lo ao meu amor?
Ela voltava do banheiro.
Ainda assim eu daria um jeito de conseguir o nome completo dela...
Quem sabe marcando uma consulta?
Capítulo XXVI
Fiquei imaginando como conseguiria o nome completo do lixo.
Minha primeira tática, a princípio, era marcar uma consulta com ela, já que ela era médica...
Mas isso iria depender da especialidade em que ela era formada... Se fosse ginecologista, complicaria um pouco...
Assim que ela voltou, como quem não quer nada, fui introduzindo o assunto profissões...
- E você Vanessa, trabalha onde?
- Trabalho num hospital em Londrina.
O Robson começou a me olhar com uma cara desconfiada... Se ele já havia dito que ela era médica, porque eu começava o assunto do zero?
- E faz o que no hospital? - Eu perguntei, fingindo que o Robson não havia falado nada, e que eu estava realmente interessado no que ela fazia como se fosse possível!!! Minha vontade era afogá-la no copo de chopp.
- Sou médica. Cardiologista.
- Que legal. Engraçado, eu estava pensando em fazer um exame no cardiologista... sabe como é, check-up geral, o quanto antes melhor... - Um de nós precisa morrer do coração, não é mesmo, que-ri-da?
- Seria muito legal, pena que você teria que ir até Londrina para fazer os exames...
Rimos. Eu, claro, ri tanto, que quase morri sem ar. Como é difícil fingir que o papo está interessante...
Entretanto...
Alguns minutos depois, a conversa estranhamente enveredou num outro rumo.
Vanessa começou a falar sobre uma irmã sua, que também morava aqui em São Paulo, e que esta irmã sentia-se muito sozinha... E que seria legal se marcássemos uma balada a quatro.
Mais alguns verbos no ar...
Mais alguns elogios feitos à minha pessoa...
Comecei a perceber que o que a Vanessa queria...
Como o Robson havia arrumado um amigo tão legal e interessante, por que não empurrar um príncipe como o Vilser para cima da baranga... provavelmente o Robson gostaria que eu fosse seu cunhado!!!
Claro que Vanessa não percebeu que eu era gay. Raras pessoas percebem.
Se bem que era bom ela não perceber.
Não é qualquer mulher que acharia o máximo o melhor amigo do namorado ser gay.
Riscos existem.
O próprio Robson ficou pasmo com a conversa que a Vanessa iniciou..
Ele sabia que seria praticamente impossível, pois eu havia falado para ele que também não me aceitei da noite para o dia. Mulher a esta altura da novela... nem pensar!!!
Nem se fosse para passar o resto da vida ao lado dele, como concunhado.
O próprio Robson começou a encerrar o rumo da conversa, aliás, de qualquer conversa:
Disse que era melhor irmos embora, pois ele precisava estudar alguns novos afazeres da loja.
Fiquei um tanto decepcionado com a atitude dele, queria me livrar da medusa... mas não queria me separar dele naquele momento, ainda mais deixando que o casal fosse embora... somente os dois... pra a casa dele.
Vanessa tentou insistir, disse que seria legal irmos a uma danceteria, fazermos alguma balada...
Robson foi enfático.
O encontro acabava ali...
Ao pagar a conta percebemos que no local não se aceitavam cheques, apenas pagamento com cartão de crédito, débito ou dinheiro.
Vanessa disse ao Robson, que estava apenas com o cheque, e este não tinha o dinheiro para pagar nem sua parte.
- Você tem cheque? -Perguntei à Vanessa, intrometendo-me.
- Sim, mas eles não aceitam... - Ela disse, como se eu não soubesse.
- Vamos fazer o seguinte, - Completei, educadamente - Você me dá o cheque e eu pago a parte de vocês, com meu cartão de débito...
Ninguém questionou.
Perfeito.
Eu tinha o nome completo de Vanessa em minhas mãos...
...
Saímos, entramos no carro e partimos.
No caminho, o Robson disse que precisava passar no supermercado para pegar algo.
Era pouco mais de meia-noite.
Apenas os supermercados que ficam vinte e quatro horas abertos ainda funcionavam.
Para ajudar, começou a chover.
Ao chegarmos no supermercado, vi que o estacionamento era enorme, gigantesco. E ainda estava cheio, apesar do horário.
Conseguimos estacionar apenas numa vaga distante da porta do mercado.
A chuva estava ficando mais densa.
Robson disse a Vanessa que era melhor que a mesma ficasse no carro, já que melhorara a pouco tempo de uma gripe.
E me disse:
- Mas talvez eu precise de uma força para trazer as coisas para o carro, Vilser, você vai comigo?
- Claro! - Respondi, mais entusiasmado do que deveria.
- Tudo bem, mas voltem logo rapazes... - pediu Vanessa.
Saímos do carro, decorei o lugar que estávamos, pois o Robson nunca decorava lugares de estacionamento...
Leram bem esta parte?
O Robson nunca decorava lugares onde estacionávamos.
Se dependesse dele, passaríamos horas procurando por um carro, mesmo estacionando na rua. Pois quando ele está com alguém, ele deixa para que a outra pessoa se preocupe com isto.
Mas eu sempre fingia que não sabia, só para ganhar mais alguns minutos ao lado dele.
Acho que vocês já imaginam quanto tempo Vanessa ficou esperando no carro...
- Meu!!! Não brinca, você só pode estar zoando, Vilser. Você lembra onde é que está o carro... Você não quer é falar...- Robson já estava aflito e um pouco nervoso.
Eu não me intimidei, queria que Vanessa visse como é bom contar com um namorado tão dedicado a ela que nem decorou o lugar onde estava o carro:
- Cara, tava o maior toró... Não passou pela minha cabeça que você nem lembraria onde deixou o carro da sua namorada, com a mulher que você tanto ama dentro dele! - Falei e continuei procurando. Fingindo que realmente estava afim de achar algo... O corpo dela sem vida, por exemplo...
- Vilser, isto não é hora para ter ciúmes, cara. A Vanessa deve estar desesperada.
- Pensasse nisto na hora de sair do carro...
Após quase uma hora de molho, o estacionamento começava a esvaziar...
Não dava mais para fingir que não sabia, levei Robson ao carro.
A Vanessa estava muda.
Irada, mas não falou uma só palavra. Acho que deixou para quebrar o pau em casa...
Poucas vezes me senti tão satisfeito comigo mesmo...
Queria poder meter-lhe fogo três vezes ao dia...
O Robson me levou até em casa.
Decorou o caminho, mesmo tendo ido lá apenas uma vez, naquele dia da praia.
Entretanto, despediu-se um tanto friamente de mim.
E não me ligou naquela semana, como fazia sempre, para convidar-me para almoçar.
De coração partido, após chorar muito, imaginei que o Robson descobrira tudo.
Afinal de contas, não fui muito discreto em nosso encontro...
Com toda a desgraça já muito bem espalhada pelo ventilador, resolvi ligar para a loja onde trabalhava a Alessandra, para que pudéssemos colocar nosso plano em prática.
Só que a loja da Alessandra era a loja do Robson. Ele atendeu.
- Por favor, eu queria falar com a Alessandra. - Pedi, fingindo que não reconhecera sua voz...
- Oi, Vilser. Por que você sumiu? - Robson perguntou, com um sorriso na voz que me desarmou.
- Eu não sumi, Robson, você que não me ligou mais... - Respondi, tranqüilamente, mas com o coração pulsando a dez mil por hora...
- E por que sou eu que sempre tenho que ligar para você ? Ajudaria muito se você ligasse para mim de vez em quando, levanta a moral da gente. Eu também sinto saudades de você...
Quase chorei do outro lado da linha... Não consegui falar nada. Respirei fundo, e alguns segundos depois, ele continuou...
- Vilser, eu vou precisar de alguma ajuda com estes programas aqui da loja... Eu não estou sabendo mexer com eles, e o Thomaz nunca tem tempo de me explicar... Que horas você sai daí hoje?
- Ás nove da noite...
- Eu vou ter que fechar a loja... Sozinho !!! Por que você não dá uma passada aqui?
- Mas, e se não der tempo de pegarmos o último ônibus?
- Nós dormimos na loja...
Capítulo XXVII
Quando Robson veio com aquele comentário de HAVER A POSSIBILIDADE de dormir na loja...
Só nós dois, juntos, sozinhos... Parecia ser bom demais para ser verdade...
- Robson, mas em que horário eu tenho que chegar aí ?
- Como em que horário, Vilser ? Você sai daí e vem, é tão simples...
- E quero dizer se eu tenho que esperar o pessoal sair da loja para entrar...
- Claro que não. Você ia ficar lá no meio da rua fazendo o quê ? Se você chegar aqui, e o pessoal ainda estiver trabalhando, é para entrar normalmente...
Recapitulando o motivo da minha preocupação, para quem se esqueceu de algo:
Eu tive que sair da loja anterior, porque o Thomaz gerente principal da loja e tio do Robson - sacou que eu estava afim do rapaz.
O Adriano, que estava afim do Robson também, e saíra conosco poucos dias antes de eu ter que sair da loja, espalha para toda a loja que eu e o Robson tínhamos um caso (o que infelizmente não era verdade...)
O Robson passa a conversar comigo só o profissional, para não ouvir brincadeiras...
Então eu sou obrigado a engolir aquela história de namorada e tudo mais...
E depois de toda esta novela mexicana, eu entraria na minha antiga loja, já não sendo mais funcionário da mesma.
Seria como dar de bandeja ao Adriano a oportunidade de proclamar em brados ensurdecedores: Eu não disse? Eu não disse?
De uma hora para a outra, o Robson deixou de se preocupar com o comentário de todos eles ?
- Robson, o pessoal vai fazer comentários...
- Pois deixe que falem, Vilser! O que eu faço da minha vida é problema meu... Antes, eu queria evitar comentários para não queimar meu filme com o Thomaz... Mas agora eu fui promovido. Não importa a mais ninguém com eu fico ou deixo de ficar...
- Beleza, então.
- Vai falar com a Alessandra? Aproveita que ela chegou aqui no delivery... - Robson encerrou nossa conversa telefônica.
- Oi, Vilser. - ela atendeu alegremente, assim que ele a avisou quem estava ao telefone.
Eu sempre amei a Alessandra. Minha amiga de todas as horas. Mesmo. Do coração. Mas sempre era tão difícil parar de falar com o Robson. Quando ela atendeu me deu um aperto no peito, e eu suspirei, frustrado por causa do fim da conversa com o Robson:
- Oi, Alê...
- O que aconteceu, o Robson brigou com você? - Ela falou alto para ele escutar...
Escutei a voz dele ao fundo:
- Eu não fiz nada! Porque tudo neste mundo é culpa minha?
- Não, Alê, não faz isso...- Gritei, interrompendo-a.Ele não fez nada mesmo, a culpa é minha. Eu que fico dando meus suspiros fora de hora...
- E aí, gato? Arrumou aquilo que eu te pedi?
- Claro, Vilser James Bond é sempre eficiente.
- Ótimo, e quando que agente vai por em prática?
- Hoje eu vou dar um pulo aí, e a gente combina...
- Perfeito!
...
Implorei para o Maurício me liberar mais cedo naquela noite...
Quando ele viu que era por uma boa causa, não pensou duas vezes, e me desejou boa sorte.
Cheguei à loja por volta das 22:00.
Por mais que estivesse ansioso demais naquela noite, hesitei um pouco em entrar na loja. Dei duas voltas no quarteirão, e entrei pela porta principal, que dava acesso ao delivery.
E lá estava ele, fechando um caixa.
Camiseta branca, de gravata, barba bem feita até mais do que de costume - e gel no cabelo.
Por que aquele desgraçado ficava mais bonito a cada dia que se passava?
A Alessandra passava a vassoura pelo delivery...
Como apesar de tudo, eu não queria que ninguém da loja percebesse o real motivo da minha visita, chamei pelo nome dela:
-E aí, Alê ?
- Vilser!!! - E correu aos berros, dando a volta pelo balcão para me abraçar...
O Robson levantou a cabeça. Abriu um imenso e belo sorriso, que corroia todo o meu corpo. E seus olhos azuis em minha direção, incendiaram-me a alma. Deu-me uma vontade de pular aquele balcão e agarrar aquele homem, sem me importar com as conseqüências. Mas eu tive que ficar só na vontade. Ainda havia toda a noite pela frente.
- E aí, Robson?
- E aí, gatinho, beleza?
Eu comecei a rir... Ser chamado de Gatinho era demais para mim... Comecei a achar que se ele fosse um pouco mais ousado comigo do que aquilo, eu morreria do coração naquela mesma noite.
Mas depois, resolvi fingir que o meu papo era só com a Alessandra. Até que todos fossem embora.
Como ela era a última a sair não haveria problema...
Mas a Alessandra ia embora junto com o Adriano.
Então eu entrei na sala da gerência, para avisar ao Robson que levaria os dois no ponto de ônibus e fingiria que seguiria por outro caminho.
Ele não tirou os olhos da frente do computador e disse, serenamente:
- Vilser, deixa de ser bobo! Tranca a porta assim que eles saírem e vem me ajudar aqui...
Segui as suas ordens, claro. Sem pestanejar.
Despedi-me deles, no que o Adriano me perguntou:
- Ué, você não vai embora?
- Não. O Robson me pediu uma ajuda com o fechamento.
Até mesmo a Alessandra surpreendeu-se, arregalou os olhos e disse baixinho em meu ouvido, enquanto abraçava-me:
- Então juízo, hein? Quero dizer, joguem qualquer sombra de juízo fora...
E foram embora. Sem maiores empecilhos.
Voltei à sala da gerência.
Sentei-me sobre uma mesa que ficava ao lado da mesa do computador, e perguntei:
- E aí, cara, muitas dúvidas?
- Bem, tenho algumas coisas anotadas, mas na prática... sabe como é...
E expliquei-o passo a passo como ele deveria proceder...
À uma hora da madrugada o serviço estava pronto.
Ele olha para o relógio, e pergunta:
- Será que ainda tem ônibus?
Se eu tivesse problema no coração, teria morrido ali mesmo.
Aquela frase cortou minha alma em fatias, era quase como uma navalha na pele queimada.
Bati a mão na testa. Devia estar com um sorvete...
Ele queria ir embora.
Quanta decepção para um só coração.
Me senti o maior de todos os tolos.
E como ele não havia prometido nada, eu não podia deixar transparecer tanta frustração na minha cara.
Eu não conseguia compreender como eu não percebera que ele queria me usar somente como ajuda mesmo.
De onde nasciam minhas esperanças injustificáveis?
Levantei-me da mesa, coloquei minha jaqueta era uma noite verdadeiramente fria de inverno.
Olhei no relógio, tentando demonstrar que conformava-me com a situação.
Respirei fundo, e sei lá com que forças pedi:
- Abre a porta. Eu vou ver se ainda dá tempo de pegar o último.
Ele olhou para mim com uma cara de Você anda comendo cocô de novo? e disse:
- E porque você vai embora?
- Ué, você não perguntou se ainda tem ônibus? - Respondi com outra pergunta num tom de dããããã...
- Claro, considerando o fato de ser muito provável que eu termine o fechamento da loja sempre neste horário, eu queria saber se teria ônibus para eu ir embora nas outras noites. Eu não disse que ia ver isto hoje, agora. Mas também não penso em dormir aqui quando você não estiver.
Eu fiquei menor que uma formiga.
Robson desligou os computadores, levantou-se da cadeira, e desceu as escadas para a cozinha.
Segui-o sem abrir a minha maldita boca.
Ele ligou o forno, e disse:
- Eu vou aquecer uma refeição que eu comprei para nós, seu problema deve ser fome.
Depois de aquecer as embalagens, fomos jantar no salão do restaurante.
Poucas luzes foram acesas, para que quem olhasse de fora não percebesse que havia alguém dentro da loja.
Comi sem falar muito, ainda envergonhado de como tinha agido.
Assim que terminamos de jantar, ele solta o nó da gravata, e diz:
- Posso acabar com o clima de jantar romântico trajando black-tie? Você não está a caráter esta noite e esta gravata e estes sapatos estão me matando!
Eu comecei a rir, quebrando o gelo que eu havia imposto a mim mesmo. E disse:
- Por mim, pode ficar pelado! - Proposta mais direta, impossível.
- Pelado eu não posso. Está frio. - Rimos. Depois ele fez cara de que havia lembrado de algo, olhou para os lados e para o teto, com as sobrancelhas quase espremendo os olhinhos azuis, e perguntou: - Aliás, como agente vai fazer para dormir nesta loja, neste frio?
- Lá na minha loja, quando eu perco o metrô, eu durmo sobre aquelas almofadas onde colocam as pizzas para entregar. Junto várias daquelas que não usamos e fica parecendo um colchão...
- E para cobrir ?
- Uso um casaco para entrar no refrigerador.
Robson aprovou a idéia imediatamente e foi buscar várias transportadoras de pizzas (baggies) e as esparramou no chão do delivery, que era a parte mais protegida da loja em relação à ventilação. O delivery fechava-se como uma sala.
Logo depois, trouxe também uma televisão da sala de reuniões.
Colocou-a no chão e disse:
- Desde que eu comecei a dormir sozinho em São Paulo, eu só consigo dormir com o TV ligado.
Deitei sobre as baggies, e fiquei assistindo à TV. E o Robson foi ao vestiário.
Voltou vestindo uma blusa de lã, calças de moletom e meias brancas.
- O clima formal acabou mesmo, hein? Pelas suas roupas já somos casados a três anos... - Falei, em tom de brincadeira.
Grande coisa. Homem bonito, com jeito de macho, é gostoso até usando roupas sujas e meias furadas o que não era o caso do Robson.
Sentou-se de qualquer jeito sobre o colchão improvisado e começou a assistir ao filme também.
Um filme que passava na Sessão Madrugada que eu nem me lembro qual era.
Devido à posição em que eu estava, senti o pescoço arder um pouco, e deixei escapar um sonoro Ai!
- O que foi ? - Robson me perguntou.
- Meu pescoço. Deu um estalo estranho. É o que dá assistir sem travesseiro.
Sem tirar os olhos da tela, num tom de indiferença, ele disse:
- Se quiser, pode usar minha perna como travesseiro.
Eu, que estava deitado, levantei e fiquei sentado, olhando para a cara dele.
Ele olhou para mim, como quem diz: Falei algo errado? E em seguida, voltou novamente a fitar a TV, como se não tivesse falado nada.
Logo depois, esticou a perna que estava mais próxima de mim em minha direção, e permaneceu com a outra dobrada.
E como crianças que brincam de Eu duvido que você faça, eu me aproximei e deitei minha cabeça sobre sua forte perna habituada a jogos de futebol.
Não prestava mais atenção à televisão. Meus olhos percorriam os demais trechos de sua perna, e iam até seu pé, de desenho perfeito. Todos estes pedaços do paraíso cobertos demais para minha visão, mas não para minha imaginação.
Eu não queria forçar a amizade, mas fingi que pequei no sono, e virei minha cabeça.
Meu nariz quase tocava sua virilha.
- Vilser?
Fingi que estava acordando e gemi qualquer coisa parecida com Que foi?
- Já que vamos ganhar fama de que algo tá rolando mesmo... Continuou falando como se estivesse assistindo ao filme.- Se quiser completar o serviço...
Ele fechou seus olhos.
Aproximei meu rosto do Oscar mais desejado da história do cinema... E completei o serviço.
Não era a minha primeira vez.
Mas com certeza era a melhor vez.
A única que me fez tremer infinitamente da cabeça aos pés, com o coração em frangalhos, devido apenas a exploração de meus lábios...
Suava como se fosse verão em pleno inverno.
Eu quis que o mundo acabasse ali mesmo, o que me faria morrer feliz.
Queria que toda a minha realidade fosse somente aquilo.
Ficar ali, desde sempre e para todo o resto do sempre.
Nenhuma iguaria jamais teve sabor tão fantástico.
Nenhum néctar seria mais satisfatório.
Encerrada nossa travessura, Robson deitou de lado, e abriu os olhos.
- Que filme mais besta este da televisão. Ainda bem que não precisamos assistir.
Rimos.
Não houve tempo de mais nenhuma peripécia ou ato de afeto.
O alarme da loja disparou a tocar.
Insensato, herói que sempre costumou ser, levantou correndo, e foi ver o que acontecera.
Abriu a porta do delivery, e assim que seu vulto some na escuridão da cozinha, ouço um barulho muito grande de alguém se esborrachando no chão.
Seria possível que na melhor noite da minha vida a loja estava sendo assaltada?
enviada por Vilser
12/02/2005 23:13
Capítulo XXVIII
Eu estava extremamente assustado com aquela situação.
Podia não ser nada de mais, mas como tudo neste mundo é possível, e temos sempre o hábito de esperar o pior, algo de grave podia estar realmente acontecendo na loja naquele momento.
Mas, indiferente a qualquer perigo, eu corri em direção à cozinha da loja.
Seja lá o que estivesse acontecendo, eu tinha que estar ao lado do Robson.
Ainda que o alarme houvesse soado por causa de ladrões, ainda que estivessem armados, eu não conseguia agir racionalmente.
Um instinto animal, fora do comum, talvez até um instinto assassino, surgiu e tomou conta de mim. Eu partiria para cima de quem quer que fosse, se alguém pudesse estar fazendo algum mal ao Robson.
O barulho do alarme seguia, ensurdecedor. Impedia qualquer pensamento. Abafava qualquer outro som que poderia ser ouvido naquele momento. A loja era praticamente um breu.
A única luz que estava acesa, no momento em que o Robson levantara-se, era a débil iluminação da televisão.
Atravesso a cozinha, alcanço o interruptor e acendo a luz.
Procuro o local onde ouvira o barulho.
O Robson estava em pé, e mancando, dirigiu-se ao setor do alarme, e o desligou.
- Caramba! O que foi tudo isso? - Perguntei.
- Burrice minha. Respondeu Robson. - O Alarme aciona-se automaticamente depois das duas da manhã. Eu que havia esquecido de desligá-lo. Ele nos detectou no delivery.
- Ê cabecinha oca a sua!!! Quer me matar do coração?
- Mas já passou. - Robson falou naquele tom de deixa disso.
O telefone tocou.
Era a empresa de segurança.
Como não caminhava muito bem naquele momento, Robson passou-me uma espécie de senha e eu corri ao telefone, para que vários carros da polícia não resolvessem aparecer na loja.
Ao voltar, vi que Robson estava sentado numa cadeira do salão da loja.
Gemia de dor. Segurava seu calcanhar. O mesmo calcanhar que eu machucara violentamente quando jogamos futebol no dia do churrasco.
- Que aconteceu cara? Que houve com seu tornozelo? - Aproximei-me, angustiado...
Robson respondeu, gemendo:
- Eu corri para desligar o alarme. Mas como estava de meias, tropecei em uma poça de água que formou-se em volta de um dos balcões refrigerados na cozinha. Não consegui me segurar e arrebentei-me no chão. E bati o pé contra o balcão.
- Vou buscar um pano com água quente. - Levantei-me e fui até a pia.
Voltei, peguei em seu pé e tirei sua meia.
Eu adorava olhar o pé do Robson. Era um pé muito lindo. Unhas perfeitas. Nem muito peludo, nem muito pelado. Eu, que nunca fui muito fã de pés, tinha fetiche pelo do Robson. Aliás, até pelo dedo mindinho do Robson eu sentia tesão.
Mas não pude admirar muito daquela vez. Percebi que o tornozelo de Robson estava ficando roxo. Fiquei com medo de Robson ter quebrado alguma coisa.
Levantei-me e falei:
- Robson, vamos ao médico. Pode ser perigoso.
Ele hesitou um pouco, mas acabou concordando, pois o tornozelo começou a inchar.
Trocamos de roupa. Eu ajudando ele a se vestir, é claro.
Acionamos o alarme, e saímos, com ele segurando eu meu ombro.
Havia um hospital que atendia nosso convênio a poucos quarteirões dali, chegamos em poucos minutos.
Tamanha foi minha preocupação de não querer sair do lado dele quando estávamos no hospital, que a enfermeira perguntou se éramos irmãos. O Robson disse que não. Ela ria com o canto da boca, acho que entendeu o que rolava...
Robson havia torcido o tornozelo, que havia inflamado, mas não estava quebrado, graças a Deus. Mas precisou tomar uma injeção sei lá do quê e enfaixar.
Saímos de lá bem depois, e voltamos à loja.
Estava perto de amanhecer. Mal havíamos dormido.
Entramos na loja, estávamos indo desligar o alarme, quando ele brincou:
- Acho que você vai ter que me carregar no colo, de agora em diante.
Eu falei:
- Eu faço questão.
Resolvi pegá-lo no colo e levá-lo até o setor do alarme. Rimos muito. Ele era muito pesado por ser forte. Mas ainda bem que era bem menor que eu.
Não percebemos, mas o Thomaz já havia entrado e foi nos recepcionar na porta. Havia chegado mais cedo porque a empresa de Segurança ligara para ele.
O tio de Robson o viu em meus braços.
E havia visto a bagunça no delivery... Nossa cama.
Se vendo o pouco que ele havia visto, me mandou para outro lado da cidade... O que faria agora, quando era uma certeza?
Capítulo XXIX
Por uns dois segundos, eu juro que tive vontade de jogar o Robson longe e gritar:
- Mas não é possível, isto só pode ser pegadinha!!! Como alguém pode ter tanta sorte e tanto azar ao mesmo tempo, isto parece filme de ficção científica!!!
Contive-me e resolvi colocá-lo no chão, aguardando a reação do Sr. Thomaz.
- O que foi que aconteceu aqui?- Perguntou Thomaz num tom preocupado, mas calmo, apesar da situação.
- O alarme disparou sozinho no meio da madrugada. - Começou a falar o Robson, naquele tom agoniado de quem se justifica de algo muito errado. - Resolvi correr para desligá-lo e acabei dando uma pancada no tornozelo.
- E o Vilser ? Por que ele está aqui ? - Thomaz pergunta sem conseguir esconder uma certa vontade de rir, como quem diz: Pode me falar o que quiser, mas eu já consigo imaginar o que ele está fazendo aqui...
- Ele veio me ajudar a fazer o fechamento.- Falou Robson, abaixando a cabeça...- Eu tinha algumas dúvidas, e como ele deu uma passada na loja para conversar com o pessoal, pedi para que ele ficasse.
- Robson, - falou Thomaz, como se desse uma bronca, mas num tom extremamente brando, com aquela mesma vontade de rir: você sabe que ninguém, mesmo sendo de outra unidade, pode ficar na loja após o fechamento, além dos funcionários da própria loja.
- Aliás, - Continuou Thomaz após uma pausa, você também deve saber disso não é, Vilser ?
- Eu sei. - Falei.- Mas, Thomaz, era um caso de extrema necessidade, senão o Robson não ia embora hoje, ele está começando, dê um crédito para nós.
- Tudo bem, desta vez passa.- Thomaz suspirou e continuou:- Mas jamais deixem que saibam disso. Se o supervisor de lojas desconfia desta história, nós três estamos fritos.
Como Thomaz faria a abertura da loja naquele dia, resolveu ficar por lá mesmo.
Eu e Robson fomos tomar um café.
Como era gostoso passar a noite sozinho ao lado da pessoa que eu considera a mais interessante do mundo. E tomar café junto com ela.
Depois, perguntei se Robson gostaria se eu o ajudasse a ir para casa. Ele disse que precisava descansar e pensar um pouco, sozinho, sobre o que aconteceu. Tudo foi muito forte e rápido para a cabeça dele.
Levei-o então apenas até o ponto de ônibus. Tive que deixar a oportunidade de dormir agarradinho com ele para outro dia, contra minha vontade.
Sem mais alternativas, fui descansar um pouco, na minha própria cama.
...
À tarde fui para o serviço.
Trabalhei com aquela sensação de euforia. Tudo estava mais feliz. O mundo sorria. Era como se todos fossem felizes na face da Terra. Como se eu fosse a pessoa mais feliz do mundo.
Nem me preocupei com o flagra do Thomaz. Se o Robson se apaixonasse por mim, não haveria nada nem ninguém que nos separasse. Nunca mais.
Mas no final da noite daquele dia, recebo uma ligação de Robson.
- E aí, beleza? - Robson começou a conversa.
- Beleza. E o tornozelo, melhorou?
- Pois é. Quando eu cheguei em casa, eu achei que ele estava mais inchado, e teve uma hora que eu não conseguia mais andar. Voltei ao médico, e ele me deu uma semana de licença.
- Que droga. Mas pelo menos, você ganhou uma semana de molho em casa... Acho que vou ter que sair do serviço e ir direto para sua casa, para cuidar de você...
Robson deu uma risada meio sem jeito, e continuou:
- Pois é Vilser. - E dava um suspiro, como se me preparasse para más notícias.- É que eu vou usar estes dias para ir a Londrina. Sabe como é, minha mãe fica o tempo todo em casa e estaria mais tempo ao meu lado.
- Claro. Tá certo. - eu disse, como se tentasse compreender a situação dele, mas sem conseguir esconder a frustração.
- Vilser. Como você ia ficar comigo se você trabalha das oito da manhã as nove da noite ? - Robson tentava justificar, percebendo que a notícia não havia me agradado. - Além do mais a Vanessa é médica, pode conhecer um bom lugar para que eu possa me tratar.
Teria sido melhor se ele tivesse ficado quieto.
Num primeiro impulso eu queria xingá-lo, gritar com ele: Vá desgraçado, vá atrás daquela piranha jumenta oxigenada débil caquética idiota estressada puta puta puta e todos os outros adjetivos dóceis que passam pela nossa cabeça nestes momentos...
Mas respirei fundo e percebi que não ganharia nada com esta atitude. Até porque eu estava no setor de delivery e de pedidos de viagem da minha loja, e havia alguns clientes no balcão.
Não xinguei, não adulei, não falei nada.
- Vilser?
- Fala...
- Então... Semana que vem eu volto, e a gente conversa, beleza?
- É. Fazer o quê ?
- Vai ficar emburrado a semana inteira?
- Não. Não sei. Talvez. Acho que não. - Eu não conseguia mais pensar para responder, estava muito triste.
- Tá, então até mais.
- Falou...
...
Durante aquela semana em que esteve fora, o Robson não me ligou.
Obviamente, fiquei extremamente triste e preocupado.
Eu não conseguia entender as coisas.
Será que foi uma decisão do próprio Robson ou houve alguma influência do Thomaz ?
Concluí que talvez Robson estivesse a arrependido pelo que fizemos.
Eu tentava olhar para trás e entender tudo o que aconteceu entre nós dois.
Nós éramos bons amigos. Mas eu estava apaixonado por ele.
E ele aos poucos foi cedendo espaço para que tivéssemos um contato mais íntimo.
Nenhum homem heterossexual faria isso.
Mas não havia como saber se ele permitiu que acontecesse algo por que ele também me amava ou se era apenas curiosidade. Apenas para saber como era estar com um homem. Que o amava mais do que a si mesmo.
Por mais que nós pensemos que conhecemos alguém, na verdade, nós nunca o conhecemos de verdade.
Sem outros meios de descobrir a verdade, resolvi partir para o plano B.
Liguei para Alessandra na quinta-feira e a convidei para pormos nosso trabalho em prática.
Capítulo XXX
Marquei nosso trabalhinho para a noite de quinta-feira, folga da Alessandra.
O primeiro gerente da minha loja, o Maurício, saiu às nove horas da noite, nem viu Alessandra chegar...
Ele não podia desconfiar que sua loja viraria uma espécie de terreiro.
Alessandra chegou às dez.
Os demais funcionários da minha loja imaginavam que talvez algo de interessante rolasse naquela noite entre eu e Alessandra.
Aliás, ninguém jamais soube o que realmente aconteceu naquela noite, até hoje.
Nem este fato, nem os outros que eu já aprontei por causa do Robson...
Depois que todos foram embora, comemos um lanche, e em seguida, resolvemos não perder mais tempo...
Era quase meia-noite.
- E aí Alessandra, o que vai ser necessário? Quantas galinhas pretas você trouxe? - perguntei, vendo-a abrir sua mochila de onde retirava uns apetrechos.
- Primeiro, pegue este pedaço de papel e escreva o nome completo do Robson.
Segui sua ordem.
- Pronto, e agora? Preciso tirar meu sangue também ? Tem pelo menos uns três sapos aí dentro desta bolsa, não tem não?
- Não seu bobo. Neste outro papel, escreva o nome completo da Vanessa.
- Acho que não vai dar, esqueci. - Eu disse, fazendo cara de desespero.
- Vilser, eu não acredito!!! Depois de todo meu esforço de vir até aqui, você me fala uma asneira destas!!!
- Relaxa, mina. É zoeira.. - Termino de escrever, rindo do fato dela quase ter levado à serio minha resposta.
- Vilser, tente levar isto mais a sério. Vai que a coisa desanda, de tanto que você brinca...
Bem, o que eu perderia se simplesmente colaborasse?
Fomos para a sala de reuniões da loja.
Ela pegou de sua bolsa uma foto, que tiramos no dia do churrasco. Nesta foto, eu estava abraçado ao Robson.
- Guarde esta foto em seu bolso. - disse ela.
- E agora?
- Pegue o papel que contém o nome dele, e passe em volta de seu corpo.
- Certo.
Um minuto depois...
- Pronto? - Pergunto eu.
- Esfregue mais um pouco. Sua energia precisa estar ligado ao nome dele...
- Tá bom, Morgana.
Três minutos depois...
- Chega, Alessandra. O Robson já deve estar enjoando de mim... Tamanho esfrega-esfrega.
- É acho que está bom. Agora, vamos amarrar cada nome em uma tesoura, com uma fita vermelha.
- Pronto, que mais ? A quem precisamos matar com estas tesouras ?
- Ninguém. - Disse, irritada pela nova piada. - Agora precisamos enterrá-las, uma bem distante da outra... Para garantir que haja a separação...
- Quando as enterraremos? Agora? - perguntei.
- Podemos deixar para amanhã. Mesmo assim, por enquanto, guarde a tesoura do Robson com você e já deixe a tesoura da Vanessa bem longe, do outro lado da loja. Quanto antes estas tesouras estiverem separadas, melhor.
Assim foi feito.
A tesoura com o nome do Robson ficou junto de mim, e coloquei a tesoura da Vanessa num freezer gigantesco. Haveria melhor lugar ? Simbolicamente, eu a deixei no Pólo Norte.
...
Abrimos umas latinhas de cerveja para comemorar a nossa união contra a Vanessa.
Depois, preparei um lugar onde eu e a Alessandra poderíamos descansar.
Alessandra deitou-se.
Eu fiquei sentado, admirando a foto do Robson.
Olhava como se ele fosse um sonho distante. Sentia saudades de alguém que se pode ter por apenas um brevíssimo instante.
Momentos estes que se dependesse de nossa exclusiva vontade, seriam prolongados pela eternidade.
Alessandra observou meus olhos rasos dágua.
Disse-me que talvez acender uma vela e fazer um pedido ajudasse.
Foi o que fiz. Enquanto Alessandra dormia, fui para a mesa da gerência, acendi a vela, pedi o Robson para mim repetidas vezes até quase pegar no sono.
Duas horas da madrugada, o telefone toca.
- Cacete, quem deve ser a esta hora?- Esbravejei, assustado por estar pegando no sono.- Aposto que é um cliente pensando que fazemos entregas vinte e quatro horas, eu vou atender mas só para xingá-lo.
- Bom dia.- Atendi o telefone num tom gostoso de se ouvir, como quem diz:- Vá tomar no seu cu, piranha do caralho!!!
- Vilser? Te acordei, cara? - Era o Robson.
Buceta cabeluda!!! Não é que a porra da simpatia já deu sinal de sucesso???- pensei.
- E aí, Robson. Já voltou de viagem?
- Pois é, cheguei hoje, já estou bem melhor... Voltei a trabalhar um dia antes...
- E porque não me ligou antes?
- Ah, meu. Eu tava meio sem grana pra comprar cartão. Viagem no meio do mês, de última hora. E lá, eu não me sentia a vontade para ligar da casa dos outros.
- E hoje? - perguntei, ainda irritado.
- Hoje foi meio corrido aqui na loja.
- E veio me ligar a esta hora da madrugada?
- Foi o horário que eu consegui fechar o sistema todo da loja, mas já que estou incomodando, então eu desligo.
Aí me deu um estalo Que espécie de jumento eu sou? Meu, o cara tá ligando. Aproveita, demente!
- Desculpa Robson, eu fiquei meio assustado pela ligação de madrugada.
- Tudo bem, eu sei que não é muito legal, mas resolvi ver se você estava dormindo na loja. Assim como eu.
- Certo. E aí, conseguiu fechar tudo tranqüilamente? - Perguntei, com medo de que aquela ligação fosse apenas para pedir mais uma ajuda.
- Tudo tranqüilo. Eu só liguei para te dizer boa noite.
Engoli a seco.
- Ah, e tem mais uma coisa que eu queria te dizer... - Disse Robson, um tanto afoito.
Na hora eu ajoelhei no chão, olhei para a foto e pedi para que ele dissesse: te amo, te amo, te amo!!!
- Fala... - Fingi naturalidade. Mas estava tremendo até a unha do pé.
- Hoje a tarde o Thomaz me pediu para te dizer que quer falar com você.
- E... sobre o que seria? - Perguntei, decepcionado, e agora, preocupado.
- Ele quer saber se você está a fim de voltar para nossa loja...
Capítulo XXXI
No outro dia, antes de ir trabalhar dei uma passada na loja de Thomaz.
Logo na porta, Robson já me recepciona com aquele sorriso de holofote, que sempre iluminou minha alma:
- E aí, beleza, rapaz ?
- Beleza.
Nós ficamos ali, nos olhando, sorrindo, sem muito assunto para falar. Minha raiva por ele não ter me ligado durante os dias em que passou fora, desaparecera. Meus olhos naquele momento queriam matar saudades dos olhos dele.
Permanecemos mais alguns minutos daquele jeito. Ambos ensaiando quem seria o próximo a pronunciar uma palavra. Apenas a companhia dele já me bastava para suprir todas as necessidades da alma.
O Thomaz apareceu pela porta de entrada e ao me ver também ficou contente, e falou:
- Olá, Vilser. Em seguida, deu uma risada contida. Percebeu que eu fiquei um pouco sem graça no instante em que ele apareceu, quebrando o clima de felicidade que pairava sobre mim. Mas já que não tinha outro jeito, continuou, sorrindo:
- Agora que você já matou saudades do seu querido, entre. Vamos conversar um pouco...
Confesso que não me senti bem com a afirmação do Thomaz. Sei que ele não era um imbecil. Qualquer um no lugar dele perceberia que algo acontecia entre eu e o Robson.
Mas do que ele sabia ? O que se passava na cabeça dele ? Como seria minha vida na mesma loja que alguém que sabia de minha paixão pelo seu sobrinho.
Não demorei muito para descobrir...
Fomos à gerência, ele me pediu para sentar, e a conversa começou.
- Vilser, sinceramente, o que você acha de voltar para minha loja ?
- Bem, Sr. Thomaz, eu trabalho aqui há mais de três anos. Eu já conheço o sistema, o pessoal, o tipo de público que freqüenta esta unidade, a loja é perto da minha casa... Não há como dizer que eu não gostaria...
- É perto do Robson... - Thomaz falou, e riu.
- Sr. Thomaz, eu... - Resolvi intervir, mas não tinha argumentos...
- Vilser, sinceramente, eu não ligo para o que rola entre você e o Robson. Vocês dois são maiores de idade e devem saber o que querem da vida. Se o Robson quisesse trocar a namorada dele por você, por mais que eu quisesse interferir, seria minha vontade contra a dele... Nada neste mundo poderia me fazer convencê-lo do contrário... Então, como diriam os rapazes desta loja, que rolem os babados... - e riu novamente.
Fiquei quieto. Não tinha o que falar. Foi até gostoso ouvir aquilo.
- A Letícia não está conseguindo tocar esta loja como segunda gerente, está sempre atrasada, sempre atrapalhada, não gosta muito do Robson, o que só aumenta a bronca do pessoal contra ele... E como o Robson é meu sobrinho, não posso interferir sem me queimar...
Deu uma pausa para que eu assimilasse a idéia e continuou:
- Entretanto, todos sempre gostaram e respeitaram você... E eu sei, e o Maurício sempre fala nas reuniões, que você é um ótimo gerente... Somando isto ao fato de que você gosta do Robson... Isto poderia ajudar muito a minha loja.
Seu carisma faria com que todos aprendessem a gostar do Robson, e o sentimento de equipe dentro da loja melhoraria... E tudo ficaria bom para nós três... O que você acha ?
- Eu concordo. - Chutei o pau da barraca. Já que estava na cara mesmo, para que bancar o humilde ?
Era um plano de certa forma, maquiavélico. Mas eu não conseguia me importar com o que ia acontecer com a Letícia. O importante era ficar perto do Robson todos os dias...
Houve uma reunião dias depois, e foi negociada minha troca de loja com a Letícia.
Quem sabe trabalhando para um gerente bonitão como o Maurício, ela se sentiria mais animada ?
Duas semanas depois, eu comecei novamente na loja do Robson.
Apesar das minhas expectativas, logo no primeiro dia, uma guerra começou...
Capítulo XXXII
Imaginem como estava meu coração para começar a trabalhar novamente na mesma loja do Robson. Principalmente numa situação que nos deixaria muito mais próximos, pois ambos faríamos parte da mesma equipe gerencial.
Logo no dia em que cheguei, fui recebido com abraços melosos de todos os funcionários, parecia que me consideravam um salvador da pátria, o herói que iria salvar a loja da bagunça total... Letícia realmente teve problemas ali...
Naquele dia, Robson estava no turno da manhã, abrindo a loja, e eu fecharia. Cheguei às 17:00. Queria Ter entrado às 10:00 da manhã, para ver o Robson mais cedo. Mas preferi conter a ansiedade.
Troquei-me, e iniciei meu plantão.
Era uma tarde ensolarada. O céu quase vermelho. Pássaros cantando pelas árvores da praça que ficava em frente à loja. A primavera começava a mostrar sua cara.
Era um cenário perfeito para um comercial de margarina. A vida parecia se esforçar, criava um cenário de final feliz na minha vida.
Mas infelizmente, felicidade demais parece prenunciar desgraças.
Em menos de meia hora depois em que iniciei meu plantão, escuto uma discussão vindo do setor de delivery.
André estava brigando com o Robson.
- Eu não vou levar o lixo para fora porque sempre sou eu que faço isso. Mande uma das meninas levar. - Ralhava André.
- André, todas as meninas estão ocupadas. Você está apenas dobrando caixinhas. E já tem várias caixinhas dobradas na loja. - Robson tentava educadamente pedir ao André, inutilmente.
- Escuta aqui, Robson, nem minha mãe manda em mim... Não vai ser um baixinho metido a esperto que vai mandar, não.
O Robson era bonito, era forte, era malhado. Mas não gostava de criar encrenca com ninguém. Uma vez nós fomos ao shopping, e ele recebeu um lanche errado de uma lanchonete. Nesta ocasião, perguntei se ele queria que eu trocasse o lanche. Ele preferiu deixar passar batido.
Eu também sou assim. Bobo. De um modo geral, se uma pessoa me ofende, me xinga, no máximo eu finjo que não é comigo. Mas pelo Robson eu era capaz de tudo neste mundo. Acho que seria capaz de partir para cima de qualquer lutador de Jiu-Jitsu se necessário fosse.
Entrei no delivery, e friamente, falei como se conta uma fábula infantil, num tom sereno, mas carregado de um ódio cego:
- Se sua mãe foi incapaz de te dar uma educação decente, nós não temos nada a ver com isto. O Robson é gerente da loja e você vai tratá-lo como tal.
- Vilser, é que o Robson não sabe pedir as coisas. Como todos já estavam acostumados a me respeitar, o loirão abaixou a voz no mesmo instante, quase gaguejando.
- Eu não quero desculpas. Aqui não é um lugar onde você faz o que quer, rapaz. Você está aqui para trabalhar. - Comecei a levantar a voz, atraindo mais funcionários para o setor.
Todos sempre gostaram muito de mim porque meu estilo de dar bronca era completamente diferente do que eu fazia naquele momento. Eu sempre chamava as pessoas de canto, e tentava explicar porque era necessário que minhas ordens fossem cumpridas.
Mas não daquela vez. E aquele ato era intencional, todos deveriam saber o que eu queria naquele momento.
- Escuta aqui, Vilser. Ninguém levanta a voz para mim não.
- Escuta aqui você, André. Na hora de falar alto com o Robson, você se acha no direito de defender seus interesses de proletariado perseguido pelo patrão. E depois vem querendo que alguém fale com educação com você. - Respirei fundo e falei num tom mais baixo.- Simplesmente obedeça às ordens que vêm de seu superior. Ninguém está te pedindo nada além do que você pode fazer com uma mão nas costas.
André, abaixou a cabeça, tomou o rumo da lixeira e resmungou para que poucos ouvissem, cuidando para que não chegasse aos meus ouvidos mas chegou:
- Fica aí defendendo o namoradinho e quem se fode sou eu!
Ouvi alguns risos.
- André. - Chamei-o no mesmo instante, mais sereno ainda. Quanto mais irritado eu ficava, mais tranqüilamente eu falava...
- Fala... - Com ar de quem estava apenas brincando o tempo todo.
- Sua opinião sobre o que pode existir entre eu e o Robson não me interessa, e ai daquele que ficar levantando piadinhas sobre isto na minha frente. Caso vocês não saibam... - e isto eu falava para todos - Quem manda nesta loja sou eu, e podem ter certeza que eu vou tirar da minha frente quem estiver no caminho.
Um silêncio e uma cara de medo tomou conta das pessoas que ali estavam.
- André, você não precisa mais levar o lixo para fora... Pode pegar suas coisas e ir para casa neste mesmo instante...
- Eu vou falar com o Sr. Thomaz... - indignou-se André.
Ele foi. E o Sr. Thomaz disse à ele que não se intrometeria. A loja estava em minhas mãos. Eu tinha carta branca para fazer o que bem entendia... Inclusive demitir o loirão que eu havia contratado por achá-lo bonito...
Capítulo XXXIII
Na mesma noite em que ameacei o André, Alessandra veio falar comigo.
Eu estava na sala da gerência, digitando a produtividade do dia, quando ela chegou:
- Vilser, posso falar com você?
- Claro, pode entrar... - Falei, sem tirar os olhos do computador, de certa forma imaginando sobre o que se tratava.
Ouvi-a respirando fundo, como se tomasse coragem para algo...
- Vilser. Tudo bem que o André merecia uma lição. Mas eu acho que mandá-lo embora seria ir longe demais. Eu sei que você não é tão ruim assim.
Eu sabia que ela me pedia isto porque estava interessado nele.
Sabia também que ela sentia por ele o mesmo que eu sentia pelo Robson.
Voltei-me para ela, e disse:
- Alessandra. Cada um neste mundo constrói seus próprios caminhos. Cada um paga pelos seus próprios pecados...
- Eu sei, Vilser. Mas será que não tem outro jeito ?
- Alessandra... Eu não posso permitir que nem o André, nem ninguém, atrapalhe meus planos com o Robson. - Eu falava, num tom de tranqüilidade que eu mesmo me espantava... - Eu não cheguei até onde cheguei se não estivesse disposto a tudo. Pode ter certeza de que eu sou capaz de derrubar quem entrar na minha frente, sem sombra de dúvida.
- E se o Robson estivesse te usando para isto mesmo? - Disse-me Alessandra em tom de ameaça - Te usando para conseguir nesta loja tudo o que ele quer...
- Do que você está falando?
- Ora, Vilser. Eles - o Robson e o Thomaz - podem muito bem estar apenas usando sua influência para deixar esta loja como eles gostariam... O Robson pode nunca ter gostado de você... Mas teria deixado as coisas chegarem onde chegaram apenas para conseguir o que ele queria... Mandar e desmandar na loja... Você já pensou nisto ?
Não posso negar que aquela afirmação não soava estranha aos meus pensamentos...
Muitas vezes eu me peguei pensando naquilo, pensando que tudo o que o Robson queria era obter o meu apoio incondicional, assim como ele fazia com a namorada dele, ele poderia estar me usando para conseguir o que queria...
Mas era tarde demais para mudar o rumo da história. Seja lá qual fosse a intenção do Robson, eu deveria arcar com as conseqüências.
- Alessandra, eu já não me importo com o que vai acontecer. Não me importo se o Robson está apenas me usando. Tudo o que eu quero é aproveitar cada minuto da minha vida que eu possa viver ao lado dele. Ninguém, nem mesmo você, por mais que eu goste de você, vai me impedir disto.
Eu comecei a chorar. Pois era possível que ela estivesse certa, e o Robson estivesse apenas me usando para poder mandar na loja com mais facilidade.
Ela começou a chorar, pois sabia o quanto eu o amava, e entendia minha dor e meus atos.
- Vilser, e se convencer o André a não mais enfrentar o Robson, e ficar do nosso lado, ele pode ficar ?
- Se você tiver tanta influência sobre ele... Mas na primeira pisada de bola, você já sabe...
Eu me sentia dividido em transformar minha vida em inferno ou paraíso... Como conviver com o André depois do comentário que ele fez sobre o que poderia existir entre o Robson e eu...
Mas eu sei o quanto o amor é doloroso, e permiti que Alessandra pudesse sonhar um pouco mais com ele.
Os dias se passaram...
Mas, ao contrário do que eu temia, o André acabou sendo domado pela Alessandra, e tornou-se obediente ao Robson. Nunca mais houve problemas entre nós.
Robson vivia me abraçando, me agarrando por trás, até na frente dos outros funcionários... Mas não tivemos mais nenhum contato tão íntimo como naquela noite que havia se passado. Nem quando estávamos a sós.
Uma certa vez, fomos ao shopping, e quando ficamos a sós, resolvi perguntar a ele:
- Você está arrependido do que houve entre nós?
Ele olhou para cima, como se eu o pegasse de flagra, como se temesse aquela pergunta.
E isto aumentava a minha preocupação sobre ele apenas estar me usando.
- Vilser. Eu disse uma vez que tudo tem a hora certa para acontecer... Respirou fundo, e continuava a falar, sem olhar para mim: - Eu não vou mentir para você. Eu ainda estou confuso. Eu não sinto atração por nenhum homem. Mas você mexe comigo. Eu sinto um prazer imensurável quando estou com você.
Naquele dia, eu me deixei levar pelo carinho, por uma certa vontade.
Mas eu não sei se isto é amor. Se é tesão. Ou se é só uma amizade muito forte.
O problema é que eu não quero te magoar, sei o quanto você gosta de mim. Não queria te dar esperança de algo que eu não sei se poderia te dar, então, hoje eu evito ir longe demais.
Fiquei confuso. Eu estava triste, por não ser amado como eu gostaria de ser, pela pessoa que eu queria. Feliz, porque sabia que eu nunca ouviria isto de nenhum outro homem teoricamente heterossexual.
Para encerrar a conversa, ele comprou um par de churros, e fomos ao cinema, onde ele sentou-se ao meu lado, e deitou seus braços em minhas pernas durante todo o filme...
...
Meses se passaram, e eu não perdi as esperanças de que um dia ele romperia a barreira do medo que ele tinha em se aceitar , e aceitar seu amor por mim.
...
Mas, embora nosso relacionamento, mesmo em passos de tartaruga, melhorasse a cada dia, a situação financeira da loja não ia de vento em popa.
Um boato surgiu de que nossa loja seria fechada em três meses.
E, provavelmente, nem todos seriam remanejados para outra loja.
Se Robson fosse mandado embora, provavelmente eu nunca mais o veria, pois sem recursos, ele voltaria para Londrina, e aos poucos nosso relacionamento se deterioraria.
Num daqueles dias, num ímpeto de desespero, entrei dentro da gerência, e falei com ele:
- Caramba, o que vai ser de nós se a loja fechar?
Ele virou-se para mim, olhou nos meus olhos, e disse:
- A gente podia abrir um negócio. Só nós dois.
Eu ria por dentro...
- Você está falando sério? E a gente ia abrir o quê? - Eu estava incrédulo.
- Nunca falei tão sério com você, em toda minha vida. A gente abre uma vídeo locadora. Pequena, claro. Eu sei o quanto você gosta de filmes. Podia ser aqui por perto, ou perto da sua casa.
- Você tá de gozação. - falei.
- Para você não duvidar de mim, amanhã mesmo a gente poderia se informar sobre o quanto custa o material necessário...
Capítulo XXXIV
Eu fiquei surpreso com o convite.
É como se de repente, em minha frente, eu enxergasse uma estrada pavimentada que me levaria à realização do sonho que acalentava durante tanto tempo.
Se Robson estivesse realmente falando sério; se tudo aquilo não passava de uma miragem criada pelos meus ouvidos, aquele negócio, a locadora, seria nosso elo eterno, eu não precisaria temer o fechamento da loja onde trabalhávamos.
Ainda incrédulo, concordei com sua idéia, e combinei com ele um horário para pesquisarmos os preços de fitas, estantes, e aluguéis de pontos, para que pudéssemos fazer um cálculo de quanto seria necessário investir.
No dia seguinte, folga do Robson, chego ao lugar que combinamos: na estação República do Metrô, às 9:00.
Na região, encontram-se várias lojas que vendem acessórios para pequenos negócios.
Claro que devido à minha ansiedade, eu fui extremamente pontual.
Quinze minutos depois, o Robson não chegou, e eu já estava desesperado.
"Será que ele havia desistido de tudo?" eu pensava, numa angústia que me deixava tonto.
Algo me consumia por dentro. Uma sensação de algo errado estava para acontecer.
Robson chega. Fico aliviado. Entretanto a sensação de que algo estava errado, não passou, mesmo com a felicidade que eu sempre sentia em ver aquele belo rapaz.
- Achei que você não vinha. - eu disse, assim que o vi.
- E por quê? - ele perguntou.
Até pensei em me abrir e contar a verdade. Pensei que ele não viria porque tudo o que ele queria era ganhar alguma coisa com a minha amizade. Fora da loja, só uma confiança muito grande poderia continuar nos unindo. Mas ainda não era hora de abrir nenhum jogo, limitei-me a dizer:
- Você nunca atrasa. E hoje chegou quinze minutos fora do horário.
- Foi o trânsito. Eu tive que pegar ônibus antes do metrô, e não vou mentir, eu acordei um pouco atrasado. Dia de folga, sabe como é...
Eu não consegui ficar bravo com ele. E não era o melhor momento para arrumar discussão, visto que todo o nosso relacionamento devia ser muito mais trabalhado por mim se aqueles realmente fossem os últimos dias da nossa loja.
Seguimos em direção das lojas.
Nas lojas, começamos a fazer uma pesquisa de preços. Ele anotava tudo, e questionava com o vendedor o material mais vantajoso e outros detalhes.
A sensação estranha dispersava-se aos poucos.
Meu sorriso ia até as orelhas. Parecia que tudo caminhava para a realização daquele sonho. Nós dois, sozinhos, trabalhando em nosso próprio negócio.
Mas a vida real não é um filme onde, depois de vários sustos, tudo caminha para um final feliz...
Feita a pesquisa, resolvemos discutir de que forma o dinheiro seria investido.
Fomos almoçar no Shopping Ibirapuera, pois mais tarde eu iria trabalhar.
Durante o almoço, ele ficou fazendo algumas contas.
Ele olhava seus cálculos, depois me apresentou uma forma de pagamento que pelos meus cálculos, nós não conseguiríamos pagar com o dinheiro que receberíamos depois que o restaurante fechasse.
- Robson. Eu acho que desta forma não daria para começarmos. Teríamos que começar de uma maneira mais simples.
- Eu acho que dá sim. Eu só precisaria verificar com a Vanessa com quanto ela pode arcar no negócio.
Vanessa ?!?!?!?
- Mas, Robson... Comecei a falar num tom quase de desespero...- Você disse que o negócio seria só nosso... O que a Vanessa tem a ver com isto?
- Vilser. Eu sei o que eu disse. Mas é que só com nosso dinheiro, mal daria para começar. Se você for mais racional, perceberá que com a ajuda dela, ficaria muito mais fácil o negócio decolar e dar retorno o quanto antes... Além do mais, nós precisaríamos de um carro para carregar fitas e outras coisas, e nós não temos...
O castelo do meu amor pelo Robson, que parecia tão sólido, com alicerces que a muito sofrimento eu construíra, começou a ruir. Desmoronava a golpes de bigornas arremessadas de todas as direções.
Eu milionésimos de segundo, eu imaginei todo o futuro.
Provavelmente o Robson nunca deixaria a Vanessa.
Ela era o alicerce financeiro dele. E também a prova de masculinidade que ele podia apresentar para sua família e amigos. Não importa de quem ele realmente gostava, eu nunca o teria.
Eu o veria casando-se, tendo filhos. Com muita sorte, talvez rolasse uma coisa ou outra comigo, mas eu nunca o teria só para mim. No máximo seria um amante.
Eu não queria aquilo. Eu acreditava em destino. Acreditava em almas gêmeas. Acreditava em Deus, e durante a minha vida, percebi que Deus nunca me fez sofrer por gostar de outros homens.
Eu sofria pelo Robson. Mas sofrer por amor nunca foi privilégio de homossexuais.
Como eu acreditava nestas coisas, se algo desse errado, era porque eu não conseguia fazer com que Robson enxergar que eu era sua alma gêmea. E não a Vanessa.
Derrotado, levantei-me da mesa, e não falei mais nada. Deixei a comida por lá mesmo.
- Vilser. Pára com isso, cara. Volte aqui. - O Robson gritava da mesa.
Eu não respondi.
"The winner takes it all" A música do Abba tomava conta da minha cabeça. Eu era a música do Abba.
Robson levantou-se da mesa, correu em minha direção, e parou na minha frente.
- Vilser. Pára com isto, deixa de ser criança!!
- Robson, você fez a sua escolha, cara. Eu não tenho que me sujeitar a isto. Eu não sou obrigado a passar o resto da minha vida vendo você com a Vanessa.
A situação era caótica. Estávamos no meio da praça de alimentação do shopping. Claro que muitos perceberam o que estava rolando ali. Muitos escutaram.
Tudo bem que naquele shopping, as pessoas habituaram-se um pouco mais a ver homens vestindo roupas fashion, nitidamente gays, sem excesso de constrangimentos.
Mas olhavam com olhos de espanto ao ver dois rapazes em roupas sociais, nada fashion, tipicamente masculinos, discutindo daquela maneira, nitidamente por ciúmes.
Eu estava mandando o mundo à merda!!! Devido à minha fúria, era mais fácil eu quebrar a cara de todo mundo do que apanhar de algum engraçadinho...
- Vilser. Vai, meu. Senta lá, cara... - Robson parecia sequer notar que havia um mundo além de nós...
- Eu não com fome, cara. Eu tenho que ir trabalhar.
- Tem que trabalhar, o caralho!!! Você só vai entrar daqui a duas horas...
Não conseguia responder. Meus olhos estavam cheios de água. Se eu falasse, provavelmente gaguejaria e desabaria em lágrimas.
Por que ele lutava a cada minuto, a qualquer custo, por nossa amizade ? Mas não lutava por um amor que podia existir entre nós?
Eu segui em frente, e ele me acompanhou em silêncio.
...
Nos dias que se seguiram, ele conversava comigo, brincava, tentava me animar.
Eu tentava aproveitar sua companhia, sendo simpático, sabendo que a qualquer momento nossa loja podia fechar, mas vivia nitidamente triste, mal falava. E em qualquer momento em que ficava sozinho, eu chorava copiosamente.
Foi então, que Thomaz disse que Robson tinha que sair de férias, pois já estava para estourar o prazo de dois anos para isso.
E assim foi feito. Tirou vinte dias. Disse-me que era para voltar logo.
Claro que ele foi passar as férias em Londrina.
...
Duas semanas depois, o pessoal do restaurante resolveu fazer uma festa. Na loja mesmo, para comemorar o aniversário da Alessandra.
Naquela noite, todo mundo exagerou na bebida. Mas o Guilherme, um dos motoqueiros, ficou um tanto alterado com a quantidade que bebeu.
Passou a noite inteira me olhando com aquela mesma cara estranha que ele olhara quando fomos à praia.
Capítulo XXXV
Durante os meses em que trabalhei na loja, mal percebia a presença do Guilherme na loja...
Eu tinha olhos apenas para Robson.
Sempre que se fazia necessário, conversava com Guilherme somente o indispensável, referente ao trabalho.
Eu esquecera completamente da noite em que fomos à praia, onde Guilherme também estava. E me esquecera também da forma que ele me olhava, enquanto beijava e agarrava a Gisele, uma das funcionárias da loja.
Naquela noite na praia, ele olhava para mim e para o Robson como se a qualquer momento fosse falar algo, soltar uma piada, como se soubesse que algo existia ali. Mas nunca falou.
Quando passamos a trabalhar na mesma loja, Guilherme era sempre simpático e educado comigo, obediente, sem ser puxa-saco, enfim, era o melhor motoqueiro da equipe. Por isso, esqueci seus olhares enigmáticos daquela noite.
Mas na festa da Alessandra, que fizemos dentro da loja onde estávamos trabalhando, assim que encerramos o expediente, Guilherme exagerou um pouco na bebida...
E passou a olhar-me novamente com aquele sorriso matreiro na cara.
Como eu estava magoado com tudo o que acontecera com o Robson em relação à criação de nossa própria loja, e também irritado com a viagem que ele fez em suas férias, onde mais uma vez não me deu sequer um telefonema... Eu estava mandando qualquer um à mais mal-cheirosa de todas as merdas.
Fui à festa naquela noite, apenas para ver se havia um mínimo de possibilidade de manter a ordem, já que o pessoal era bagunceiro demais, e porque Thomaz não poderia ficar naquela noite.
Por isso, não dei muita atenção aos olhares de Guilherme.
Nesta festa, também estava Giulia, uma garota lésbica muito bonita que foi cobrir as férias do Robson, como terceira gerente.
Assim que chegou, Giulia apaixonou-se perdidamente pela minha amiga Alessandra, foi algo fulminante, de tão rápido.
Movida por uma curiosidade que eu jamais seria capaz de explicar, Alessandra deixou Giulia aproximar-se, e até deu alguns beijinhos dela, mesmo todos sabendo que ela gostava do André, e que as coisas entre eles estavam começando a decolar.
Alessandra me disse que a beijou por amizade...
Eu já li este livro antes...
A festa de aniversário de Alessandra, aliás, foi idéia de Giulia, que comprou bolo, bebidas, e tudo o mais por conta própria...
As três da manhã, todos já estavam pra lá de Bagdá... Embaixo de tudo quanto é bombardeio...
Resolveram que era hora de cortar o bolo.
Giulia chamou a todos, acendeu as velinhas, iniciou e animou a música de parabéns, cantou E pra Alessandra, nada? Tudo!!! É pique é pique, é hora é hora é hora...
Ajudou-a a assoprar as velas, e resolveu perguntar pra quem seria o primeiro pedaço do bolo...
Honestamente, eu já vi esta história de dar o primeiro pedaço de bolo virar mágoa, briga e ressentimentos...
Mas eu nunca vi as coisas acontecerem daquele jeito...
O primeiro pedaço de bolo de Alessandra foi para:
André, claro!!!
E claro, Giulia pegou todo o resto do bolo, e arremessou contra o rosto de Alessandra.
Eu, melhor amigo de Alessandra, não pude deixar de achar bem-feito.
Só eu sei o quanto doía em Giulia...
Em seguida, todo mundo, bêbado, começou a atirar pedaços de bolos pra tudo quanto é lado da loja...
Tudo ficou emporcalhado de bolo: mesas, paredes, cadeiras, chão...
Ainda houveram algumas discussões, mas nenhuma briga séria, no fim das contas, todos levaram aquilo na brincadeira, até mesmo Giulia.
Ânimos esfriados, organizei um mutirão para limpar a sujeira toda.
Mas tinha uma parte onde a limpeza era mais difícil, um trecho da recepção, onde havia um carpete...
Peguei uma escova de cerdas grossas, um pequeno balde com sabão, e pus-me a lavar o carpete.
Em seguida chega o Guilherme, com outra escova, dizendo:
- Vai, chega mais pra lá...
Feliz em receber ajuda, dei um sorriso e nem respondi, apenas afastei-me um pouco, e continuei a esfregar...
O resto do pessoal retirava as louças e limpavam os fundos do salão...
Ficamos ali, eu e o Guilherme, de quatro, esfregando o carpete...
Num dado momento, ele levanta bruscamente e fica de joelhos, e olha para mim...
Eu continuo a esfregar...
Ele permanece parado, olhando para mim...
- Já cansou, molengão?- Falo, sem me levantar, mas olhando pra ele.
- Molengão... - ele resmunga...- É que eu não sou que nem você, que já está acostumado a ficar com o rabo virado pro ar toda vez que dá o cú...
Não respondi.
Levei na brincadeira.
Considerei aquelas palavras apenas uma resposta automática de defesa masculina. Eu sabia que ele estava bêbado. Se ele fosse mais longe, eu simplesmente o demitiria por desacato...
Mas ele foi muito mais longe, embora não da maneira que eu esperava...
- Aliás. Que belo rabo você tem... - Falou, com uma cara de quem estava sedento por sexo...- Dá até gosto ficar olhando.
Eu ensaiei uma resposta grossa. Fingi estar irritado. Mas eu não estava, eu estava gostando de ver aquele motoqueiro, um troglodita imenso, de tanta força e masculinidade, com seus cabelos encaracolados encharcados de suor e seus olhos verdes pegando fogo a me provocar.
Contive meu tesão. Afinal de contas eu era seu superior. Não podia facilitar as coisas.
Levantei-me e falei:
- Pois termine o serviço sozinho, Guilherme. Para você se acostumar a ficar de rabo pro ar...
Fui para a cozinha, onde havia pilhas de louça para serem lavadas...
Aos poucos, conforme a limpeza terminava, e os ônibus voltavam a circular normalmente, o pessoal ia para casa.
Às cinco da manhã, estávamos na loja, eu, Alessandra, André e Guilherme.
André e Alessandra limpavam o resto do chão, eu lavava o resto de louça, e o Guilherme me observava.
Havia sobrado alguns docinhos, e Guilherme os comia. Estávamos na área da lavagem de louças, ele estava sentado na mesa de pratos. E perguntou:
- Quer ajuda?
- Não, obrigado, já estou terminando- respondi.
- Quer um doce? - insistiu o motoqueiro.
- Depois eu pego. Minhas mãos estão molhadas...
Sem que eu percebesse, pois estava concentrado na lavagem, Guilherme colocou-se ao meu lado, e veio com aquela mão enorme e com unhas ainda meio sujas de graxa, trazendo um brigadeiro à minha boca.
- Tó. Come.
Por mais que o Robson não me saísse da cabeça, aquela cena me excitou. Guilherme era um homem maior do que eu, e também era forte sem a ajuda de academia, corpo talhado só de serviços pesados... Como o Robson era.
Seu ato de intimidade me fez ter uma ereção imediata...
Tentei disfarçar, mas não consegui...
E na minha tentativa de cruzar as pernas para tentar esconder o óbvio, Guilherme percebeu que eu sentia tesão por ele, naquele momento.
- Você tá a fim, não é mesmo?
- A fim de que, cara ? Você está bêbado...
- Tô bêbado mas não tô morto, eu sei muito bem do que é que você está a fim... Eu também to, ó, pode por a mão...
- Guilherme, você ficou maluco? Tem gente na loja...
Ele levou minha mão molhada de sabão até a sua cintura... e eu pude conferir o quanto ele estava a fim, sem que ele tirasse a calça.
- Eu tô a fim de você desde o dia em que eu vi você beijando o CDF do Robson lá na praia... Mas ele não é homem pra você, eu sou...
Meu coração disparou.
Eu estava assustado, mas excitado ao mesmo tempo.
O que me atraía no Robson era sua gentileza, sua simpatia, o cuidado que ele tinha ao falar comigo, o fato dele ser um herói incompreendido.
O Guilherme era um cara tipicamente heterossexual, com tudo o que há de negativo num cara heterossexual também. Meio estúpido, meio insensível, bronco. Ele tinha um rosto muito bonito, de homem mesmo, não de bebezinho como o Robson. Mas suas atitudes nunca me despertaram sequer imaginar que ele fosse um cara que pudesse estar a fim de transar com outros caras...
- E aí, chefinho? Tem jeito? - Aproximou-se e cheirou meu pescoço.
Permaneci imóvel.
Eu pensava no Robson... Pensava em tudo aquilo que poderíamos ter sido. Pensava que com ele cada dia seria delicioso, pois era um cara com quem eu gostava de conversar, com eu realmente me divertia... O Guilherme, mesmo se estivesse apaixonado por mim, jamais poderia me oferecer aquilo... Tinha conversa de macho. Vazio e sem muito papo, como a maioria dos héteros.
Mas Guilherme estava louco pra transar comigo, tomou toda a iniciativa, ao contrário do Robson, que nunca tomou nenhuma iniciativa, apenas cedeu...
Como Robson não caiu aos meus pés, apesar de todo trabalho árduo que tive, carente e desiludido, eu cedi ao Guilherme...
Despedimo-nos de Alessandra e André, que nem sonham com o que aconteceu.
Guilherme e eu, fomos para a casa dele, de táxi. Ele deixou sua moto na loja, pois estava bêbado demais para dirigi-la.
Mas não estava bêbado demais para entrar em ação na cama.
Mal chegamos em sua casa, onde mora sozinho, Guilherme jogou-se contra o sofá e pediu-me para tirar seus sapatos.
Foi o que eu fiz.
- Ah, meu chefinho. Agora quem manda em você sou eu, seu homem.
Saquei qual era a fantasia dele. Dominar e possuir seu próprio chefe.
Mas eu precisava daquilo. Precisava me sentir desejado.
Guilherme me possuiu como possuía uma de suas amantes.
Era carinhoso com o corpo mas rude com as palavras...
Sugava meu pescoço como um vampiro sedento... Eu não me importava, estava excitado demais.
Ele me fazia lamber seu corpo como se fosse meu dono.
Jamais o imaginaria como meu príncipe encantado, mas como amante, ele era imbatível. Jamais tive um homem que transasse bem como Guilherme.
Ao acordarmos, Guilherme não teve nenhuma reação drástica, apenas disse que precisava buscar sua moto na loja para levar sua noiva - sim, ele era noivo - não me lembro para onde. Mas perguntou se eu gostei de pertencer a ele...
Acenei que sim com a cabeça, e ele disse que se eu quisesse, poderia tê-lo sempre que precisasse...
Fui para casa, tomei um banho e voltei para loja.
E trabalhei naquele dia tentando esconder o tempo todo a marca de chupada que o Guilherme havia feito em meu pescoço.
Faltando cinco dias para o fim de suas férias, Robson aparece na loja, corre para a gerência para me cumprimentar e me abraçar.
Ao terminar de me abraçar, vê a marca roxa em meu pescoço.
Seus olhos azuis ficam vermelhos de ódio... Ele dá um soco na mesa.
E começa a chorar.
Capítulo XXXVI
A batida que ele deu na mesa havia me deixado assustado.
Não porque eu tive medo da violência, mas porque eu tive certeza de que naquele momento, eu colocara tudo à perder...
Robson sentou-se na cadeira que havia na gerência, fechou a porta de vidro que dava acesso ao resto da loja e olhava para mim, com os olhos ainda rasos dágua, quando eu resolvi falar:
- Eu não estou te entendendo... Você achou que eu tinha que ficar sentado, esperando você vir até mim algum dia?
Ele olhava para o teto, como se minha resposta fosse um insulto a ele.
- Não, Vilser, pra falar a verdade, eu acho que teria feito a mesma coisa se fosse você... Mas é que, sei lá... Respirou fundo... - Eu sei que você não ia me esperar pra sempre, até porque eu nunca te dei certeza de que seria somente seu. Mas eu não imaginei que seria tão difícil saber que você dormia com outra pessoa.
- Se é doloroso para você, porque a gente não coloca um ponto final nesta história? Você larga a Vanessa, e eu nunca mais durmo com nenhum cara neste mundo que não seja você...
Sentei-me na mesa, ele colocou sua mão forte em meu joelho e apertando minhas pernas e abaixando a cabeça, falou:
- Vilser, eu gostaria que fosse tão fácil...
Irritado, forcei meu corpo para frente como se fosse levantar, ele segurou-me com as mãos, demonstrando que não tinha terminado de falar:
- Vilser, eu gosto muito de você, mas você tem que entender que nem todas as pessoas são iguais. Eu não sei como foi com você, se você já nasceu gay... Mas, eu tenho medo do que vai ser do meu futuro... Como ia ser com a minha família...
- Sua família não precisa saber que você gosta de homens...
- Vilser, até agora, pelo menos, o único homem por quem eu me interessei foi você... E ainda assim, eu não olho para você e vejo um homem... Sei lá. É como se você fosse feito para mim... Assim como eu costumava sentir pelas outras mulheres...
- Mais fácil ainda, cara. Robson, quem precisa saber que você gosta de mim ?
- Se eu largar a Vanessa, e continuar em São Paulo quando a loja fechar, eu ia morar onde? Com o Thomaz ?
- Meu, se você morasse comigo ninguém precisaria saber de nada...
- Vilser, se ficar rolando algo, uma hora alguém vai sacar...
- E você pensa que nesta loja- eu disse, incluindo o Thomaz, alguém já não tem certeza de que role alguma coisa?
- O pessoal desta loja não me interessa. Eu estou me fudendo para eles!!! Eu te beijaria na frente deles todos os dias, pois eles não me metem medo. Já o Thomaz... O Thomaz não falaria nada enquanto eu fosse útil para ele aqui na loja... Mas se eu abandonasse a Vanessa, provavelmente ele teria que inventar histórias sobre o porquê de eu não ter voltado para Londrina, para a minha mãe, meus irmãos...
- Eu acho que já entendi, Robson... Você tem medo de perder o apoio da sua família...
- É isso. Mas não é só isso... Eu tenho medo... De perder você...
- Até parece...
- Eu não estou bravo porque você aparentemente transou com outro cara... Como eu já disse, provavelmente eu teria feito a mesma coisa se fosse você... Mas é isso que me dá medo... E se eu resolvo abrir mão de tudo, jogar tudo para o alto, enfrentar o mundo, a minha família, e depois de três, quatro anos, você pode se enjoar de mim... Do mesmo jeito que você transou com outro cara, você pode se apaixonar por outro cara... E aí, Vilser... Não é como se eu me separasse de uma mulher... Talvez eu não tenha família para voltar...
- Eu acho que te entendo...
Ele levantou-se e olhou profundamente em meus olhos, e concluiu...
- Vilser, nem eu fui capaz de te amar a ponto de vencer meus medos, nem você foi capaz de me amar a ponto de me esperar para sempre... Eu não sei se alguém está certo ou errado, mas pelo menos, eu tentei te amar... Eu fiz uma força. Eu te dei uma brecha para fazer parte do meu coração, e você faz...
- Pena que não é como eu quero...
- Nem é como eu quero... Eu sei que não serve de consolo, mas lembre-se, você foi o homem que eu mais amei na minha vida... Quem sabe um dia, quando eu for mais forte, talvez amanhã, semana que vem... Ou daqui a um ano... Meu amor e minha saudade sejam tão fortes que eu abandone qualquer mulher neste mundo.
enviada por Vilser
12/02/2005 23:05
Obrigado pelo carinho e pelos comentários.
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BLOG DO VILSER
Um forte abraço!
Vilser
enviada por Vilser
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